Eleição aberta, por FERNANDO RODRIGUES

Publicado em 16/10/2010 04:37
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O resultado da pesquisa Datafolha realizada anteontem e ontem mantém suspense sobre qual será o desfecho da disputa pelo Palácio do Planalto. O confronto está aberto e indefinido. Dilma Rousseff (PT) está com 47% contra 41% de José Serra (PSDB), considerando-se os votos totais. A diferença entre ambos é de seis pontos percentuais.

Na véspera do primeiro turno, numa simulação de disputa final entre Dilma e Serra, a vantagem da petista sobre o tucano era de 12 pontos. No último dia 8, essa dianteira encolheu para sete pontos. Agora está em seis pontos.
Se há uma semana era prematuro afirmar que Serra caminhava para uma virada, agora também é um equívoco interpretar a estabilização do quadro como uma possível vitória antecipada de Dilma.
Esta é uma eleição na qual não há -pelo menos por ora- possibilidade de previsão com algum grau de ciência. Há, entretanto, indicações de resiliência da candidatura patrocinada pelo Planalto. Na semana que vem esses sinais poderão ou não serem confirmados.
O PT também dispõe de uma arma de última instância e única a favor de Dilma Rousseff: a popularidade de Lula, que voltou a subir e bateu novo recorde. Apesar de toda a beligerância mostrada pelo presidente nas últimas semanas, ele atingiu 81% de aprovação popular -contra 78% na última pesquisa. Só para lembrar, o recorde de FHC foi de 47%, em dezembro de 1996.
O estreitamento da diferença entre Dilma e Serra parece ter ocorrido com força na semana em que se realizou o primeiro turno. Com a propaganda política de volta à TV e ao rádio, o movimento migratório de votos perdeu intensidade. Trata-se do curso natural dos votos. O eleitor presta mais atenção no começo e no final da campanha.
Até o dia 31, o clima continuará tenso, e a guerra quase santa entre Dilma e Serra seguirá indefinida.


Lula em detalhes, por FERNANDO DE BARROS E SILVA

 Lula voltou a gravar ontem participações no programa eleitoral de Dilma durante o horário de expediente. Deu, como ele diria, "aquela enforcadinha básica". É um detalhe sem importância? Tudo o que diz respeito a Lula se tornou, de certa forma, "um detalhe", não necessariamente sem importância.

Lula praticamente transformou a Presidência num comitê de campanha. Atropelou a liturgia do cargo e desdenhou a legislação eleitoral repetidas vezes. Anunciou que iria extirpar parte da oposição do país e tratou a imprensa como adversária a ser vencida. Fez troça da (e com a) República pela qual deve zelar.
Se Dilma tivesse vencido a eleição no primeiro turno, a descoberta da traficância da parentada na Casa Civil também teria passado à história como outro "detalhe", vencido pela marcha triunfal do lulismo.
(O êxito de Lula, aliás, eximiu o PT de um exame crítico de suas práticas no poder e serviu para legitimar o vale-tudo no campo ético-político, com exceções de praxe, pois há gente boa e séria no partido).
O fato é que Lula não preservou nem a Presidência nem a sua imagem nesta campanha. Colocou-as antes a serviço da sua candidata.
Foi tanto o entusiasmo (digamos assim) do presidente sobre os palanques na reta final do primeiro turno que ele pode, sim, ser corresponsabilizado pelo revés no dia 3. Pareceu até que a tutela sobre o processo eleitoral havia atingido um ponto de exaustão, como se uma overdose de remédio tivesse envenenado a candidata.
Em parte em função deste diagnóstico, Dilma se viu obrigada a ensaiar seus primeiros passos, o que fez com algum destrambelho no debate. O PT, porém, como uma mãe insegura, hesita entre estimulá-la a andar (coisa que evitou no primeiro turno) e devolvê-la ao colo do pai.
A popularidade de Lula voltou a subir, mostra hoje o Datafolha. Ele atingiu 81% de aprovação. Numa disputa tão acirrada, e diante de um quadro estável, esse é o detalhe da pesquisa que chama a atenção.

Girando em falso, editorial da Folha deste sábado

Não se registram oscilações na pesquisa do Datafolha sobre a sucessão presidencial. A candidata Dilma Rousseff, do PT, conta com 54% dos votos válidos, contra 46% de José Serra, do PSDB. São os mesmos índices da pesquisa anterior, feita há uma semana.

A estabilidade nas preferências do eleitorado não deixa de trazer um contraste irônico com o clima de agitação que se tem verificado na campanha. O temor de perder popularidade em setores religiosos motivou, como se sabe, bruscas alterações de opinião, por parte de Dilma Rousseff, enquanto José Serra se empenhou em renovadas exibições de fé.
Vistos ao microscópio, e com a ressalva de que a margem de erro estatística se amplifica conforme se dividem os grupos da amostra pesquisada, os números do Datafolha sugerem, mais uma vez, que a questão religiosa não produz efeitos tão imediatos como se imagina. É curioso notar, por exemplo, que Dilma não perdeu votos entre os católicos, mas caiu seis pontos percentuais na pequena parcela de eleitores que se diz sem religião. Nesse grupo, que responde por 6% apenas do total dos eleitores, a candidatura Serra cresceu cinco pontos.
Entre os evangélicos pentecostais, a proporção dos eleitores de Dilma Rousseff não se alterou significativamente, se comparados os números desta pesquisa com os votos da petista no primeiro turno.
A própria questão do aborto, sobre a qual tanto tergiversou a candidata Dilma, é entendida pela maioria da população sob uma ótica relativamente diversa daquela manifestada pelos setores religiosos mais estritos.
Afinal, a lei em vigor admite a interrupção da gravidez nos casos de estupro e de risco para a gestante; a seguir-se a orientação da Igreja Católica e de outras confissões, nem mesmo essa eventualidade deveria ser admitida. Nem Dilma nem Serra, de todo modo, propõem-se a revogar a lei.
Não é só neste aspecto que a campanha, por assim dizer, gira em falso. Discute-se no campo governista, por exemplo, a conveniência de trazer de volta, com mais ênfase, a figura do presidente Lula nesta fase da disputa. Inventou e propeliu a candidata durante meses -até que se considerou necessário que Dilma, ela própria, mostrasse um mínimo de autonomia pessoal. Declina em alguns pontos a candidata; recorra-se, então, a seu demiurgo.
Lula alcança novos recordes de popularidade: 81% dos entrevistados na pesquisa classificam de "ótimo" ou "bom" seu desempenho. Apenas 40% dos eleitores, entretanto, dizem-se influenciáveis pelo engajamento presidencial numa candidatura.
Pesquisas de opinião, por certo, são um instrumento importante na avaliação de uma estratégia política. A predominância do marketing na condução da campanha tende a atribuir-lhes, talvez, o caráter terrorífico e religioso de um anátema -quando o mínimo que se poderia esperar de candidatos à Presidência, na verdade, é que exponham o que de fato pensam.


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Fonte: Folha de S. Paulo

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