Oposição e a grande ordem petista, por VINICIUS TORRES FREIRE

Publicado em 09/12/2010 09:59 291 exibições
CONSIDERE-SE o que vai sendo feito dos partidos um mês depois da eleição de 2010, que já parece ter ocorrido no período cambriano. Nesse mês, houve tempo para dizer que a derrota do PSDB fora devastadora e também para dizer o contrário, que seu candidato a presidente conseguiu agregar 44% do eleitorado. Houve tempo para dizer que o DEM estava marcado para morrer e que sobreviveria num nicho jurássico à sua crescente desimportância eleitoral e política. Imaginava-se que o PMDB seria o bicho-papão da presidente eleita. Que o PT teria dificuldades de cavar todos os postos mais importantes que desejava no governo de Dilma Rousseff.
Não tem sido bem assim, por ora.
Dilma, que não é petista da gema, está por definir um ministério mais petista que o primeiro gabinete de Lula -fundador, totem e caudilho do Partido dos Trabalhadores. O PT domina as pastas mais importantes, as econômicas, políticas e sociais. O PMDB ficou um tanto na periferia.
Além do mais, a presidente eleita não se deu ao trabalho de nomear figuras do "setor privado", gambito que Lula teve de jogar em seu primeiro governo a fim de "conquistar credibilidade". Havia Henrique Meirelles no Banco Central. Roberto Rodrigues na Agricultura. Luiz Fernando Furlan no Desenvolvimento. Marcio Thomaz Bastos na Justiça. Houve um zum-zum-zum sobre a nomeação de Jorge Gerdau para o gabinete Dilma, mas não passou disso.
Houve uma tentativa político-midiática de edulcorar a derrota inglória do PSDB, mas o partido acusa as dores do revés, a seu modo, se contorcendo e se debatendo sem norte feito uma minhoca sob a luz do Sol. Debate cego seus rumos pela mídia, sem coesão. Aécio Neves acaba de criticar o direitismo e o conservadorismo tucanos na campanha de 2010 (de José Serra), discorda em público de FHC, mentor intelectual, político e único grande militante do partido, além de sugerir que os tucanos devam procurar aliados como o emergente PSB, ora lulista-dilmista.
O DEM sobrevive apenas devido a idiossincrasias de alguns eleitorados dispersos e periféricos. Não emplacou como "direita moderna", o que não pegou nem como slogan. O DEM jamais foi bem de direita, mas apenas retrógrado, e é atavicamente antimoderno. Pode ser sangrado pela saída do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e seu grupo. Está à beira de um racha, sem norte político, com menos cacife para vender seu apoio em eleições, sem lideranças de peso, novas ou antigas.
O PT está mais estabelecido do que nunca. Forte no governo, militância empregada pelo Estado, ocupa postos-chave na política financeira-empresarial-estatal. Além do mais, o governo petista-lulista estabilizou o país ao emendar a uma política econômica fernandina-tucana uma política de estabilização social.
Implementou políticas de transferência de renda de cunho "neoliberal", na maioria, o que em parte enfraqueceu partidos não parlamentares, como o MST. O petismo-lulismo pacificou outros movimentos sociais por meio de controle político direto, contratos com ONGs, reajustes salariais e outros benefícios. Fez alianças com a grande empresa.
Claro que os anos de bom PIB ajudaram. Mas o partido fez política por todos os poros. Seus adversários apenas se autodissolvem. Não espanta que, por enquanto, o PT esteja por cima da carne-seca.
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Fonte:
Folha de S. Paulo

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