Serra se irrita em entrevista na TV e chama programa de "montado"

Publicado em 16/09/2010 07:20 e atualizado em 16/09/2010 07:56
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Tucano ameaçou deixar estúdio após ser questionado sobre pesquisas e quebra de sigilo

O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, se irritou durante entrevista ao programa "Jogo do Poder", da CNT, chamou o programa de "montado" e ameaçou abandonar os estúdios da emissora antes do fim da gravação, ontem, em São Paulo.
O tucano não gostou das perguntas feitas pelos jornalistas Márcia Peltier e Alon Feuerwerker sobre pesquisas de opinião e o suposto uso eleitoral do caso das quebras de sigilos fiscais de tucanos.
A entrevista, agendada pelo candidato à 1h50 de ontem e gravada no início da tarde, tinha exibição prevista para ontem à noite. Ela faz parte de uma série de entrevistas com os candidatos à Presidência. Na semana que vem está prevista a participação de Dilma Rousseff (PT).
O primeiro sinal de irritação apareceu com três minutos de entrevista, depois de ser questionado se ainda era possível "virar" a corrida presidencial, já que Dilma, segundo pesquisas de opinião, venceria no primeiro turno, se as eleições fossem hoje.
"Se a gente for gastar esse tempo todo discutindo pesquisa, não vai levar muito longe", disse o tucano.
Dois minutos depois, quando Peltier perguntou a Serra se o eleitorado estava entendendo a gravidade do caso das quebras de sigilo fiscal na Receita, ele voltou a mostrar contrariedade.
"Sabe o que eu preferia? Que a gente falasse um pouco do que quer se fazer pelo Brasil", afirmou o candidato.
No fim do primeiro bloco, mas com câmeras e áudio ainda ligados, Serra passou a discutir com a apresentadora, sem elevar a voz.
Dizendo-se sufocado, ele chegou a tirar o microfone de lapela a pretexto de buscar uma Coca-Cola sem gelo fora do estúdio.
"Nós estamos gastando um tempo aqui, precioso, em vez de falar de programa de governo para vocês repetirem os argumentos do PT, que vocês sabem que são fajutos", afirmou.
O tucano argumentava que havia combinado previamente com a emissora que a entrevista seria restrita à discussão de propostas de governo. Peltier disse que esses temas seriam abordados nos três blocos seguintes. O candidato não concordou.
"Não vou dar essa entrevista, você me desculpa. Faz de conta que não vim", disse, emendando que a entrevista não era um "troço sério".
Em seguida, pediu que os equipamentos fossem desligados. "Isso aqui está um programa montado", disse.
"Montado para quem? Aqui não tem isso", respondeu Márcia Peltier.

INTERVENÇÃO
O diretor de jornalismo da emissora, Domingos Trevisan, foi obrigado a intervir e entrar no estúdio. A afirmação de que o programa de governo seria abordado nos blocos seguintes foi reforçada, e o tucano concordou em prosseguir a gravação.
Serra -que chegou à emissora reclamando de mal-estar- tirou fotos ao lado de Peltier ao fim da entrevista. Como a maior parte da discussão foi travada durante o intervalo, apenas parte dela seria levada ao ar.
Depois de editado, o material bruto, com imagens e áudio da discussão, foi entregue à assessoria de Serra, a pedido da campanha.
O objetivo, segundo a assessoria da emissora, era evitar vazamento do material. A assessoria de Serra afirma que levou a fita para fazer a transcrição da entrevista e que imaginou que a emissora tinha ficado com uma cópia.
Serra tem mostrado irritação durante a campanha com perguntas de jornalistas, na maioria dos casos quando abordam pesquisas de opinião.

Serra vê risco de economia ter voo de galinha 

O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, apontou nesta quarta-feira o risco de a economia brasileira estar empreendendo um voo de galinha, ou seja, um crescimento momentâneo, sem sustentabilidade. Em entrevista ao programa Jogo do Poder, da Rede CNT, na capital paulista, o candidato criticou a condução macroeconômica do governo Lula e a falta de investimento em infraestrutura. Para Serra, o governo federal prefere fazer propaganda a agir. 

Questionado sobre como a oposição deve se posicionar numa eleição em que a economia vai bem e, por isso, os eleitores tendem a buscar a continuidade , Serra respondeu: Lula não vai mais estar lá em 1º de janeiro [de 2011]. O desafio é mostrar que hoje quem está na oposição é que é capaz de fazer com que o crescimento se mantenha, não seja um voo de galinha. 

Serra defendeu um trabalho coordenado entre os órgãos de política econômica e prometeu reduzir a taxa básica de juros caso seja eleito. Eu tenho tradição nessa área, competência para isso e nunca numa campanha eu disse que ia fazer uma coisa e depois rasguei o que eu disse e fiz outra, afirmou. 

A política econômica hoje é feita com um atirando para cada lugar e a coisa fica ao Deus dará, comprometendo as possibilidades futuras, disse o tucano. A economia a gente tem de pensar sempre no dia de amanhã, para que ele seja bom. Do contrário, vira um voo de galinha, dá um voo curto e cai. 

O candidato criticou a falta de investimento em aeroportos, portos e saneamento no país. O Brasil tem problemas graves na área de infraestrutura. Isso porque investe muito pouco. Ao mesmo tempo, cobra imposto que não acaba mais. O que nos leva a concluir que não usa bem o dinheiro, disse. 

Para Serra, o governo Lula tenta fazer obras de saneamento com a saliva. Como é um obra que não aparece, eles ficam enrolando, disse. Tem tanta onda, tanta publicidade com esse negócio de obras que quem está num lugar pensa que aqui não está acontecendo, mas em outro lugar está. E não está. 

A entrevista, de 40 minutos, vai ao ar hoje às 22h50 pela Rede CNT. A candidata do PV à Presidência, Marina Silva, já participou no programa. Dilma Rousseff (PT) também deve ser entrevistada, em data ainda não definida.

Ao ataque

Denise Abreu, ex-diretora da Anac, aparecerá na propaganda de TV de José Serra descendo a borduna na dupla Dilma Rousseff-Erenice Guerra, acusando-as de favorecer determinadas empresas.

Por Lauro Jardim, de Veja.com

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Fonte: Folha de S. Paulo e Veja

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