Uma 'nova' Dilma em cena, editorial do Estadão

Publicado em 13/10/2010 09:02 e atualizado em 13/10/2010 11:04
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A pesquisa de intenção de voto do Datafolha indicou que José Serra conseguiu reduzir para 8 pontos a vantagem de 15 com que Dilma Rousseff vencera o primeiro turno. Foi o suficiente para disseminar o pânico nas hostes petistas. O que é compreensível, considerando que desde o mais anônimo militante até o chefão Lula, todos os apoiadores da candidata oficial davam a fatura eleitoral como liquidada e alardeavam que 3 de outubro representaria apenas a formalidade de homologação de uma retumbante vitória.

Os efeitos dessa reversão de expectativa se tornaram evidentes já no primeiro debate do segundo turno, promovido pela Rede Bandeirantes. Logo em sua primeira intervenção Dilma partiu para o ataque aberto, violento, acusando Serra, sua esposa e os tucanos de modo geral de serem os responsáveis pela campanha caluniosa movida contra ela na internet. Colocou-se assim a escolhida de Lula na posição em que ele próprio, o chefe, sempre soube se instalar com muita competência, nos momentos de aperto: a da pobre vítima que jamais ataca, como é próprio dos malvados - nada disso, apenas exerce o direito de legítima defesa. Com a vantagem adicional de demonstrar que é uma mulher capaz de assumir atitudes firmes, corajosas.

Quanto a essa questão da "firmeza", que quando fora de controle, como a própria Dilma demonstrou na ocasião, descamba para a rispidez, o debate não revelou nada de novo. Dilma Rousseff sempre foi conhecida como pessoa rude e de difícil trato, especialmente com subordinados. Se a resposta não fosse evidente, seria até o caso de perguntar: se é para voltar a ser como sempre foi, por que então mudou durante o primeiro turno, fazendo o gênero "paz e amor"?

Já no que se refere às baixarias que rolam na internet, a ex-favorita absoluta à sucessão presidencial tem todo o direito de reclamar, mas é preciso colocar essa questão nos devidos termos. Em primeiro lugar, o óbvio: ataques caluniosos são desferidos de todos os lados e contra todos os candidatos e obedecem à tendência natural de se tornarem mais pesados com a polarização da campanha eleitoral. Embora em alguma medida essas baixarias possam ser manipuladas, quando não inspiradas, pelo comando das campanhas - nesse assunto certamente não se pode colocar a mão no fogo por ninguém -, é claro que a maior parte desse comportamento condenável corre por conta de uma militância incontrolável composta por indivíduos ou grupos que usam a enorme sensação de poder que lhes confere a web para fazer a catarse de suas frustrações. É o tributo que se paga às inconsistências da democracia que ainda persistem no País. Além disso, Dilma conhece o PT há tempo suficiente para saber que o ataque como melhor defesa, e sem nenhum escrúpulo, sempre foi a tática preferencial, uma autêntica marca registrada de seu atual partido - em períodos eleitorais ou fora deles.

Ademais, ainda, é risível a tentativa da candidata petista de incluir no balaio das calúnias de que se diz vítima fatos de domínio público sobre os quais não paira a menor dúvida, como o amplo noticiário sobre o tráfico de influência que a família de sua protegida Erenice Guerra promoveu a partir do Palácio do Planalto, ou sobre seu constrangido vaivém na questão do aborto.

O desempenho de Dilma Rousseff no primeiro debate do segundo turno e nos dias subsequentes deixa clara a guinada tática na campanha petista: Dilminha-paz-e-amor virou a vítima indignada de boatos, calúnias e difamação. Indignada, mas não "agressiva". Apenas "firme". Na segunda-feira, na cidade-satélite de Ceilândia, Lula e sua candidata inauguraram o primeiro palanque do segundo turno e a "nova" Dilma mostrou ter assimilado as novas instruções: "Meu adversário faz uma campanha baseada no ódio, na boataria, na calúnia, na mentira e na falsidade. Ele não acusa de frente, olho no olho, não faz a disputa justa, leal e verdadeira."

Já o chefão não perdeu a oportunidade para mais uma demonstração de suas inexcedíveis soberba e megalomania: "Eu poderia ter escolhido um deputado, um senador, um governador. Por que a Dilma? (...) A Dilma vai começar a redenção das mulheres no Brasil e no mundo (sic)." Agora é a vez de o eleitor escolher.


Quem efetivamente governará a partir de 2011? Lula ou Dilma?, por Leoncio Martins Rodrigues

Uma possível eleição de Dilma Rousseff, juntamente com a maioria de cadeiras já obtidas pela chamada base aliada no Congresso Nacional, tem suscitado muitos receios em setores sociais das classes médias e altas sobre os rumos da próxima administração "esquerdista". Teme-se especialmente que o novo governo aumente a participação estatal na economia, o controle partidário da administração pública e a consolidação de um populismo que, de modo mais radical, teria algumas semelhanças com o fascismo italiano ou com uma "mexicanização". Os dois fenômenos, na verdade, são diferentes entre si e têm pouca chance de vingar no Brasil de hoje, especialmente em razão da divisão partidária e das vitórias do PSDB em Estados importantes. Acho, contudo, que os analistas de nossa política têm dado pouca atenção a um aspecto aparentemente de natureza administrativa - que não diz respeito à ideologia e aos rumos programáticos de um eventual governo de Dilma -, mas que pode complicar o funcionamento do Executivo federal.

Quando votaram em Dilma, no primeiro turno, em 3 de outubro, os eleitores foram informados de que, na realidade, não estariam escolhendo Dilma, mas Lula. O ex-metalúrgico, aliás, explicitou claramente o sentido que teria cada voto numa candidata totalmente desconhecida da imensa maioria do eleitorado, escolhida por ele para dar continuidade ao seu governo. Por essa via, os eleitores estariam dando a Lula um terceiro mandato sem alterar a Constituição. Há, porém, outro aspecto não tão virtuoso. A ex-guerrilheira, se chegar ao Palácio do Planalto sem mérito próprio, não terá a legitimidade oriunda do efetivo apoio popular.

Antes da corrida presidencial, para cuidar da administração do governo Lula havia colocado na Casa Civil - e não foi por acaso - alguém que não tinha força política própria. Ou seja, Dilma Rousseff. Era uma posição na administração federal que dava a Dilma muita força e influência, que deixariam de existir, no entanto, no momento em que, por alguma razão, deixasse o cargo. Não seria o caso de um político de algum prestígio próprio que fosse chamado a ocupar algum Ministério. Estamos, pois, diante de uma estranha situação. Se Dilma vencer, e se Lula não for indicado para algum Ministério, o político mais popular do Brasil - em quem os eleitores de facto votaram ao escolherem Dilma - estará fora do governo por quatro anos. Mas ficará de fora da cena política? Pode-se acreditar que se dedicará a assar coelhinhos no seu sítio? Ou, ao contrário, terá alguma sala no Palácio do Planalto ou uma mesa no gabinete da Presidência? Quem mandará de fato?

Caso seja eleita, se Dilma passar a Lula o governo, transferindo-lhe a última palavra nas principais decisões, a ex-chefe da Casa Civil estará desmoralizada e terá sua autoridade diminuída. Mas é pouco provável que se disponha a ser uma figura de segundo ou terceiro escalão e que aceite a função de uma fiel secretária, sem vontade própria.

E, aqui, é preciso considerar que, não importando quão grata e leal Dilma possa ser a Lula, pelas regras do jogo dos regimes presidencialistas quem manda é o presidente. Geralmente, com o correr do tempo, as criaturas revoltam-se contra o criador. Na História brasileira temos muitos casos de padrinhos políticos, impedidos de disputar um novo mandato, que conseguiram eleger o que foi denominado de "poste". Lembremos dois casos.

Adhemar de Barros, então governador, em 1950 lançou o professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo Lucas Nogueira Garcez para lhe suceder. Todavia, uma vez no governo, Garcez afastou-se de Adhemar e ajudou a eleger Jânio Quadros. Celso Pitta, um desconhecido, eleito prefeito de São Paulo em 1996 com apoio integral de Paulo Maluf, logo rompeu com seu tutor. Note-se que, em ambos os casos, o chefe político dono de votos, para não se arriscar, escolheu alguém sem força eleitoral e política. Um "administrador". Mas isso não impediu que o anterior protegido declarasse a independência.

Não é que as criaturas tenham vocação para a traição, mas sim que não gostam de ser paus-mandados. Mais do que isso, não podem ocupar posições de chefia permanecendo subordinados a alguém que não tem mais poder, situação que Lula experimentará para os próximos anos. Poderia ser contemplado com algum Ministério. Mas seria uma capitus diminutio para quem terminou dois mandatos com a aprovação popular que sabemos. Atividades políticas não admitem mais do que uma grande liderança. Trotsky e Stalin que o digam.

Todos os atos importantes do próximo governo deverão trazer a assinatura de Dilma, se a indicada vencer. Um novo Ministério deverá ser formado. A quem estarão subordinados os novos ministros? Que partidos aliados e facções do PT serão mais beneficiados com Dilma na Presidência da República?

A carreira de Lula e a de seu círculo de relações mais estreito não são iguais à da candidata que ele escolheu. Dilma veio do PDT, aderiu oportunamente ao PT somente em 2001, não passou pelo sindicalismo e não disputou eleições. Se eleita, ficará todo o mandato sob as ordens de Lula?

A ex-guerrilheira está longe de ser caloura na área da política. Na realidade, foi política a vida toda. Começou antes de Lula, mas veio do movimento estudantil e da guerrilha. Ocupou posteriormente altos cargos públicos na administração pública estadual (Rio Grande do Sul) e federal que devem ter-lhe trazido experiência administrativa. Nada na sua personalidade e na sua trajetória indica que tenha vocação para secretária obediente. Se vencer, terá de governar e aprender rapidamente a navegar em águas turvas.
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Fonte: O Estado de S. Paulo

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