Câmbio e comida, por ROBERTO RODRIGUES

Publicado em 04/12/2010 08:36 588 exibições
Dado o desequilíbrio entre a oferta e a demanda de alimentos, o dinheiro vem para commodities agrícolas
A FAO, órgão das Nações Unidas que cuida de agricultura e alimentação, acaba de publicar um estudo mostrando que os preços mundiais das principais matérias-primas agrícolas -cereais, açúcar e oleaginosas- tiveram alta significativa nos últimos meses, registrando valores próximos aos de 2007/2008, antes da crise financeira que varreu o planeta.
Segundo o estudo, o índice de preços foi o maior dos últimos 28 meses.
A FAO está preocupada com o reflexo desse aumento de preços sobre a população mais pobre, porque pode crescer exponencialmente o número de famintos no mundo, hoje próximo de 1 bilhão de pessoas.
Já tratei neste espaço das causas desse aumento forte: quebra de produção por causa de seca (caso do trigo na Europa central e na Austrália), aumento da demanda devido ao crescimento da população e de sua renda nos países emergentes e especulação financeira.
As duas primeiras fazem parte de ciclos normais da agricultura em qualquer lugar: preços sobem, todo mundo planta mais, custos de produção aumentam porque todos querem mais insumos, estoques explodem acima da demanda, preços caem, produção diminui e custos também, até que estoques ficam precários e preços voltam a subir.
Puro mercado, e é por causa desses ciclos inevitáveis que existem políticas protecionistas nos países ricos. É o princípio clássico da segurança alimentar. Mas o terceiro fator, a especulação, é difícil de conter com políticas públicas que não desequilibrem o mercado. A liquidez geral existente no mundo no pós-crise acaba produzindo uma migração alucinada de recursos, muitas vezes especulativos, em busca de remuneração melhor ao capital.
Por isso, dado o fato de vivermos um circunstancial desequilíbrio entre oferta e demanda de alimentos -que talvez persista por mais alguns meses em 2011-, o dinheiro, sem ideologia ou nacionalidade, desembarca nas commodities agrícolas, elevando seu preço ainda mais do que o próprio balanço estoque/ consumo permitiria.
Mas os preços também sobem por causa da questão cambial, mais especificamente devido ao valor do dólar: como a moeda vem perdendo valor em face de outras moedas, o investidor se protege investindo em commodities, todas elas, inclusive as agrícolas. Ou seja, quanto mais barato for o dólar, mais caras serão as commodities. E aí vem o tema da entrada de dólares no Brasil. Há três mecanismos para a moeda vir: investimentos produtivos; aplicações em Bolsa; aplicações lastreadas em renda fixa no mercado financeiro.
Como os juros vigentes no país são muito mais altos do que os praticados nos países ricos, onde estão próximos de zero, o capital especulativo vem em fartura. E isso também ajuda a valorizar o real diante do dólar, o que é ruim para os produtores/exportadores brasileiros, seja na indústria, seja no campo.
Taxa de câmbio, como ensina o professor Marcio Holland, da FGV, é uma variável esquizofrênica: no curto prazo até dá para regular um pouco, mas no longo prazo não tem jeito. E esse longo prazo, o mercado futuro, no caso do dólar, é cinco vezes maior do que o curto prazo, de acordo com Roberto Gianetti, da Fiesp.
No curto prazo, já que o país escolheu o câmbio flutuante, o BC, com o objetivo de evitar excessivas apreciações, faz intervenções (comprando dólar), além da tributação sobre o capital especulativo, em conjunto com metas fiscais e de inflação, as coisas vão se acomodando.
Mas, no longo prazo, a questão central é o equilíbrio fiscal. E não se trata só de o governo gastar menos, e sim de gastar melhor os impostos que lhe pagamos: investimentos em infraestrutura, em educação e em saúde, redução da burocracia, incentivos à inovação, por exemplo.
Isso acaba evoluindo para menor tributação e até redução de juros. O especulador perde o apetite, entra menos dólar, desvaloriza-se o real diante da moeda americana e todos ganham. Mesmo com câmbio flutuante, os riscos de mercado caem e todo mundo fica feliz, produzindo mais e mais barato.
ROBERTO RODRIGUES, 67, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do Departamento de Economia Rural da Unesp -Jaboticabal, foi ministro da Agricultura (governo Lula). Escreve aos sábados, a cada 15 dias, nesta coluna.
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Fonte:
Folha de S. Paulo

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