Soja: Folha mostra que falta de transporte e câmbio desfavorável impedem aumento da produção

Publicado em 24/04/2011 20:40 e atualizado em 25/04/2011 20:33 855 exibições
Safra recorde gera busca por tecnologia

Novas máquinas ajudam o produtor a atender demanda internacional e aumentam a projeção de colheitas futuras

Infraestrutura de transportes e câmbio desfavorável limitam lucros e impedem aumento da produção


Fotos Eduardo Knapp/Folhapress
b2404201101.jpg
Roberto Chioquetta, dono de fazenda na região de Campo Novo de Parecis (MT), em um de seus silos com soja

Aumento de área plantada, índices inéditos de produtividade e alta demanda no mercado internacional devem fazer da safra 2010/ 2011 a maior da história, segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).Os bons resultados vão impulsionar investimentos dos fazendeiros em novas técnicas e tecnologias de produção e colheita nas propriedades, mas não alteram a realidade da porteira para fora: poucas ferrovias e hidrovias, rodovias em péssimo estado e portos sobrecarregados."Continuamos com problema em estradas e portos e não temos mais como aumentar a produção", diz o presidente da Aprosoja Brasil (Associação dos Produtores de Soja), Gláuber Silveira.
A última estimativa da Conab, deste mês, aponta que a produção de grãos deve atingir 157,4 milhões de toneladas, um aumento de 5,5% ante a safra 2009/2010.A área plantada com as principais culturas cresceu 1,84 milhão de hectares (quase o território do Sergipe). Essa situação, aliada à recuperação dos preços no mercado internacional, aponta um cenário propício para investimentos e ganho de produtividade para a safra 2011/2012.
"Quando o produtor ganhava uns trocos, comprava terras novas em regiões novas. Com tantas restrições ambientais, isso não é mais possível. Esse dinheiro a mais será investido em tecnologia dentro da fazenda", diz o produtor Sérgio Stefanello, de Mato Grosso.Entre os desejos, estão máquinas de plantar e colher com piloto automático, guiadas por GPS e capazes de gerar relatórios em tempo real da produção, que podem custar até R$ 1,1 milhão.
"Em 2009, vendemos três sistemas de piloto automático. No primeiro trimestre de 2011, foram 14", diz Carlos Mello, 29, coordenador em uma revenda de Campo Novo do Parecis (MT).
A melhora nos investimentos é nítida em outros indicadores. Segundo o Imea (Instituto Matogrossense de Economia Agrícola), os produtores de MT já haviam comprado 76% dos insumos (sementes, fertilizantes e defensivos) previstos para a próxima safra de soja, que será plantada a partir de setembro.Um dos fatores negativos para os produtores foi o câmbio, que afetou os ganhos dos que venderam a soja antecipadamente em dólar, caso de 75% da safra do Estado.

TRANSPORTE
Em termos de logística, Mato Grosso sofre com a falta de alternativas. A BR-163 (Cuiabá-Santarém), não duplicada, é o principal canal de escoamento para 41 cidades que concentram quase 50% da produção e é operada além da capacidade.Segundo a Aprosoja, 47% da produção de soja e 74% da produção de milho de MT são escoadas por meio dos portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR), sendo o modal rodoviário o mais empregado.O escoamento por Santarém (PA), alternativa considerada fundamental para a região, depende do término do asfaltamento e duplicação da BR-163."Em Mato Grosso, poderíamos estar produzindo 5 milhões de toneladas a mais. Mas não temos por onde tirar", diz Gláuber Silveira.

Agricultura quintuplica PIB da cidade

Terceiro maior produtor de soja de MT e maior produtor nacional de girassol e milho de pipoca, o PIB de Campo Novo do Parecis cresceu 408% entre 1999 e 2008. A região tem outros centros produtores e busca diversificar culturas.


Máquinas reduzem desperdício e ajudam a planejar produção

Cada caminhão que sai carregado de soja da fazenda Santa Amélia, em Campo Novo do Parecis (MT), fecha um ciclo que, graças aos avanços tecnológicos, começou muito antes do plantio da safra, no ano anterior.

Cada um dos 3.600 hectares destinados ao plantio é georreferenciado, analisado segundo suas características (pH, proporção de nutrientes e a presença de pragas) e manejado com o auxílio de máquinas de pulverização, adubação e colheita equipadas com piloto automático e GPS.

"Reduzimos o desperdício: cada trecho recebe só o adubo e o fertilizante necessários, nada a mais, nada a menos", diz Roberto Chioquetta, 50, um gaúcho que chegou à região há 21 anos.

Chioquetta planta soja na safra principal. Na safrinha, usa 1.600 hectares para o plantio de milho comum, milho para pipoca e girassol.

O plantio é precedido por um mapeamento detalhado do potencial e das deficiências da propriedade. O diagnóstico usa imagens de satélite e o resultado da análise de amostras do solo.
O mapeamento vai para um cartão de memória e determina o trabalho das máquinas que irão preparar o solo. "Basta plugar no trator", diz Chioquetta.

Uma plantadeira -que, junto com o trator que a conduz, forma um conjunto de R$ 1 milhão- é comandada com o auxílio de um joystick e funciona com um sistema de GPS. Toda a programação é feita pelo operador do trator, que trabalha em cabine refrigerada. A maior parte dos comandos é feita em uma tela sensível ao toque.

A colheitadeira também obedece a uma programação e tem sensores que avaliam a produção em cada trecho colhido, em tempo real -os dados geram um mapa de produtividade que é base de trabalho para a safra seguinte.

Depois de colhida, a produção é armazenada em sete silos que estão ligados a um sistema eletrônico que monitora e faz o controle automático de peso, temperatura e umidade dos grãos.
Na etapa da venda, os caminhões são carregados sobre uma balança eletrônica, ligada ao escritório da propriedade. "Emitimos a nota fiscal na hora."

Chioquetta diz que a modernização cortou pela metade o número de funcionários, mas dobrou a folha de pagamentos. "É difícil encontrar pessoal especializado", afirma.

Tags:
Fonte:
Folha de S. Paulo

0 comentário