Renda rural e democracia, por ROBERTO RODRIGUES

Publicado em 07/05/2011 06:01 564 exibições
Ninguém nasce grande: o grande é o pequeno que deu certo e cresceu, e todos têm o direito de crescer...
ESTÁ TERMINANDO hoje em Ribeirão Preto a 18ª edição da Agrishow. Os expositores, principalmente os fabricantes de máquinas, equipamentos e colhedeiras, estão satisfeitos com as vendas.
Não é para menos: estamos colhendo a maior safra de grãos da nossa história, os preços estão bons, de modo que, apesar do dólar barato que retira parte significativa do faturamento do setor, a renda rural de 2011 será melhor do que a de anos anteriores.
O produtor rural ama o que faz e sempre que obtém lucros acima do esperado trata de investir mais em tecnologia buscando melhorar a sua própria competitividade para se manter na atividade. E vai em busca da última palavra oferecida pelos cientistas, seja com as sementes mais promissoras geneticamente, seja com os fertilizantes e defensivos menos agressivos ao ambiente, seja com o maquinário mais moderno.
E uma feira como a Agrishow tem mesmo de ser um sucesso.
Agora, atingida a sua maioridade, está claro que essa feira dinâmica foi um ponto de inflexão da tecnologia brasileira. Até então, nossas exposições eram estáticas e o produtor rural tinha de se contentar em ver as máquinas e em ler seus catálogos distribuídos por belas recepcionistas.
Uma feira dinâmica, ao contrário, consiste na verificação, pelos produtores rurais, das máquinas operando em plantio, tratos culturais, colheita e transporte.
Com isso, eles podem comparar a performance das diferentes marcas, o que exige dos fabricantes investimentos em tecnologia industrial para se manterem no mercado. Se uma pessoa tivesse assistido à primeira versão da feira em 1994 e, por alguma razão, só tivesse voltado neste ano, não acreditaria no que estaria vendo: pensaria estar em outro planeta, tamanha a evolução.
Com o advento da agricultura de precisão, as modernas máquinas dotadas de ar condicionado, ampla visão geral da área e acopladas a GPS se tornaram lugar-comum.
Plantadeiras capazes de semear 150 hectares por dia já estão disponíveis. E agora estão surgindo as máquinas-conceito cada vez mais "inteligentes" e que serão operadas de dentro do escritório, por controle remoto.
Munidas de sensores e câmeras, elas identificarão a umidade relativa do ar, a temperatura, a velocidade do vento, e executarão serviços de pulverização muito mais precisos e econômicos. Máquinas sofisticadas, poderosas e caras...
Por outro lado, é sabido que, na economia globalizada, as margens unitárias por produto agrícola são cada vez menores, e a renda rural só se faz com escala. Isso nos coloca diante de um grave dilema: as máquinas capazes de conferir competitividade aos agricultores serão grandes e custosas, e o pequeno produtor não tem escala.
Ele é uma figura importante no tecido social do país. Sua sobrevivência e progresso interessam à sociedade toda e à democracia. Como compatibilizar esse legítimo interesse nacional com a concentração ditada pela globalização?
Uma das respostas mais evidentes e já adotadas com entusiasmo pelos grandes países agrícolas é o cooperativismo. Em uma cooperativa, um grande conjunto de pequenos ganha escala, agrega valor, incorpora as mesmas técnicas, aplica insumos iguais aos grandes, e compete com eles.
Portanto, o cooperativismo é uma doutrina que interessa a um governo verdadeiramente democrático e deve por ele ser fomentado. Através das cooperativas, um crédito rural diferenciado, acoplado a um eficiente seguro agrícola, pode ser oferecido aos pequenos produtores, inclusive com subvenção, como já acontece no mundo todo. Estímulos fiscais à indústria de equipamentos devem ser oferecidos para a produção de máquinas menores.
Em suma, em um mundo agrícola em que despontam a biotecnologia, a nanotecnologia, a agricultura de precisão e as máquinas-conceito, é fundamental construir as condições de avanço capitalista para os pequenos produtores. Afinal, ninguém nasce grande: o grande é o pequeno que deu certo e cresceu, e todos devem ter o direito de crescer.
ROBERTO RODRIGUES, 67, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do Depto. de Economia Rural da Unesp - Jaboticabal, foi ministro da Agricultura (governo Lula). Escreve aos sábados, a cada 14 dias, nesta coluna.

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Fonte:
Folha de S. Paulo

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