A oposição precisa de um discurso coerente – e sedutor (por Lauro Jardim)

Publicado em 31/10/2010 20:53
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No último dia da propaganda eleitoral gratuita de José Serra, na sexta-feira passada, havia uma passagem esdrúxula que diz muito sobre o futuro do derrotado PSDB e das oposições em geral.

Lá pelas tantas, o locutor acusava Dilma e sua turma de venderem o pré-sal para empresas privadas. Não bastasse a vergonha que tem de defender uma bandeira histórica do PSDB, a privatização, a campanha de Serra pegou carona numa das piores bandeiras do PT o discurso estatista.

Serviu apenas para confundir o eleitor. Além de ter soado falso. O discurso dúbio de Serra sobre o assunto deixou órfão o eleitor tradicional do PSDB e não convenceu o eleitor mais à esquerda. Pela segunda vez consecutiva numa eleição presidencial o partido cometeu o mesmo erro nem o efeito surpresa havia.

Esse é um dos desafios que o PSDB e as oposições de modo geral terão que enfrentar a partir de amanhã: criar um discurso próprio, coerente e que tenha força para (re)conquistar o eleitor. Não será tarefa fácil. A máquina de propaganda do PT opera com eficiência a bandeira do estatismo e do nós defendemos os pobres e vocês as elites.

Para além do ideário, é preciso saber quem comandará a tropa. Ainda que não se deva desprezar Geraldo Alckmin nunca é prudente descartar o governante do estado mais poderoso do país o nome de Aécio Neves surge naturalmente como o novo sol em torno do qual girarão o PSDB e a oposição.

Aécio possui pelo menos duas qualidades que o tornam imbatível para a missão. Primeiro, ele é a cara nova que o PSDB poderá oferecer ao Brasil. Fez um governo bem avaliado, sem escândalos e é um vencedor de eleições. E tem carisma. Mesmo não sendo conhecido nacionalmente, é um bom produto para ser vendido aos brasileiros. Em segundo lugar, não há ninguém com sua capacidade de articulação política.

A possibilidade de Aécio deixar o PSDB para criar um novo partido, como aqui e ali se cochicha, é pequena: a vitória do partido em estados importantes, como São Paulo, Minas Gerais e Paraná, por exemplo, abortaram uma ideia que até poderia fazer sentido.

Não é improvável, contudo, que Aécio trabalhe para engordar o PSDB e ele tem capacidade de costura para tocar a tarefa. As primeiras iscas devem ser lançadas ao DEM, que sai baleado da eleição. Mas outras poderão ser arremessadas em direção de líderes políticos estaduais em conflito com companheiros do mesmo partido.

No Senado, Aécio sonha também com uma missão difícil, quase impossível: eleger-se presidente da Casa. Não já: agora é a hora de quem venceu as eleições e tem maioria no Senado dar as cartas.

Ele pensa em candidatar-se a presidente do Senado em 2013. De lá sairia para ser o candidato das oposições à presidência do Brasil no ano seguinte. Por isso, mais do que nunca, é hora de pensar num discurso coerente e sedutor para apresentar aos brasileiros a partir do ano que vem.

No processo eleitoral deste ano, Serra enfrentou o mais poderoso dos adversários. Não se trata de Lula e de sua popularidade acachapante, mas da razão principal dos seus 80% de sua aprovação: o bom momento da economia. Em 2014, Aécio ou quem for o candidato poderá ter que lidar com a mesma maré a favor na economia. E o tempo estiver chuvoso na economia? Terá que enfrentar Lula querendo voltar e garantindo que consertará qualquer estrago feito por Dilma Rousseff.

Por Lauro Jardim

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Fonte: Veja.com

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