Estados Unidos fazem nova redução de safra

Publicado em 09/10/2010 09:26
846 exibições


A supersafra norte-americana de grãos não está se confirmando. É o que apontam os dados de oferta e de demanda divulgados ontem pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
Bom para os produtores brasileiros porque esse cenário eleva os preços das commodities. Ontem, Chicago fechou no limite permitido para os reajustes de preços para as principais commodities.
Ruim para os consumidores porque a pressão das commodities continua, afetando a inflação e o bolso nas próximas semanas.
A safra norte-americana não se concretiza porque, além de os dados de área de plantio terem sido superdimensionados no início da safra, a produtividade da safra 2010/11 não está se concretizando, ficando abaixo da de 2009/10.
Os novos números do Usda registraram queda de 500 mil hectares na área de soja, que recuou para 31,4 milhões de hectares. Nesse mesmo período, a produtividade caiu para 2.986 quilos por hectare, após ter atingido 3.006 quilos em 2009/10.
Com isso, a safra total de soja deverá recuar para 92,75 milhões de toneladas, conforme estimativas divulgadas ontem. Em setembro, o órgão norte-americano previa produção de 94,79 milhões de toneladas.
A situação do milho é ainda mais complicada e se torna dramática para o abastecimento norte-americano, segundo Fernando Muraro, da Agência Rural. "A produtividade deste ano deverá cair nove sacas por hectare em relação ao ano passado. Os números do Usda indicam apenas 163 sacas por hectare."
Os norte-americanos vão ter de trabalhar com uma oferta menor do cereal e elevar a área em 2010/11 para recompor estoques. Essa pressão sobre o milho puxa também os preços da soja, que disputa área com o produto.
Os estoques finais de milho caíram para 22,9 milhões de toneladas nos EUA, apenas 6,7% do consumo.
A safra de trigo também será menor. Prevista no mês passado em 61,6 milhões de toneladas, recua para 60,5 milhões, conforme as novas estimativas do Usda.

Dia de alta Os números de safra e de abastecimento de ontem do Usda mexeram com o mercado, que fechou em alta. A soja voltou a superar US$ 11 por bushel (27,2 quilos), atingindo US$ 11,35. A alta foi de 6,6% no primeiro contrato.

Pressão Os preços do milho também sofreram a pressão da estimativa de uma safra menor. O primeiro contrato subiu para US$ 5,28 por bushel (25,4 quilos), com alta de 6%.

Disparou O trigo teve a maior alta do dia. Ao subir para US$ 7,19 por bushel (27,2 quilos), foi reajustado em 9,1% no dia. Os estoques finais do produto caíram 5%, segundo informações de ontem do Usda.

Influência A alta dos preços dos grãos em Chicago impulsionou também as commodities de Nova York. O café, com liderança de alta ontem na Bolsa de commodities nova-iorquina, foi a US$ 1,82 por libra-peso, 5% mais do que na quinta-feira.

Mais com menos As exportações de carne suína mantiveram queda no volume, mas a recuperação dos preços internacionais fez com que o setor trouxesse mais divisas para o país.

Queda Nos nove primeiros meses do ano, o volume exportado de carne suína caiu para 448,7 mil toneladas, com recuo de 8,2%, mas as receitas subiram para US$ 1 bilhão -14% mais.

ANÁLISE AGRONEGÓCIO

Recuperação de preços agrícolas ameaça taxa de inflação no curto e longo prazos

GERALDO BARROS


A recuperação em curso dos preços agrícolas é fruto do expressivo crescimento dos países emergentes e da conjunção de fatores climáticos que vem atingindo diversos países produtores.
Poderia se pensar que, se esses fatores climáticos fossem passageiros, em pouco tempo a subida dos preços estaria contida.
É preciso ter em conta, porém, que o mundo continua com liquidez elevada.
No Brasil, embora o câmbio valorizado amorteça o repasse dos aumentos do mercado externo, o nosso forte crescimento econômico, com o baixo desemprego e com reajustes salariais bem acima da inflação, também pode acomodar qualquer tendência de alta.
Em suma, o terreno é perigoso para choques de oferta em tempos de demanda firme. Se, por ventura, o movimento do câmbio mudasse de direção, poderia se perder a âncora controladora dos preços internos.
O foco da discussão do quadro macroeconômico brasileiro, porém, migrou da inflação para a taxa de câmbio, considerada exageradamente valorizada.
Nessa situação, o governo brasileiro faz coro a uma diversidade de países que veem na estratégia da China -de manter a paridade de sua moeda ao dólar americano- a raiz dos seus desajustes cambiais, com impactos deletérios sobre as suas contas externas e sobre setores menos competitivos.
Lembre-se, porém, que as recriminações à China se avolumaram a partir da crise financeira que derrubou as economias desenvolvidas, as quais, para aliviar os impactos recessivos, encharcaram de liquidez a si próprias e, bem assim, o mundo todo.
Até então, a política cambial chinesa era considerada bastante conveniente para muitos países, especialmente os desenvolvidos.
Para o Brasil, o yuan mantinha-se em níveis desconfortáveis, mas suportáveis. Agora, o desequilíbrio entre as moedas é sentido muito mais intensamente.
Resulta forte pressão para que as autoridades tomem alguma atitude abrindo sua caixa de ferramentas supostamente capazes de, unilateralmente, conter o ímpeto da entrada de moedas estrangeiras no país.
O mais provável é que se assista a um desfile de medidas que costumeiramente são lembradas nessas ocasiões.
Todas elas de eficácia duvidosa, como mostra a experiência e consideradas a atração que o país exerce sobre os capitais disponíveis em abundância internacionalmente, e a competitividade do Brasil nos setores mais ligados aos recursos naturais.
Neste momento em que as luzes se voltam para as turbulências financeiras, não se deve perder de vista o longo prazo, especialmente estando o país em meio ao processo eleitoral, em que são selecionados governantes e legisladores para os próximos quatro anos.
Para a agricultura -mais do que o controle do câmbio-, é essencial que seja mantida e fortalecida a estratégia que garantiu estabilidade de preços, melhorias na distribuição de renda e formação de um grosso colchão de divisas estrangeiras.
Os principais desafios são recuperar e expandir a infraestrutura; manter o crescimento de produtividade, para garantir preços baixos e preservação de recursos naturais; obter ganhos concretos nas negociações internacionais; e apoiar mais os produtores rurais, principalmente os menores, que não têm acompanhado a modernização do setor.
Como evidenciou o Censo de 2006, entre esses campeiam o analfabetismo, a falta de financiamento e de assistência técnica e o baixo nível de renda. Em síntese, a regra é: não descuidar da "galinha dos ovos de ouro".

GERALDO BARROS é professor titular da USP/Esalq e coordenador científico do Cepea/Esalq/USP.

Tags:
Fonte: Folha de S. Paulo

Nenhum comentário