Brasil: celeiro do mundo

Publicado em 29/06/2010 10:03 225 exibições

Relatório publicado pela Agência para Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO) e Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), na semana passada, veio confirmar o que para muitos já era esperado: o Brasil vai puxar a produção agrícola na próxima década e se firmará como o grande celeiro do mundo.<?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

Para Mendonça de Barros, as perspectivas do relatório da FAO e OCDE estão corretas, mas o quanto o Brasil poderá aproveitar essas oportunidades vai depender de sua capacidade em resolver problemas internos, como o de infraestutura, por exemplo. "O Brasil é um dos únicos países capazes de aumentar significativamente sua produção agropecuária. Mas para atender a demanda mundial, investimentos em infraestrutura se tornam urgentes", pondera.

Alexandre Mendonça de Barros é um dos palestrantes do 9º Seminário Internacional Agroceres de Suinocultura, que acontece de 4 a 6 de agosto em Porto de Galinhas (PE). Na entrevista a seguir, o economista fala sobre o aumento da demanda mundial por alimentos, faz projeções para o abastecimento e preços do milho e soja em curto e médio prazo, comenta a crise que castigou o setor suinícola norte-americano e explica porque 2010 será um bom ano para a suinocultura brasileira. Confira. 

A crise na Europa trouxe novas incertezas à economia mundial. Quais os reflexos que essa crise pode trazer para a economia brasileira?

Alexandre Mendonça de Barros - Havia um crescente otimismo em relação à recuperação da economia mundial nos últimos meses e o surgimento dessa crise na Europa tratou de diminuí-lo. Quanto aos riscos uma coisa certa: a Europa vai crescer muito lentamente nos próximos anos. A grande pergunta é se ela contamina o resto do mundo. Ou seja, se a crise dos países europeus contamina o sistema financeiro europeu, que, por sua vez, contaminaria o resto do mundo. Essa é uma possibilidade que não pode ser descartada, mas que acredito, é pouco provável. Há pouca probabilidade de uma crise financeira na Europa. Até por que as lideranças europeias tardiamente, mas finalmente, perceberam a dimensão do problema e tomaram medidas efetivas. 

A crise europeia tem gerado impactos nas cotações internacionais das commodities agrícolas?

Mendonça de Barros - Até aqui, muito pouco. Alguma coisa aconteceu nos grãos, mas o reflexo foi muito modesto. À medida que o dólar se valoriza, há uma tendência de as commodities perderem um pouco de valor. Toda vez que a crise se acentua todo mundo corre para o dólar, ele se valoriza e as commodities perdem um pouco de força. Isso aconteceu assim que a crise europeia se manifestou. Mas com o anúncio das medidas para conter a crise os mercados se acalmaram e os preços das commodities se sustentaram. Outro dado importante é que estamos vivendo um momento de recuperação da demanda nos EUA e na América Latina. E na Ásia a demanda se mantém firme. Fundamentalmente, só a Europa está desconectada desse processo. 

Que influência a combinação de boa oferta mundial e estoques confortáveis de grãos terá sobre preços do milho e da soja?

Mendonça de Barros - No caso do milho é preciso separar o mercado interno do externo. No mercado internacional, de fato, há uma safra grande, que tende a se repetir nos EUA neste ano. Mesmo considerando as condições climáticas adversas desta semana nos EUA - tem chovido muito e o mercado está especulando com o clima -, acredito num ciclo de abastecimento muito bom. É importante perceber que embora os preços do milho e soja tenham caído bastante, a safra brasileira e argentina deste ano foi muito boa. O ganho de produtividade compensou a queda dos preços. Em alguns casos totalmente, dependendo da região. Nosso agricultor está relativamente capitalizado. Ele perdeu em preço, mas ganhou em volume. Ao mesmo tempo, a demanda tem se mostrado muito firme, se recuperando nos EUA e mantendo-se forte na Ásia. Esse quadro de demanda tende a sustentar os preços.

Acredito que vamos plantar uma área de soja neste ano até maior do que a do ano passado, em detrimento da área de milho. O plantio americano foi muito forte, tanto de milho quanto de soja, na China também, então devemos repetir em 2011 um ciclo de área plantada muito semelhante, senão crescente. O problema chama-se clima. Tudo indica que teremos o La Niña no próximo ano. Esse fenômeno climático no hemisfério Sul implica, em geral, numa safra menor. Portanto, dificilmente vamos repetir as produtividades recordes que tivemos neste ano. 

O relatório anual Perspectivas Agrícolas 2010-2019 elaborado pela FAO e OCDE, afirma que o Brasil terá o mais rápido crescimento da produção agrícola no mundo nos próximos dez anos. Que avaliação o senhor faz dessas perspectivas?

Mendonça de Barros - As perspectivas estão corretas. O Brasil é um dos poucos países que tem área para crescer. A demanda existirá, o ganho de produtividade vai continuar acontecendo no mundo inteiro, mas ele não dará conta de atender essa demanda mais robusta, reflexo de um crescimento econômico mundial mais forte. Então caberá ao Brasil ocupar esse espaço e nós vamos ocupá-lo.

Agora, precisaremos de infraestrutura. Como vamos escoar essa safra, por exemplo? É importante estarmos atentos às restrições logísticas brasileiras. Caso contrário, essas restrições vão começar a impactar os preços dos alimentos no mundo. O motivo é simples: se não dermos conta de atender essa demanda crescente, os preços subirão. Num quadro em que vamos exportar mais para atender a demanda internacional, investimentos em infraestrutura tornam-se urgentes. 

Após um período de rentabilidade negativa, a suinocultura brasileira vive um período de recuperação. Que perspectivas o senhor vislumbra para o setor em 2010?

Mendonça de Barros - As perspectivas são boas. O Brasil tem um bom potencial de consumo interno e de exportação. O preço dos insumos vão se manter em patamares relativamente bons para os suinocultores. Isso significa que os custos de produção seguirão relativamente baixos. O mercado interno brasileiro está aquecido. Estamos mais próximos da China, e da Ásia como um todo, e podemos, eventualmente, ter um espaço maior no mercado internacional. Isso ajudaria tremendamente o setor suinícola brasileiro. Os custos estão contidos e preços internacionais bem melhores que os do ano passado. Parece que 2010, de fato, é um ano de recuperação. 

O setor suinícola norte-americano viveu nos últimos anos a maior crise de sua história. Apesar do mau momento, a suinocultura nos EUA encolheu apenas 3% entre 2008 e 2010 e o setor continua muito competitivo. Que lições o Brasil pode tirar desse episódio?

Mendonça de Barros - O governo norte-americano socorreu os suinocultores num momento de crise extraordinariamente aguda para o setor. Essa ajuda evitou um ajuste de oferta muito grande. Os cinco primeiros meses de 2010 mostram que a estratégia foi acertada. Hoje há nos EUA um quadro de recuperação de preços, que é reflexo da retomada da demanda. E a estrutura de produção suinícola, por sua vez, estava lá para responder o reaquecimento da demanda proveniente do crescimento econômico. A lição que podemos tirar é que em momentos de crise muito aguda faz sentido econômico dar suporte ao produtor. Isso é uma questão de política pública que me parece relevante e que precisa ser acionado em momentos emergenciais. 

Na opinião do senhor, quais os impactos que o movimento de concentração no setor de carnes vai trazer para o mercado e, em particular, para os produtores?

Mendonça de Barros - A concentração tem um ponto muito favorável, que é tornar as empresas brasileiras globais. E a formação de empresas globais pode facilitar o acesso da carne brasileira no mercado externo. Isso é algo muito positivo e que pode mudar o tamanho da suinocultura brasileira. O lado negativo é que toda concentração gera desconfiança de que o produtor pode perder margem. Isto é, que o ganho desses mercados beneficie mais as empresas em detrimento do produtor. Pessoalmente, acredito que esse ganho será repassado ao produtor, seja em volume ou em preço. De maneira geral, acredito que a formação desses players globais vai favorecer a participação brasileira no mercado internacional de carnes.

Todos esses assuntos que discutimos aqui, como a avaliação da economia internacional e brasileira e as perspectivas para os mercados de grãos e proteína animal, vou abordar em detalhes em minha apresentação no Seminário da Agroceres.

Tags:
Fonte:
Agroceres PIC

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

0 comentário