Lula deixa maior juro real do mundo

Publicado em 09/12/2010 10:02 376 exibições
Na última reunião sob o comando de Henrique Meirelles, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) manteve os juros básicos em 10,75% ao ano. Com isso, Lula terminará o governo deixando o país com a maior taxa real (descontada a inflação) do mundo.
Esse foi o último encontro do Copom no governo Lula, mas a maioria dos membros do comitê deve permanecer no cargo na próxima gestão.
Entre eles, está o atual diretor de Normas, Alexandre Tombini, futuro presidente do BC, a quem caberá retomar o ciclo de alta para segurar a inflação.
A manutenção dos juros deixa o país no topo do ranking das maiores taxas reais do mundo, mesma posição que o país tinha no começo do governo Lula.
Em 2003, a taxa real (descontada a inflação projetada para 12 meses) era de 11% ao ano. Caiu para 4,8%.
Para efeito de comparação, nos EUA a taxa real é hoje negativa (o juro é inferior à expectativa de inflação).
O nível alto da taxa real em relação a outros países é um dos fatores que contribuem para atrair mais dólares para o país neste momento e derrubar a cotação da moeda.
A presidente eleita, Dilma Rousseff, já manifestou o desejo de reduzir o juro real nos próximos quatro anos. As previsões para 2011, no entanto, são de alta da taxa.
A maioria dos economistas já esperava a manutenção da taxa básica (Selic). A expectativa é que o juro voltará a subir na próxima reunião do Copom, em janeiro.

O QUE É A SELIC
A Selic determina o custo do dinheiro para os bancos e, por isso, serve de base para os empréstimos a empresas e consumidores, cuja taxa média está em 35% ao ano.
A taxa é um dos principais instrumentos que o BC tem para tentar controlar o ritmo da economia e a inflação.
Inflação que, segundo informou ontem o IBGE, atingiu o maior nível em quase seis anos (leia à pág. B4).
No comunicado divulgado ontem, o BC diz que o cenário para a inflação é "menos favorável", mas que é necessário mais tempo para avaliar o impacto das medidas já anunciadas sobre as condições de crédito e liquidez.
Na semana passada, o BC retirou R$ 61 bilhões da economia com o aumento do compulsório (dinheiro dos bancos que fica depositado no BC). A instituição também impôs restrições a financiamentos acima de 24 meses.

CRÉDITO
No início do primeiro governo Lula, em 2003, os juros estavam em 25%. Meirelles estreou no Copom elevando a Selic, que chegou a 26,5%.
Em 2004, já havia caído para 16%; durante a crise de 2009, chegou a 8,75%, menor patamar desde a criação do Copom, em 1999.
Se Meirelles tivesse elevado o juro, quebraria uma regra de sua gestão: o BC nunca promoveu dois ciclos seguidos de alta da Selic nesses oito anos. Sempre que a taxa subiu, ficou estável por um tempo para depois cair.

Inflação é a maior em quase seis anos

Por Pedro Soares, na Folha:


Índice oficial de inflação, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) continuou a sofrer pressão de alimentos e se acelerou de 0,75% em outubro para 0,83% em novembro -maior índice desde abril de 2005, segundo o IBGE. No ano, já acumula alta de 5,25% até novembro, variação superior à inflação de 2009 (4,31%) e quase um ponto percentual maior que o centro da meta -de 4,5%, com intervalo de dois pontos. Consumo em alta graças à expansão da renda principalmente das classes mais baixas no Brasil e nos demais emergentes e menor oferta de trigo, derivados, outras commodities (soja e milho) e carnes explicam a pressão dos alimentos. O grupo registra aumento de 8,95% de janeiro a novembro -pouco abaixo do triplo da taxa de 2009 (3,18%).

Em novembro, o avanço dos alimentos foi de 2,22%, maior marca desde dezembro de 2002. Diante desse cenário e com a resistência dos preços dos serviços, analistas acreditam em nova rodada de elevação dos juros já nos três primeiros meses do governo Dilma Rousseff. “A Fazenda e o BC acham que só o ajuste fiscal será suficiente para segurar a inflação, mas há um choque de oferta ainda em curso e uma pressão de serviços, estes mais sensíveis ao aumento da renda”, diz Jean Barbosa, economista da LCA.

Neste ano, o grupo alimentação ditou a inflação. “Quando eles subiram no começo do ano, o IPCA foi junto. Depois, ambos arrefeceram, mas o índice voltou a subir com a retomada dos alimentos em setembro”, disse Eulina Nunes dos Santos, coordenadora do IBGE. Somente a carne subiu 26,79% no ano. Foi o item de maior peso na inflação até novembro, seguido por empregado doméstico, refeição fora de casa e colégios.

Para Laura Haralyi, analista do Itaú Unibanco, o cenário para 2011 “ainda preocupa”. Os serviços, diz, vão se manter pressionados por conta do aluguel e da demanda por educação privada. Já os preços dos alimentos, diz, tendem a perder força, o que já ocorre no atacado. Nesse contexto, o Itaú Unibanco prevê juros maiores já em janeiro. O BC, estima Haralyi, vai elevar a taxa em 1,5 ponto percentual nas três primeiras reuniões do Copom de 2011.

Poupança tem pior rendimento em sete anos: “rendimento” negativo de 0,29%

Na Folha:
Mais popular aplicação do país, a caderneta de poupança levou uma surra da inflação no mês passado. Levantamento da consultoria Economática mostra que o rendimento real da aplicação em novembro (descontada a variação de 0,83% do IPCA) foi negativo em 0,29%. É o pior desempenho desde março de 2003. Se considerar a inflação de 1,45% do IGP-M, índice que corrige os preços dos aluguéis e diversos contratos de serviços, o retorno da poupança é negativo em 0,91%. Desde 2003, a poupança perdeu para o IPCA em 20 oportunidades, segundo a Economática. No período, foram considerados 95 meses. A pior taxa de retorno nesse período foi registrada em janeiro de 2003, quando o rendimento real da caderneta de poupança foi negativo em 1,23%. O melhor mês para a aplicação foi junho de 2003, quando teve ganho de 1,07% sobre a inflação.

Como exemplo do efeito da inflação no mês passado, a Economática cita o caso de um depósito de R$ 1.000 feito ao final de outubro. No final do mês de novembro, o poupador teria R$ 1.005,35. No mesmo período, no entanto, uma cesta básica que valia R$ 1.000 teria chegado a R$ 1.008,30 no final de novembro. Na simulação, para comprar a cesta no final do mês passado, o poupador teria de desembolsar mais R$ 2,95, além dos R$ 1.005,35 “corrigidos” pela poupança. A poupança é uma aplicação isenta de impostos e que tem a vantagem de não cobrar taxa de administração, como os fundos de investimento dos bancos. Fundos DI e de renda fixa com taxa de administração acima de 2,5% costumam render menos do que a poupança, segundo consultores de investimentos pessoais. No mês passado, nenhuma aplicação financeira média conseguiu bater os índices de inflação.

Especialistas dizem que, se os juros não subirem, não há muito o que os pequenos investidores possam fazer para se proteger da inflação. A única alternativa seria comprar títulos da dívida pública ou privada corrigidos pela inflação. O problema é que esses papéis subiram bastante nas últimas semanas, perdendo a capacidade de “proteção” para os investidores retardatários. Sob pressão dos alimentos, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) já acumula alta de 5,25% até novembro. Há um mês de fechar o índice de 2010, a taxa é superior à inflação de todo o ano de 2009 (4,31%) e quase um ponto percentual acima do centro da meta de inflação do governo (de 4,5%). De janeiro a novembro deste ano, os alimentos subiram 8,95%, bem acima da taxa de 3,18% do índice fechado de 2009.

Tags:
Fonte:
Folha de S. Paulo

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

0 comentário