Nossa tragédia ambiental silenciosa de todos os dias

Publicado em 12/03/2011 16:06 1109 exibições
por Édison Carlos - em O Estado de S.Paulo deste sábado.

Outro dia estava lendo uma matéria de um jornal da Paraíba que dizia que 17% dos domicílios do Estado nem sequer tinham um banheiro para que as pessoas pudessem "fazer suas necessidades". Segundo a nota, são quase 180 mil paraibanos, brasileiros, despejando suas fezes e urina a céu aberto. Uma situação que, apesar de grotesca, é realidade comum para outros 13 milhões de cidadãos deste país. 

Isso me lembrou do texto do escritor Mario Vargas Llosa que afirmava que a privada deveria ser eleita como ícone da civilização e do progresso, em vez do telefone ou da internet. Junto-me ao time do escritor de que ter ou não banheiro, por mais absurdo que pareça, ainda significa um divisor no mundo, uma autêntica parede desumana dividindo a dignidade entre mundo e submundo, os com e os sem acesso a esse "luxo". 

Vivemos um desastre ambiental diário e silencioso. Como menos de 44% da população está ligada a uma rede de esgotos e menos de 30% desse esgoto é tratado, segundo dados do Ministério das Cidades - Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis) 2008 -, são bilhões e bilhões de litros de resíduos jogados in natura todos os dias nos nossos rios, lagos, bacias e mar. Um poderosíssimo veículo transmissor de doenças, como mostrado pelo Instituto Trata Brasil em seu último estudo Esgotamento Sanitário Inadequado e Impactos na Saúde da População, realizado com dados das 81 maiores cidades do País (acima de 300 mil habitantes). Pelos números levantados, as diarreias respondem atualmente por mais de 50% das doenças relacionadas ao saneamento básico inadequado, e em 2008 as dez piores cidades em taxas de internação por diarreias responderam por 38% das hospitalizações por esse tipo de doença, mesmo sua população respondendo por apenas 9% do público pesquisado. E o pior de tudo, os resultados comprovam que o grupo mais vulnerável dessa tragédia são as crianças de até 5 anos de idade. Em 2008, foram 67,3 mil crianças dessa faixa etária internadas por diarreias, número que representou 61% de todas essas hospitalizações.

E, para mostrar que isso não é exclusivo daqueles que moram em áreas menos favorecidas, vale lembrar que, somente em janeiro deste este ano, na Baixada Santista, em São Paulo, foram mais de 8.700 casos de diarreia, muito disso fruto das fortes chuvas que alagam as redes de esgoto, "democratizando" a doença pelas cidades e praias.

Por essas e outras tragédias silenciosas que convivem conosco, o último Ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) divulgado em novembro pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) mostrou o Brasil apenas na posição 73, entre os 169 países avaliados. Como o novo cálculo do IDH considera, entre outras coisas, os "anos esperados de escolaridade" e a "renda nacional bruta", os especialistas são unânimes em dizer que um país só avançará no IDH se progredir simultaneamente nas três dimensões avaliadas - saúde, educação e renda. Como não poderia deixar de ser, a falta de coleta e tratamento dos esgotos afeta negativamente todos os três fatores, portanto ajudam a manter o Brasil longe dos melhores países em desenvolvimento humano.

O lançamento dos esgotos sem tratamento na natureza é um atentado ao cidadão, que ocorre 24 horas por dia, 365 dias por ano. Os esgotos representam hoje o maior impacto ambiental às águas do País, principalmente nas grandes regiões metropolitanas. Não temos como falar em cidades sustentáveis ou "sustentabilidade", enquanto nossos cursos d"água forem vítimas da falta dos serviços de coleta e tratamento dos esgotos, legítimo fruto do descaso e falta de prioridade política das autoridades nas últimas décadas.

A solução para este desastre sem charme passa por todos os elos do governo, mas, sobretudo pela vontade dos prefeitos, responsáveis pela solução do problema, segundo a lei que rege o saneamento. Ele pode constituir sua própria empresa municipal ou conceder o serviço a uma empresa estadual ou privada, fazer uma parceria público-privada ou um sistema misto - solução existe. Mas sua responsabilidade não para por aí... Ele deve, por força da lei do saneamento, priorizar também a formulação do Plano Municipal de Saneamento Básico de seu município, sem o qual não poderá mais acessar os recursos federais. Cabe à autoridade local, portanto, vários desafios, mas principalmente o de olhar cuidadosamente a gestão dos serviços prestados à sua cidade, garantindo que se persiga a redução das perdas de água, a transparência da informação à população, o cumprimento das metas e a aplicação de tarifas adequadas à realidade local.

Tanto quanto aos prefeitos, cabe ao governo federal - que acertou na criação do Ministério das Cidades e na Secretaria Nacional de Saneamento Básico - e aos governadores zelar pela melhoria urgente da gestão das empresas que operam o saneamento no País. Não é suficiente, portanto, o governo federal acenar com os vultosos recursos do PAC, porque está mais do que provado que, com os gargalos e as burocracias que enfrenta o setor, esses recursos chegam em doses homeopáticas e, a continuar assim, serão incapazes de cobrir o gigante déficit que atinge o setor nas próximas décadas.

Cabe a todos nós o papel de reivindicadores ferozes da solução deste quadro incompatível com o Brasil que se apresenta hoje no mundo. Cabe aqui, também, um chamado urgente às entidades ambientalistas e aos profissionais da saúde de todo o Brasil, para que discutam urgentemente essa tragédia nacional em seus círculos de contato, porque, diferentemente dos temas que afetarão nosso futuro, os esgotos estão nos contaminando hoje, agora... poluindo nossas águas e adoecendo nossas crianças.

PRESIDENTE EXECUTIVO DO INSTITUTO TRATA BRASIL 

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Fonte:
O Estado de S. Paulo

4 comentários

  • miguel nunes neto Guajará-Mirim - RO

    Essas ONG's que têm a complacência da grande midia, vendem a idéia que todos os problemas ambientais estão no meio rural e sua solução está em transfornar a Amazônia Legal num grande jardim zoológico, com nós que a habitamos, como os palhaços humanos. As cidades não conseguem tratar o seu próprio lixo e os dejetos humanos, então como viver com "sustentabilidade", palavra mágica na boca desses ecoxiitas. Será que a solução é deixar nós aqui na Amazônia no meio do mato como quer os ambientalistas (em sua grande maioria, senão a maioria, pessoas eminentemente urbanas), ou cada um de nós cuidar de seu lixo, cuidar da educação de nossos filhos, deixando nós, Produtores Rurais, produzir com tranquilidade os alimentos para toda a população, que em sua maioria mora nas cidades. Pela votação do novo Codigo Florestal Brasileiro agora em março. Pela aprovação do relatório do Deputado Aldo Rebelo. Até a vitória final. Vamos lutar até a última batalha.

    Engenheiro Agrônomo Miguel Nunes Neto - Presidente do Sindicato dos Produtores Rural de Guajará Mirim - Rondônia.

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  • Luiz Prado Rio de Janeiro - RJ

    No Brasil, uma plano de saneamento básico minimamente sensato vai ser difícil. Duvido que mesmo municípios como São Paulo e Rio de Janeiro tenham sequer um plano diretor de macro-drenagem, que permitiria direcionar as redes de coleta de esgotos. Além disso, as concessionárias estaduais ODEIAM a idéia de reuso de água! E isso para não falar no fato de que sequer pensam em recarga do lençol, como ocorre nos países mais sérios, como a Alemanha.

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  • Almir José Rebelo de Oliveira Tupanciretã - RS

    Vejam o tamanho do nosso desafio como produtores rurais! Segundo informações da FAO, OMS e ONU, as duas maiores catástrofes ambientais são: 1) FOME: A cada 6 segundos morre 1 pessoa no mundo de fome. 2) DOENÇAS TRANSMITIDAS PELA ÁGUA E PROBLEMAS DE SANEAMENTO BÁSICO: A cada 15 segundos morre 1 pessoa no mundo por doenças transmitidas por água sem tratamento e decorrências de faslta de saneamento básico. Mas os ambientalistas NÃO entendem dessa forma e querem que o Brasil diminua em pelo menos 20% (no mínimo) a área para produção de alimentos e NÃO querem ver que os problemas ambientais estão nas cidades e não no interior. Portanto, mobilização em Brasília para aprovarmos o Novo Código Ambiental relatado pelo Dep. Aldo Rebelo apesar dos Ambientalistas estarem usando a Contag para dividir os pequenos contra os grandes e enfraquecer nossa posição em favor do Brasil. Cadê nossas entidades para evitar mais esse desastre ambiental?

    Vamos em frente!

    Abraços.

    Almir Rebelo

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  • Telmo Heinen Formosa - GO

    Ninguém se importa com aquilo que ocorre lentamente tal como esta nossa tragédia ambiental silenciosa de todos os dias, falta de educação e de informação, este sim um ponto em que a Igreja deveria atuar! Mede-se o "progresso" com o medidor errado. A Igreja deveria ser a primeira a propugnar pela dignidade do ser humano, já pensou em 13 milhões de brasileiros que não tem nem um mínimo local apropriado para fazer sua necessidades fisiológicas? Não é só incapacidade econômica que explica isto... é falta de instrução e de educação básica mesmo.

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