Petista histórico do Maranhão, ao 75 anos, adere à greve de fome contra apoio do partido a Roseana Sarney.

Publicado em 15/06/2010 14:34 e atualizado em 15/06/2010 17:39 285 exibições



manoel-da-conceicaoAs esquerdas do PT tinham um herói até a semana passada, quando Lula decidiu bater o porrete na mesa e obrigar a seção do partido no Maranhão a apoiar a candidatura de Roseana Sarney à reeleição. Seu nome é Manoel da Conceição (foto acima, falando ao microfone). Volto a ele daqui a pouco.

O deputado Domingos Dutra (PT-MA), como já se noticiou aqui, deu início a uma greve de fome contra a decisão. Petistas do estado passaram a brindar José Eduardo Dutra, presidente da legenda, com delicadezas como “nazista”, “fascista” e “Hitler” — ele acha isso um certo “exagero”. Lula já deixou claro em Cuba o que pensa sobre greve de fome: uma verdadeira perda de tempo. Comparou, vocês se lembram, Orlando Zapata, vítima de uma feroz ditadura, a bandidos brasileiros. A fineza de seu pensamento ganhou o mundo. Mary Anastasia O’ Grady comentou o caso em seu artigo no Wall Street Journal (ver abaixo). O PT não está nem aí para o Dutra do Maranhão. Quer que ele se dane! Compreendo. Quando sindicalista, preso por alguns dias, Lula também fez greve de fome — que ele furava consumindo balas paulistinha… E agora a gente volta a Manoel da Conceição.

A exemplo de Sarney, Manoel também é maranhense. Só que não é um neocovertido. Fundou a legenda. Teoria e Debate, a revista oficial do partido, já lhe dedicou páginas generosasexaltando a sua pureza militante. Assim é apresentada a sua entrevista:
Numa tarde quentíssima em Porto Alegre, por ocasião do V Fórum Social Mundial, fizemos esta entrevista com Manoel Conceição, sem dúvida uma das mais importantes lideranças camponesas do Brasil em todos os tempos. Fundador do PT e um dos primeiros signatários de seu Manifesto, numa homenagem prestada na época à sua trajetória de lutas e à de todos os trabalhadores rurais brasileiros, Mané nunca parou de lutar ao longo de seus 140 anos - como ele explica - de vida. Estava em Porto Alegre como mais uma atividade política, participando dos debates sobre economia solidária, frente de batalha à qual se dedica nos últimos tempos. Com sua fala mansa e tranqüila de homem do campo, muito à vontade naquele calor senegalesco, Mané nos relatou sua vida heróica enquanto consumíamos garrafas e garrafas de água. Há homens que viveram epopéias, mas, infelizmente, não sabem contá-las ou o fazem mal. Azar o nosso. Não é o caso de Mané. Ele soube compreender e tirar lições de uma experiência de vida ímpar. Sorte a nossa, que podemos aqui desfrutar de seu relato.

Manoel da Conceição já perdeu uma perna “na luta”, foi vítima de um derrame e sofre de diabetes. E agora decidiu aderir à greve de fome do deputado maranhense. Sua reivindicação: que a direção do PT libere o partido no Maranhão para apoiar outro candidato — a legenda queria uma aliança com o deputado Flávio Dino, do PC do B.

Se o partido não estava dando a menor pelota para o deputado Domingos Dutra, a história com Manoel da Conceição pode ser um pouco diferente. Ele anuncia a disposição de ir até o fim — até agora, não se sabe se Lula comparou seu ato ao banditismo comum. E como Manoel da Conceição vê Sarney? Um trecho daquela sua entrevista deixa claro.

Como foi o episódio da perda da sua perna?
Eu perdi essa perna no dia 13 de julho de 1968. Nós convocamos um encontro de trabalhadores doentes, com malária, mulheres precisando fazer exame. O sindicato tinha contratado um médico em São Luís, o doutor João Bosco. Na hora em que ele estava atendendo, recebemos um recado do prefeito de que ia fazer uma visita. Nós aguardamos, de bom coração. E aí chegou foi a polícia - e, de novo, meteram bala. Desta vez não morreu ninguém, só saíram feridos e eu com essa perna baleada. O pé esbagaçou todinho. Fui preso, passei oito dias na cadeia em Pindaré-Mirim, mas não deram nenhum tratamento e a perna gangrenou. Quando cheguei em São Luís, tiveram de amputar. Até hoje ando de perna mecânica.

Mas houve uma pressão em São Luís, de estudantes, professores, o advogado, o próprio médico que fez a operação. Na época em que eu estava no hospital, o Sarney - que era o governador - chegou do Japão. Ele tirou uma comissão do secretariado de governo e mandou no hospital para pedir desculpas e fazer uma proposta: me daria uma perna mecânica, uma casa, um carro, mais um salário para mim e um pouco para a família, para eu trabalhar para Zé Sarney no Maranhão.

Sarney tinha sido o cara mais votado do Estado, porque quando foi candidato, em 1965, jurava, em cima de caminhão, que ia fazer a reforma agrária para vingar os massacres que os inimigos nossos fizeram com os irmãos dele - que éramos nós. Esse discurso pegou em cheio. Nós fizemos campanha para ajudar esse homem a se eleger. Mas foi a polícia dele que chegou lá em Pindaré-Mirim metendo bala. Aí eu lembrei disso e disse para eles: “Acho até importante o que vocês vêm fazer aqui, essa oferta, mas eu perdi uma perna na luta com os trabalhadores rurais, em defesa da terra, de sua produção e seus direitos. Esses trabalhadores têm condição de me dar uma perna, já que não posso comprar sozinho. Até porque eu considero a minha classe a minha própria perna daqui pra frentee”. E não aceitei. Depois disso, não recebi mais ninguém deles.

Então vim para São Paulo porque a perna não sarava. Fiz nova operação e nunca mais tive nenhum problema. Em 1969, quando estava em São Paulo, fui ao ABC, a Osasco e andei em São Paulo fomentando a criação de comissões de fábrica, para se transformarem em oposição sindical contra a ditadura militar. Fui para Minas, trabalhei muito em Contagem, onde tinha um companheiro operário chamado Enio Seabra, e lá fiz um trabalho com os operários - quase uns trinta dias fazendo reunião, discussão. E criando outras oposições, a Igreja foi criando, e foi crescendo esse trabalho.

Manoel é um petista à moda antiga. Ele deixa claras as suas simpatias naquela entrevista. Leiam seu relato sobre sua experiência na China:
O nosso pessoal tinha uma crítica ao programa da Rádio Pequim feito para o Brasil, que só falava da China, mas tinha medo de assinar essa crítica. Aí me colocaram para assinar. Eu assinei. A China tinha me oferecido uma perna mecânica bonita e nova, para poder participar da guerrilha. Um dia fui convidado para fazer a prova da prótese, e o camarada que me acompanhou me convidou para ir a outro lugar. Isso lá em Nanquim. Eu fui, e, para minha surpresa, era uma entrevista com o Mao Tsé-tung! Ele queria saber como estava a unidade do grupo na escola. Eu disse: “Está muito boa, legall”. Ele disse: “Não é bem isso de que estou informadoo”. Depois de muita conversa, ele deu uma gaitada: “Eu passei quinze anos isolado com uma divergência com o meu partido. Não rachei o meu partido, eles racharam comigo. Mas eu não racheii”. E continuou: “Quando você voltar para o Brasil, esqueça tudo o que aprendeu na China. Nós não valemos nada para o Brasil. Nada”.
Depois, ele deu um segundo parecer: “Quando você estiver numa luta interna, nunca seja o primeiro a propor ruptura com quem está no mesmo campo, porque isso não contribui para a reflexão dos outros. Mantenha sempre aquilo em que você acredita no debate, mas não provoque”.
E o terceiro parecer, que é para mim o mais importante: “Chegando ao seu país, comece a estudar a história do seu povo, a sua vida política, econômica, cultural, educacional, e comece, a partir daí, a construir um programa correspondente ao que esse povo quer. Porque a China foi importante, mas para a China. Para o Brasil, ela não é importantee”. E acrescentou: “Porque na China ainda existem os inimigos encapados de maoístas, mas que querem fazer da Revolução Chinesa um pé de sapato para o mundo inteiro, e isso não é possível. Isso é um dogmatismo. E o dogmatismo não pode ser aceito”. 
Ele falou outras coisas, mas essas três é que foram marcantes. Essa filosofia, eu até hoje mantenho no meu trabalho. Nunca propus em nenhum momento racha com ninguém da esquerda brasileira — nem no sindicato, nem na cooperativa, nem em canto nenhum — porque não acredito que seja uma solução com quem está trabalhando no mesmo campo de luta. Às vezes são questões de método, questões de visão, mas não são inimigos.

A partir de então, tenho Mao Tsé-tung como um líder que tem me ajudado muito. Tenho como sagrada essa orientação. Para minha surpresa, quando estava na Suíça, refugiado, fiquei sabendo do conflito na China, com a questão do Lin Piao. Não posso contar hoje por onde é que a China anda. Mas naquele tempo, para mim, ela estava num caminho bom, era um povo alegre, satisfeito. Eu vi lá muitos trabalhadores rurais que eram agricultores e passaram a ser grandes dirigentes do partido.

Essa entrevista é de 2005. Os petistas “evoluíram”. O PT da era Lanzetta-Dilma-Pimentel trocou, ainda que por razões estratégicas, Mao Tse-Tung por José Sarney. Difícil saber o que é pior.

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Delegado aceita convite do Congresso para depor sobre dossiê contra Serra

Na Folha Online:


O delegado aposentado da Polícia Federal Onézimo das Graças Sousa aceitou convite para depor no Congresso sobre a suposta fabricação de dossiês contra o tucano José Serra, segundo informou nesta segunda-feira a assessoria da CCAI (Comissão de Controle das Atividades de Inteligência).

O depoimento será na quinta-feira (17), às 9h. A CCAI é composta por senadores e deputados –a maioria da oposição.

O delegado disse que o jornalista Luiz Lanzetta –que era encarregado da área de imprensa da pré-campanha de Dilma Rousseff (PT)– lhe pediu que investigasse o candidato do PSDB à Presidência. Lanzetta nega ter feito o pedido.

O objetivo do convite da comissão é investigar como funcionam as empresas privadas de inteligência no país e verificar se há uso indevido da máquina pública na atividade.

Conforme reportagem da Folha, a chamada “equipe de inteligência” da campanha de Dilma investigou e levantou dados fiscais e financeiros sigilosos do vice-presidente executivo do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira.

O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) afirmou duvidar que Onézimo faça revelações importantes à comissão e defendeu que o seu partido acione o Ministério Público.

Também convidado a falar na CCAI, o sargento da Aeronáutica Idalberto Martins, conhecido como Dadá, ainda não respondeu. Dadá teria participado das reuniões com integrantes da campanha petista para discutir a elaboração de dossiês.

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Fonte:
Blog Reinaldo Azevedo (veja.com

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