Cana-de-Açúcar: Máquinas substituem homens

Publicado em 13/10/2010 07:45
1901 exibições
Três mil empregos no corte manual foram extintos em Mato Grosso nos últimos cinco anos; tendência é reduzir ainda mais
Nos últimos 5 anos, cerca de 3 mil pessoas que trabalhavam no corte manual da cana-de-açúcar em Mato Grosso perderam o emprego. A demissão dos trabalhadores ocorreu em consequência da utilização de máquinas, que são usadas tanto para o plantio quanto para a colheita. Cada colhedora substitui o trabalho de 120 homens, o que a princípio ocasiona um "caos social". Em 2006, os canaviais empregavam durante a safra aproximadamente 17 mil pessoas e agora este número baixou para 14 mil.

Para minimizar o impacto do desemprego gerado nos canaviais, as usinas estão treinando funcionários para que eles sejam remanejados. Também são ofertados outros cursos para serem recolocados no mercado de trabalho. "Atualmente, em Mato Grosso, cerca de 3,6 mil trabalhadores estão sendo treinados para assumir outras funções, principalmente em relação à operação das máquinas", diz o diretor-executivo do Sindicato das Indústrias Sucroalcooleiras de Mato Grosso (Sindalcool-MT), Jorge dos Santos.

A entrada das máquinas nas lavouras de cana mato-grossenses segue uma tendência para o setor. Além disso, obedece decreto federal (2.661/1998) que dispõe sobre o emprego do fogo em práticas agropastoris e florestais. De acordo com o texto do decreto, a mecanização das lavouras será feita de forma gradual até atingir a capacidade máxima. Porém, há áreas que dispensam a mecanização, obedecendo algumas características, principalmente do terreno. As lavouras de até 150 hectares, por exemplo, na mesma propriedade, não estarão sujeitas à redução gradativa da utilização da queima.

Para os profissionais do corte de cana que tiveram a oportunidade de se qualificar e ocupar novos cargos há uma transformação completa, que inclui renda maior, acesso à educação e qualidade de vida. O corte manual de cana-de-açúcar não faz mais parte da realidade de Severino Freire Alves, 36. Operador de colhedora da usinas Itamarati, chegou a Mato Grosso em 1986, vindo de Alagoas, em busca de uma vida melhor. Ele conta o pai e os irmão já trabalhavam no corte de cana e se juntou a eles. "Trabalhei por vários anos no corte manual, mas tinha o sonho de operar trator", conta Alves ao complementar que surgiu a oportunidade na empresa para operar trator, função na qual ficou por 4 anos.

Hoje fazem 6 anos que ele opera máquinas de colher cana, cujos valores chegam a R$ 1 milhão, uma grande responsabilidade já que exige conhecimento específico e dedicação do trabalhador. O estímulo com a nova função o fez retomar os estudos. "Não tinha nem a 5ª Série. Hoje estou estudando e até penso em cursar uma faculdade". Outro exemplo, dentro da mesma usina é do supervisor de Produção, Adauto Gomes de Oliveira, 41. Ele trabalhou no corte da cana por duas safras e também desempenhou diferentes serviços na área industrial. "Mas sempre quis trabalhar na indústria, onde tem mais chance de crescer na profissão", argumenta ao revelar que não havia terminado nem mesmo o Ensino Médio, mas que depois que teve a janela das oportunidades aberta decidiu voltar a estudar. Fez o Ensino Médio regular e faculdade de Pedagogia. Hoje tem duas pós-graduações e caminha para a conclusão da terceira, de Gestão Sucroalcooleira, pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Oliveira afirma que se não fosse a oportunidade a ele oferecida de assumir outras funções na usina de cana-de-açúcar, não sabe o que seria hoje.

Avanço - Dados do Sindalcool-MT apontam que 60% da colheita da cana-de-açúcar em Mato Grosso é feita mecanicamente. O percentual corresponde a 120,542 milhões de hectares colhidos por máquinas, de um total de 200,905 milhões (ha), que serão destinados à moagem na safra 2009/2010 no Estado. Em volume, o trabalho das máquinas é responsável pela colheita de 8,460 milhões de toneladas de um total de 14,1 milhões (t) estimados para esta temporada.

O diretor-executivo do sindicato, Jorge dos Santos, afirma que a colheita feita por máquinas é uma tendência do setor e uma alternativa para reduzir os custos nos canaviais, além de problemas envolvendo trabalhadores. Santos afirma ainda que 80% dos canaviais localizados na região Centro-Sul do país, que inclui Mato Grosso, oferecem condições para que sejam colhidos com a utilização de máquinas. Segundo ele, a previsão é que até 2018, o máximo da mecanização será atingida na região, registrando um aumento de 20% a cada 5 anos, contados desde de 1998.

Em Mato Grosso, a mecanização atinge percentuais diferentes de uma usina para outra, de acordo com a topografia da propriedade e a capacidade de investimentos nos maquinários. Para se ter uma noção disso, uma plantadora custa cerca de R$ 400 milhão e as colhedoras podem chegar a R$ 1 milhão. Das 10 usinas em operação atualmente, a Itamarati, localizada em Nova Olímpia (a 207 km de Cuiabá), é a que está mais evoluída, atingindo um percentual de 97%. De acordo com o diretor da unidade Silvyo Coutinho, a previsão é que até 2012, 100% da cana crua seja colhida mecanicamente. Com esse percentual, cerca de 700 pessoas, sendo 300 vindas de outros estados, perderão emprego.

Coutinho diz que a empresa vem treinando trabalhadores para que eles ocupem outras funções. "Temos cerca de 3,1 mil funcionários fixos que trabalham na área agrícola, industrial, administrativo e empacotamento. Mas entre maio e novembro muitos trabalhadores são contratados, os chamados safristas, para ajudar na colheita da cana". Mesmo com o alto índice de mecanização da lavoura, Coutinho afirma que 20% da cana colhida ainda está sendo queimada, o que deve mudar nos próximos anos. "A queima de cana é um atraso na atividade, seja do ponto de vista econômico ou agronômico", diz o diretor ao afirmar que sem a queima, a palha fica no solo e ajuda na manutenção da umidade e adubação do solo, a permanência de microorganismos que facilitam a penetração de água na terra.

Para este ano, a usina Itamarati pretende colher 5,550 milhões de toneladas de cana-de-açúcar.

Com um percentual menor que a da usina Itamarati, mas acima da média estadual, a Barralcool, em Barra do Bugres (a 168 km da Capital), com 70% da cana colhida mecanicamente. Na unidade, o número de trabalhadores contratados para a colheita manual também está diminuindo. Segundo o diretor-presidente da usina, João Petroni, quando a colheita era feita somente manualmente, há alguns anos, eram contratados 4,5 mil trabalhadores. Hoje este número caiu pela metade, totalizando 2,2 mil pessoas. "Ano que vem pretendemos chegar a 1,5 mil". Mas a usina está fazendo um trabalho de qualificação da mão-de-obra que está saindo do canavial, por meio de cursos para operar máquinas e também para serem recolocados no mercado, por meio de cursos de formação profissional em diversas áreas, como a do comercio e prestação de serviços. "Isso tem que ser feito porque o nosso planejamento indica que nos próximos 3 anos cheguemos a 95% da plantação colhida por máquinas". Este ano a Barralcool espera colher 2,7 milhões de toneladas de cana.
Tags:
Fonte: Gazeta Digital

Nenhum comentário