Empresas de equipamentos agrícolas da Argentina elevam aposta no Brasil

Publicado em 11/05/2011 08:09 e atualizado em 04/03/2020 23:00 766 exibições
Fabricantes argentinos de máquinas e equipamentos agrícolas estão instalando novas unidades ou expandindo suas operações no Brasil. Empresas como Metalfor, Ombú e Du Maire colocam em prática os planos de reforçar sua presença no mercado brasileiro e produzir localmente, negociando financiamento e isenções tributárias para investir no interior do país.

O movimento das indústrias de máquinas tem relação apenas parcial com a chegada de grandes investidores do país vizinho - como Los Grobo, El Tejar e Adecoagro - na produção de grãos, principalmente no Centro-Oeste. Algumas companhias argentinas entraram no Brasil vendendo equipamentos como pulverizadores e colheitadeiras a seus compatriotas, mas todas elas dizem que hoje sua base de clientes é formada majoritariamente por produtores brasileiros.

Em 2010, a Argentina exportou US$ 287 milhões em máquinas agrícolas. O Brasil é apenas seu terceiro maior mercado, atrás da Venezuela e do Uruguai. Mas a tendência é menos de aumentar as exportações e mais de expandir a capacidade de produção local. Afinal, diz Osmar Ribeiro Junior, gerente financeiro da subsidiária da Metalfor em Ponta Grossa (PR), é difícil entrar "agressivamente" no mercado brasileiro sem investir em uma fábrica no país.

Originalmente do interior de Córdoba, uma das áreas mais férteis da pampa úmida argentina, a Metalfor abriu sua filial paranaense em 2000. Fabricando pulverizadores agrícolas, essa subsidiária já fatura US$ 15 milhões por ano e corresponde a 15% das vendas globais da empresa. "O grupo está muito satisfeito com o desempenho no Brasil", afirma Ribeiro.

Em fevereiro, a companhia cordobesa inaugurou um centro de treinamento e de distribuição de peças em Mato Grosso, para atender mais rapidamente seus clientes na região. Além disso, tem estudos prévios para a instalação de uma segunda unidade no Brasil e avalia a conveniência de buscar financiamento no BNDES. "Seria um projeto de médio a longo prazo", adianta o executivo, sem divulgar valores.

Com sede na Província de Santa Fé, outro importante polo agrícola da Argentina, a Ombú atua fortemente na produção de cabeçais, reboques autodescarregáveis, embolsadoras e extratoras de grãos. Há três anos começou a vender seus equipamentos no Brasil. Era, principalmente, a agricultores argentinos que haviam se instalado no Centro-Oeste para cultivar soja. Também fizeram vendas a produtores de soja, milho e arroz na região Sul. Curiosamente, foi a segunda clientela que mais cresceu e fez a empresa decidir-se pela internacionalização, com a abertura de uma unidade própria no país.

"Começamos a buscar terrenos e estrutura em diversos lugares", conta Danilo Gribaudo, diretor de produção e comércio internacional da Ombú. A Prefeitura de Ijuí (RS) ofereceu um terreno de cinco hectares e o município gaúcho foi escolhido. Hoje a empresa já tem assistência técnica direta e faz a montagem final de peças no Brasil, em uma pequena fábrica alugada, que não será a estrutura permanente. Os planos são de reforçar o conteúdo local nas máquinas produzidas no Rio Grande do Sul. "Seguramente isso ocorrerá no ano que vem. E, ainda neste ano, precisamos começar algum processo produtivo".

"Os empresários argentinos perderam o medo de negociar com os brasileiros. Havia um medo do desconhecido, mas passou", diz Gustavo Segré, sócio-diretor do Center Group, que presta consultoria a firmas dos dois países interessadas em investir do outro lado da fronteira. "A maioria das empresas argentinas está quase no limite de sua capacidade de produção e enfrenta o dilema de investir ou não no país, sabendo que o modelo econômico atual tem seus dias contados", acrescenta Segré. Isso ajuda, segundo ele, a explicar a opção de investir no Brasil.

Outra companhia que deve seguir o caminho de suas compatriotas é a Du Maire, também de Santa Fé. Ela se instalou no município de Campo Verde (MT) para montar seus implementos como semeadoras, com peças quase integralmente importadas, e comercializá-los sem a ajuda de concessionárias. Agora, está em tratativas com o governo do Estado para incorporar conteúdo nacional, o que lhe garantiria benefícios tributários. A mídia argentina citou recentemente um projeto da empresa para "abrasileirar" até 50% da produção em dois anos, mas a Du Maire não confirmou a informação.

Para o superintendente da Secretaria de Indústria de Mato Grosso, Sérgio Romani, a fabricação de máquinas agrícolas em Campo Verde (a 131 quilômetros de Cuiabá) permite ganhos logísticos para abastecer os clientes em Rondônia, no Pará e em Mato Grosso do Sul. "A localização deles, com a pavimentação da BR-163, é estratégica."

A decisão de instalar uma unidade de produção local, e não apenas uma revendedora, "vai depender do sucesso que eles alcançarem nas vendas", afirma Romani. Mas o superintendente ressalta que a Du Maire pode solicitar três tipos de incentivos. Por meio da Sudam, há abatimento no Imposto de Renda de até 75% dos recursos investidos na Amazônia Legal. O governo estadual oferece crédito presumido de ICMS. Já os municípios preveem doação de terreno, isenção de IPTU e de taxas com a emissão de alvarás.

Segré diz que esses incentivos seduzem as empresas argentinas. Ele também acredita no aumento das exportações de equipamentos agrícolas da Argentina para o Brasil. De acordo com ele, o Banco de la Nación inaugurou uma linha de crédito, com taxa Libor mais 6% e pagamento de três a cinco anos, para a compra de máquinas argentinas por brasileiros.

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Fonte:
Valor Econômico

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