Estadão: Dilma demite Jobim da Defesa; Aldo Rebelo poderá assumir

Publicado em 04/08/2011 16:22 e atualizado em 04/08/2011 19:16 647 exibições
Depois de ler a entrevista na qual chama ministra de 'muito fraquinha', presidente avaliou que ministro estava em situação 'insustentável'; Aldo Rebelo é cotado para assumir pasta. (por Vera Rosa e João Domingos, de O Estado de S. Paulo).

Depois de ler a íntegra da reportagem da revista Piauí com o perfil e as declarações do ministro da Defesa, a presidente Dilma Rousseff avaliou que Nelson Jobim ficou numa "posição politicamente insustentável" e decidiu demiti-lo, no final da manhã desta quinta-feira, 4. Segundo fontes do Planalto, a presidente teria pedido para ele antecipar a volta de Tabatinga (AM). Dentre os nomes cotados para o lugar do ministro estão o do deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) e o do atual ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo.

Ao contrário do que disseram alguns assessores do ministro da Defesa, a presidente não soube, "há um mês", que ele havia, em entrevista à Piauí, feito críticas às ministras escolhidas por Dilma depois da crise do caso Palocci, e que trabalham diretamente com ela no Palácio.

Jobim disse à revista que a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvati, é "fraquinha", e que Gleisi Hoffmann, ministra-chefe da Casa Civil, "não conhece Brasília". O ministro da Defesa considerou o governo Dilma "atrapalhado" pela maneira como, dois meses atrás, tratou da Lei de Acesso à Informação, promovendo vários recuos ao se posicionar sobre o sigilo dos documentos ultrassecretos - no final, a presidente optou por manter a proposta da Câmara, contrária ao sigilo eterno e permitindo que documentos ultrassecretos tenham sigilo de 25 anos renovado por apenas mais 25 anos. A outra proposta era favorável a renovar indefinidamente o sigilo.

Dilma ficou irritada como fato de Jobim ter se encontrado nesta quarta-feira, 3, com ela e, na audiência, não ter falado sobre as críticas às ministras. Antes da audiência, no Planalto, a presidente havia recebido no Palácio da Alvorada, o assessor de Jobim, o ex-deputado e ex-presidente do PT José Genoino. Ele não falou com Dilma sobre a reportagem da Piauí.

No início da noite dessa quarta, Jobim ligou para Ideli Salvatti, falou da reportagem e disse que as palavras dele estavam "fora de contexto". Ideli foi até a presidente e fez o relato sobre o que ouvira de Jobim.

Na manhã desta quinta, quando já estava na Amazônia, a caminho da Tabatinga, Jobim tentou falar também com a ministra Gleisi Hoffmann. A ministra-chefe da Casa Civil não quis atender Jobim e mandou dizer, depois, pelos assessores, que as opiniões do colega da Defesa eram "irrelevantes".

Comentário de Reinaldo Azevedo (em veja.com.br):

Não há como Jobim continuar no governo

Pouco importa a avaliação que se tenha sobre as declarações de Nelson Jobim — ou a ele atribuídas; a esta altura, faz pouca diferença , é evidente que ele não reúne mais condições para permanecer no governo. Estará sempre cercado por um batalhão de descontentes. A única coisa que poderia mantê-lo no cargo seria a confiança pessoal da presidente da República, mas esse também não é o caso. Ele nem mesmo é ministro por vontade dela.

Quem sugeriu que Jobim permanecesse no ministério da Defesa foi Lula. Pesaram, sim, na decisão, o bom diálogo que mantém com os militares, a habilidade com que conduziu, na sua área, o estúpido debate sobre a impossível revisão da Lei da Anistia e os cuidados na instalação da tal Comissão da verdade. Mas, se fizesse apenas a sua vontade, Dilma não o teria escolhido.

Embora Lula seja quem é  aquela figura que, para domínio público, já nasceu sabendo tudo, fazendo um permanente download do Divino , nas suas relações profissionais, ele ouve com mais modéstia o interlocutor do que Dilma; digamos que tenha mais habilidade para lidar com temperamentos altivos como Jobim. Quem conviveu ou convive com o Apedeuta sabe disto: ele inspira uma espécie de sujeição voluntária mesmo entre os sabidos porque se aposta, de algum jeito, que sua sabedoria não é deste mundo. Sem traquejo político, Dilma aposta só na sua autoridade.

Embora negue, Jobim perdeu espaço no governo. Está descontente. O que é um tanto incompreensível é sua maneira de expressar esse descontentamento. Vem de uma seqüência de declarações cujo desdobramento é um só: o pedido de demissão. Ele nega que tenha dado as tais declarações sobre Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann, mas isso passou a ser irrelevante, repito, porque o fato é que todos acreditam no contrário.

A demissão, nesse cenário, é um desdobramento óbvio. Se Jobim fica, incentiva a indisciplina. Fôssemos aqui fazer a lista de quantos deveriam precedê-lo na demissão, a começar do critério da moralidade pública ou da eficiência, há nomes que vêm antes e depois da letra “n”. Mas ele resolveu saltar para o primeiro lugar da fila. No dicionário da política, a “subordinação” vem antes da decência ou da moralidade.

Por Reinaldo Azevedo

O trecho polêmico que deve resultar na demissão de Jobim

Abaixo, segue trecho do texto publicado pela revista Piauí, reproduzido pelo Estadão Online, em que aparecem as declarações atribuídas a Nelson Jobim, com considerações pouco airosas sobre colegas de ministério:

Numa quinta-feira de julho, Nelson Jobim marcou apenas um compromisso na agenda, na parte da manhã: participar da comemoração dos 80 anos de Fernando Henrique Cardoso, no Senado. De terno escuro e gravata azul-clara, foi o único ministro do governo a participar da cerimônia. Quando o aniversariante chegou, Jobim sentou-se à mesa armada no palco do auditório do Senado, cercado de políticos do PSDB e do DEM. Fez questão de falar e chamou seu discurso de um monólogo para Fernando Henrique. ‘Fui seu amanuense, ou escrivão, durante a Constituinte’, brincou. ‘Fui seu ministro da Justiça e indicado por você para o Supremo Tribunal Federal. Se estou aqui hoje, Fernando, é por tua causa.’ E encerrou o discurso com uma citação que causou surpresa na mesa e na platéia: ‘Nelson Rodrigues dizia que, no tempo dele, os idiotas entravam na sala, ficavam quietos num canto ouvindo todo mundo falar e depois iam embora. Mas hoje, Fernando, os idiotas perderam a modéstia.’ Ao fim da cerimônia, à uma da tarde, Jobim foi para o gabinete do senador Fernando Collor. (…)

Jobim deixou a sala de Collor e foi para o Ministério, onde almoçou rapidamente. Enquanto comia uma salada, comentou a discussão da liberação de documentos sigilosos do Estado. ‘É muita trapalhada, a Ideli é muito fraquinha e Gleisi nem sequer conhece Brasília’, falou, referindo-se à ministra das Relações Institucionais e à da Casa Civil.

Disse que o Collor não criaria empecilhos, mas que estava chateado porque, enquanto ele discutia o projeto, foi atropelado por um pedido de urgência na votação, feito pelo senador Romero Jucá, da base governista. ‘Ele se sentiu desrespeitado, não havia razão para o pedido de urgência’, afirmou Jobim. Na conversa, Collor lhe contou que faria um discurso contra o projeto e Jobim lhe pediu que não o fizesse, no que foi atendido. ‘Eu disse a ele que havia muito espaço para negociação e que, se ele fizesse o discurso atacando o governo, estreitaria essa possibilidade.’ Perguntado sobre por que havia tantas idas e vindas no governo na relação com o Congresso, Jobim não teve dúvidas: ‘Falta um Genoíno para ir lá negociar.’

José Genoíno se candidatou a deputado, não se elegeu e, no começo do ano, Jobim o chamou para ser seu assessor. Antes de convidá-lo, porém, informou a presidenta da sua intenção. ‘Mas será que ele pode ser útil?’, perguntou-lhe Dilma. E ele respondeu: ‘Presidenta, quem sabe se ele pode ou não ser útil sou eu.’”

Por Reinaldo Azevedo

Lula afasta-se publicamente de Jobim

Por Flávia Marreiro, na Folha Online:
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva qualificou nesta quinta-feira de incompreensível as declarações do ministro da Defesa, Nelson Jobim, sobre suas colegas de gabinete Ideli Salvatti (Relações Internacionais) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil).

“Tem coisas que a gente não compreende”, disse Lula à Folha. “Por que falar de outros ministros? É tão mais fácil falar bem das pessoas, tão mais tranquilo”, seguiu. “Se o senhor não compreende imagina eu”, respondeu, ao lado de Lula, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo.

Lula e o ministro participam nesta quinta de um fórum de investimentos Brasil-Colômbia promovido pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Ao ser abordado, Lula disse que era “um problema da presidente Dilma. Não posso falar aqui”.

Bernardo ironizou as declarações do ministro da Defesa: “O Jobim quer uma queda de braço com a Ideli.Ele é mais forte que ela, grandão.”

Após constranger o governo declarando ter votado em José Serra nas eleições de 2010, Jobim afirmou à revista “Piauí”, cujos trechos foram antecipados pela colunista Mônica Bergamo na edição de hoje da Folha, que Ideli “é muito fraquinha” e que Gleisi “sequer conhece Brasília”. A presidente Dilma Rousseff espera que o ministro antecipe-se e peça demissão do cargo.

Por Reinaldo Azevedo

As críticas de Jobim: a questão é de método, não de mérito

Ninguém acha que Gleisi Hoffmann conheça muito Brasília ou que Ideli Salvatti não seja “fraquinha” — só Sarney a classificou de “bem fortinha”, referindo-se a seu peso (é sério!). Poucos discordam de que o governo seja atrapalhado. E não são raros os que concordam com a afirmação de que os idiotas perderam a modéstia. Dito isso, vamos ver.

Dado o padrão da vida púbica brasileira, em especial do governo liderado pelo PT, não deixa de ser um mérito um ministro cair não por roubalheira, mas por insubordinação, incontinência verbal ou, sei lá, discordância sobre os rumos da administração.

Mas é inegável que Jobim fez tudo errado, atuou de modo atabalhoado, um tanto incompreensível mesmo, e vai acabar saindo como uma espécie de vilão da história. Embora suas críticas tenham sido sempre públicas, sem qualquer tom conspiratório, aqui e ali tentam caracterizá-lo como uma espécie de traidor e até “machista”.

Até agora não encontrei ninguém que vislumbre alguma, sei lá como chamar, ambição tática ou estratégica no modo como decidiu agir o ministro da Defesa. Havendo discordância aqui e ali, melhor teria sido, e mais altivo, pedir demissão do que ser demitido. A história até agora não fecha. As conjecturas todas que estão na praça não conferem sentido lógico à narrativa.

Por Reinaldo Azevedo

No Estadão:

Temer é a opção mais forte para substituir Jobim

Se Temer for mesmo efetivado na Defesa, o governo Dilma repetiria sete anos depois a solução adotada por Lula


Apesar de a presidente Dilma ter neste momento uma lista de nomes cotados para substituir na Defesa o ministro Nelson Jobim, o preferido no momento é o do vice, Michel Temer. A solução mais imediata é botar Temer para acumular a função de vice com a de ministro da Defesa. 

Se Temer não aceitar a missão, a tendência é procurar um nome mais técnico. No caso de Temer, sobressai mais a condição de vice-presidente da República do que de ex-presidente do PMDB. Além disso, ele não pode ser demitido porque foi eleito vice na chapa de Dilma.

Se Temer for mesmo efetivado na Defesa, o governo Dilma repetiria sete anos depois a solução adotada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando teve de demitir do ministério o embaixador José Viegas. O vice José Alencar acumulou a Defesa de novembro de 2004 a março de 2006. Depois de Alencar, assumiu Waldir Pires, que teve de comandar a pasta em plena crise do caos aéreo brasileiro. Jobim assumiu em junho de 2007.

A decisão de demitir Nelson Jobim aconteceu depois que Dilma leu a reportagem completa da revista Piauí em que o ministro faz críticas a colegas da esplanada. Dilma pediu para falar com ele por telefone. O ministro está em Tabatinga, no Amazonas, fronteira com a Colômbia. Depois de ouvir as explicações de Jobim, Dilma foi dura e direta ao assunto: "Ou você pede para sair ou saio com você".

Jobim disse à revista que a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvati, é "fraquinha", e que Gleisi Hoffmann, ministra-chefe da Casa Civil, "não conhece Brasília". O ministro da Defesa considerou o governo Dilma "atrapalhado" pela maneira como, dois meses atrás, tratou da Lei de Acesso à Informação, promovendo vários recuos ao se posicionar sobre o sigilo dos documentos ultrassecretos - no final, a presidente optou por manter a proposta da Câmara, contrária ao sigilo eterno e permitindo que documentos ultrassecretos tenham sigilo de 25 anos renovado por apenas mais 25 anos. A outra proposta era favorável a renovar indefinidamente o sigilo.

Dilma ficou irritada com o fato de Jobim ter se encontrado nesta quarta-feira, 3, com ela e, na audiência, não ter falado sobre as críticas às ministras. Antes da audiência, no Planalto, a presidente havia recebido no Palácio da Alvorada, o assessor de Jobim, o ex-deputado e ex-presidente do PT José Genoino. Ele não falou com Dilma sobre a reportagem da Piauí.

No início da noite de quarta, Jobim ligou para Ideli Salvatti, falou da reportagem e disse que as palavras dele estavam "fora de contexto". Ideli foi até a presidente e fez o relato sobre o que ouvira de Jobim.





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O Estado de S. Paulo

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