PF deve convocar Erenice para depor nos próximos dias

Publicado em 08/10/2010 06:26
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Ministério Público vai pedir autorização para analisar todo o conteúdo do computador usado pela ex-ministra



Ex-ministra e braço direito de Dilma Rousseff na Casa Civil, Erenice Guerra se tornou um dos alvos centrais da Polícia Federal no inquérito que apura a prática de lobby e tráfico de influência nas dependências do Planalto.
Entre hoje e a semana que vem, o Ministério Público vai requisitar à Justiça autorização para que a PF possa copiar e analisar todo o conteúdo do computador usado por Erenice na Casa Civil.
Nos próximos dias, a ex-ministra será chamada a depor e, muito provavelmente, a PF também pedirá a quebra de seu sigilo telefônico.
Essas medidas serão estendidas a Vinícius Castro, ex-assessor de Erenice, e Stevan Kanezevic, que também trabalhava na Casa Civil. Os dois são amigos de Israel Guerra, filho de Erenice suspeito de operar um esquema de favorecimento a empresas na administração federal.
Os computadores de Erenice e dos outros dois já haviam sido lacrados pela sindicância interna aberta pela Casa Civil. Ontem, a PF encaminhou ao Ministério Público Federal no Distrito Federal o pedido para periciar as máquinas. Cabe agora à procuradora Luciana Martins solicitar à Justiça a autorização.
A PF ainda não decidiu quando chamará Erenice a depor. Isso pode ocorrer em breve ou só após a perícia nos computadores e a provável quebra de sigilos telefônicos.
No último caso, a medida não abrangerá grampo, mas os extratos das chamadas feitas e recebidas pelos investigados. A PF quer saber com quem eles falaram na época em que teria havido tráfico de influência na Casa Civil.
A PF também vai solicitar os registros de entrada do prédio onde fica o escritório do advogado Márcio Luiz Silva, responsável pela área jurídica da campanha de Dilma Rousseff (PT) à Presidência.
Foi no escritório de Silva, no Brasília Shopping, que parentes de Erenice se reuniram com clientes em busca de negócios com o governo.

SIGILO
A PF está prestes a concluir a primeira etapa da investigação sobre a quebra do sigilo fiscal de familiares e pessoas ligadas a José Serra.
A polícia já mapeou toda a cadeia de compra e venda de dados fiscais que funcionava na agência da Receita em Mauá (SP), onde os dados dos tucanos foram violados.
A polícia já sabe quem teria levado de São Paulo para Brasília as declarações de IR do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas.


Ciro acha que essa "frouxidão" moral impulsionou voto em Marina nas grandes capitais


Integrado nesta semana à coordenação da campanha de Dilma Rousseff (PT), o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), 52, diz que escândalos do PSDB, aliados a outros promovidos por "aprendizes de mafiosos" do PT, simbolizam a "frouxidão moral" que teria levado parte dos eleitores a votar em Marina Silva (PV) e levar a eleição para o segundo turno.
Ciro voltou a criticar o PMDB dizendo que há contradições "graves" e ainda não resolvidas na aliança de Dilma, mas considera que no Brasil é impossível governar sem essas contradições.

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Folha - O que o sr. pode acrescentar de novo à campanha? 
Ciro Gomes -
 O segundo voto mais relevante, especialmente o voto mais qualificado nas grandes capitais brasileiras, foi o voto dado à Marina. E eu quero crer que o pulso fundamental desse voto é de natureza ideológica e ética. É preciso discutir com essas pessoas e dar a elas os argumentos para que elas relativizem a simpatia correta que tiveram pela Marina e entendam que agora o que está em discussão não são nossas simpatias, mas o futuro do país, antagonizado por dois projetos que felizmente são muitos claros.

Isso leva a uma frase que o sr. disse, a tal da "frouxidão moral", que afetou tais pessoas.
PSDB e PT.

O que é PSDB e PT? O caso Erenice é um exemplo?
Não, você pergunte isso pro PSDB. Pra mim, que sou aliado do PT, você pergunte aos do PSDB. Então vou te dar aqui todo o conjunto de prática que esse grande jornalista que é o [colunista da Folha] Elio Gaspari chama de privataria, o processo de privatizações. O cidadão está no telefone falando com o FHC, então presidente da República, dizendo que operaram no limite da irresponsabilidade [na verdade, a conversa captada pelos grampos do BNDES, em 98, é de Ricardo Sérgio com o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros]; o Serra nomear pro centro de eventos de São Paulo um banqueiro chamado Márcio Fortes, do Rio [Fortes foi nomeado presidente da Emplasa em 2009]; o Serra assumir a Prefeitura de São Paulo e, como primeira providência hospedar os saldos da Prefeitura de São Paulo em um banco privado [em 2005, Serra tentou repassar ao Itaú e ao Bradesco o gerenciamento das principais contas bancárias da prefeitura]. Não adianta você escrever que não sai, não é publicada essa informação. E, do outro lado, os aprendizes de mafiosos do PT, que de vez em quando mandam uma dessa.

Caso Erenice, por exemplo?
Isso é você quem está dizendo.

Com a votação obtida por Marina, o sr. acha que o presidente errou ao patrocinar uma articulação para que o PSB não lhe desse a legenda?
Erramos todos nós. Mas quem mais duramente sabe disso é o Lula. Ele, o nosso campeão, o mais exuberante dos nossos quadros, o mais popular dos nossos quadros, nunca ganhou nenhuma eleição no primeiro turno.

Aliados estariam cobrando um Lula e Dilma mais "paz e amor". Como conciliar isso com o sr. na coordenação?
Eu lhe dou um doce dos bons se você me disser um único precedente em que eu fui agressivo sem ser em reação a uma injustiça. O futuro do país não admite essas cordialidades conservadoras. A cordialidade conservadora mantém por cima da mesa a aparência de elegância e faz a coisa mais imunda e ameaçadora do futuro dessa nação por debaixo dos panos. Você não sabe a campanha que está acontecendo na internet, incitando o ódio religioso?

Petistas também fazem isso.
Viva a democracia e viva a República e condene quem estiver fazendo isso, seja quem for. Estou chamando a atenção. Há limites. Determinados oportunismos têm que ser banidos, porque eleições se ganham e se perdem, mas as construções das bases em que uma cidadania se afirma... Eu no dia em que precisar consultar o aiatolá da minha comunidade para tomar uma decisão civil, eu estou fora. Vamos falar de aborto. Quem é no planeta Terra que pode ser a favor do aborto? O aborto é uma tragédia humana, emocional, psicológica, de saúde pública, religiosa, moral, ética. Uma tragédia.

É a descriminalização....
Não, aí você tem um grande debate não resolvido no planeta: que relação o Estado deve ter com essa tragédia. Nunca houve no Brasil uma possibilidade de o presidente arbitrar essa questão. É o Congresso Nacional, que por sua vez não tem a menor coragem de tocar no assunto, nem esse nem o próximo, tranquilize-se o brasileiro.
Contra ou a favor, infelizmente, até por omissão, o Congresso Nacional brasileiro não tratará do assunto. Não dirá nem que sim nem que não. Continuaremos fazendo todos de conta que o rico pode fazer do jeito que quiser em uma clínica muito bem limpinha e que a pobre vá se ferrar enfiando uma agulha de tricô na vagina porque os mulás, os talebans e os aiatolás não querem que se discuta o assunto.

Os mulás, aiatolás e talebans em parte apoiam Dilma.
Sim, mas o Serra tem uma opinião diferente? A opinião do Serra e da Dilma sobre esse assunto é rigorosamente a mesma. Pro bem ou pro mal.

Qual é a posição do sr.?
Eu acho que o Estado nacional brasileiro não tem nada a ver com esse assunto. Esse é um assunto da intimidade humana, moral, ética e religiosa da família e da mulher, especificamente. Ou seja, não tem nada que criminalizar coisa nenhuma. Isso é a minha particular opinião, pessoal. Não tem nada a ver com a opinião da Dilma.

Sobre PMDB, o sr. disse que o [Michel] Temer [presidente do partido e vice de Dilma] estava chefiando uma turma de pouco escrúpulo.
Penso que essa aliança PT e PMDB tem contradições graves. Sou aliado do PMDB no Ceará, acabamos de eleger um senador do PMDB, o vice nosso é do PMDB. Então eu acho que há uma contradição, mas no Brasil é impossível governar sem essa contradição. O que é preciso é pôr sobre essa contradição uma hegemonia moral e intelectual clara. E isto que eu acho que ainda falta.


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Fonte: Folha de S. Paulo

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