No Estadão: Quinta-feira negra

Publicado em 05/08/2011 10:14 e atualizado em 05/08/2011 10:44 444 exibições
Como se fosse uma nova quinta-feira negra, os mercados financeiros de todo o mundo viveram ontem um dia de pânico excepcionalmente descontrolado. Nenhum novo desastre havia ocorrido nos países do mundo rico atolados na dívida pública e muito próximos da insolvência.

Tudo se passou como se a percepção do perigo se houvesse aguçado de um dia para outro e todas as bolsas mergulharam, de repente, num salve-se quem puder. De manhã, especuladores correram em busca do ouro, levando a sua cotação ao recorde de US$ 1.684,90 por onça-troy. Horas depois o preço recuou, porque os investidores foram forçados a vender o metal para cobrir margens e enfrentar perdas nos mercados de ações.

Talvez nenhum outro episódio sintetize tão bem quanto esse a experiência de medo e desordem em um único dia. As tentativas do Banco Central Europeu (BCE) de socorrer os bancos e aliviar a pressão sobre alguns países foram insuficientes para restabelecer a calma.

Dois dias antes o mundo havia escapado de um calote do Tesouro americano - mas não do risco de uma nova e penosa retração econômica dos Estados Unidos. Em seguida, a insegurança em relação à economia americana somou-se ao renovado e intensificado temor diante das dificuldades fiscais da Itália e da Espanha, países grandes demais para ser socorridos pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira.

Na manhã desta quinta-feira o BCE e o Banco da Inglaterra anunciaram a manutenção dos juros básicos em 1,5% e 0,5%, respectivamente. Além disso, o Banco da Inglaterra decidiu prosseguir no programa de compra de títulos no valor de £ 200 bilhões. A novidade mais importante foi a nova intervenção do BCE, leiloando empréstimos a instituições financeiras e absorvendo bônus da Irlanda e de Portugal. As intervenções foram inúteis. Ações de bancos caíram em todas as grandes bolsas europeias. Os papéis do Barclays caíram 7,7%. Os do Lloyd"s, 10%. Os do Commerzbank, 6,1%. A lista de perdas foi longa. No fechamento, os índices das bolsas europeias haviam caído entre 3,23% (Milão) e 3,9% (Paris). O Dow Jones, da Bolsa de Nova York, recuou 4,31%.

O pânico estendeu-se aos mercados de commodities, por causa das perspectivas de recessão. Em Nova York, no começo da tarde, os contratos futuros de petróleo eram negociados com queda de 3,99%.

O temor dos investidores era alimentado tanto pelas dificuldades fiscais das grandes economias endividadas - a começar pela americana - como pela sucessão de más notícias sobre o emprego e o consumo nos Estados Unidos e na Europa. Notícias de problemas continuavam chegando também do Japão, onde o governo havia anunciado novas medidas contra a valorização do iene, uma grave ameaça a uma economia muito dependente das exportações. Mas ninguém poderia esperar, depois dos desastres naturais deste ano, uma contribuição japonesa para a recuperação mundial.

Desde a superação da primeira fase da crise, o mundo nunca esteve tão perto de um segundo mergulho na recessão, profetizado mais de uma vez por economistas conhecidos por suas avaliações pessimistas. Até agora essa hipótese foi descartada em todas as projeções divulgadas pelas grandes instituições financeiras multilaterais. Mas os fatores de risco se avolumam e o grau de cooperação entre as grandes potências capitalistas - Estados Unidos, Europa e Japão - é muito mais baixo, neste momento, do que nas primeiras fases da recessão iniciada em 2008.

O mercado brasileiro também foi abalado pela onda de pânico. Nesta quinta-feira, o Ibovespa oscilou durante o dia todo em território muito negativo, com recuo sempre maior que 4%, e acabou caindo 5,72%. Nenhuma outra grande bolsa teve um desempenho tão ruim.

O governo reconhece a gravidade do quadro internacional. O Brasil, segundo as autoridades, está preparado para qualquer novo impacto. Seria preferível um pouco mais de preocupação. O governo terá pouco espaço em suas contas para uma política anticíclica, porque o orçamento está muito comprometido com despesas improdutivas e as pressões inflacionárias ainda são consideráveis. Faltou preparação para enfrentar uma nova fase de turbulência.

Investidores temem que Estado não consiga salvar economia
por Sílvio Guedes Crespo

Resumindo os diversos comentários de analistas publicados em serviços internacionais de informações financeiras, a forte queda nas bolsas de valores do mundo reflete, grosso modo, temores de que Estados  não consiga reanimar a economia, no caso dos EUA, e remover os problemas relacionados às dívidas, no caso de países europeus.

Em outras palavras, investidores temem não poder contar com recursos públicos em quantidade suficiente para acalmar os mercados.

“Nota-se que líderes políticos e presidentes de bancos centrais estão visivelmente preocupados. O problema é: ‘Ainda restam balas no arsenal do governo para ajudar?’ Os investidores percebem que a economia está muito frágil, mas não está claro se os governos são capazes de prover ajuda necessária”, disse um estrategista da BlackRock ao site do “Wall Street Journal”.

Nos EUA, surgiu a especulação de que o banco central imprima mais dinheiro para estimular a economia, um QE3 – “quantitative easing 3”, uma terceira edição do programa de criar dinheiro. “Dado que o QE2 acabou de terminar, seria bom [o Federal Reserve] esperar, porque o impacto de um outro programa desse tipo neste momento é questionável”, afirmou à Bloomberg o Alfred Broaddus, ex-presidente da unidade do Fed em Richmond.

“Temos uma economia fraca [...] e o resto do mundo está começando a implodir em diversas regiões, especialmente na Europa. É natural que as pessoas reajam com medo”, afirmou, ao mesmo site, o presidente da James Advantage Funds.

A agência Bloomberg notou que, em certo momento do dia, o mercado brasileiro de ações era um dos que puxavam uma retração de 4% em um índice global de ações, o MSCI All-Country World Index. Depois, tal índice se recuperou, de modo que o Brasil não foi mais citado.

Derreteu,
por Celso Ming

A pesada intervenção de grandes bancos centrais nos mercados de câmbio disseminou nesta quinta-feira a percepção de que a economia global passa por forte contração e enorme perda de riquezas.

O Banco do Japão (BOJ) iniciou o dia com pesadas compras de dólares (US$ 12,6 bilhões) no mercado, para tentar estancar a valorização do iene.

O Banco Nacional da Suíça já havia começado, na véspera, operação equivalente, para tentar impedir a valorização do franco. O Banco da Inglaterra também avisou que seguiria na operação de recompra de 200 bilhões de libras em títulos da dívida inglesa.

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, criticou asperamente a iniciativa do BOJ, observando que essas intervenções têm de ser coordenadas; não podem ser unilaterais. E, a despeito da posição contrária das autoridades monetárias da Alemanha, avisou que reiniciaria a recompra de títulos de dívida de Portugal e Irlanda, que vêm perdendo preço nos mercados. O BCE já detinha em carteira 78 bilhões de euros em títulos de dívida de países do bloco, especialmente desses dois. Além disso, reabriu leilões de liquidez ilimitada com vencimento em seis meses.

As declarações e as decisões tomadas por Trichet foram recebidas como sinal tanto de que as condições da economia global pioraram muito como, também, de falta de coordenação entre os senhores do mundo. Falta de coordenação talvez seja uma expressão pouco adequada. Os contra-ataques dos grandes bancos centrais à forte valorização de suas moedas passaram a impressão de que a tal guerra cambial, denunciada em setembro de 2010 pelo ministro Guido Mantega, seja agora bem mais descarada.

Foi o que detonou o pânico nos mercados. As cotações das ações despencaram em todas as bolsas (abaixo, no Confira). Paradoxalmente, o dólar, que há cinco semanas era submetido a enorme hemorragia no mercado cambial, valorizou-se nesta quinta 1,7% ante o euro; 0,5% ante o franco suíço; 1,0% ante a libra esterlina; e 1,3% ante o real. Ou seja, de um dia para o outro, o que era ativo anêmico, voltou a ser visto como porto seguro dos aplicadores. Para coroar a intervenção dos bancos centrais, falta saber o que fará o Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Estão abertas as apostas para que seja anunciada mais uma rodada de recompra de títulos do Tesouro dos Estados Unidos, uma terceira operação de afrouxamento quantitativo.

Por trás de tudo, está o entendimento de que a paradeira da economia dos países ricos é mais profunda e será mais prolongada. Estancamento do consumo e da produção (e não necessariamente retração) implica quebra de arrecadação, perda de postos de trabalho e maiores despesas públicas com seguro-desemprego.

É um equívoco afirmar que o Brasil passará incólume por mais esse furacão. A economia está mais sólida, é verdade, conta com quase US$ 350 bilhões em reservas e está bem menos dependente de suprimentos externos de capital. Mas os ataques predatórios tendem a crescer, as receitas com exportações tanto de manufaturados como de commodities podem cair ou subir mais devagar.

Em 2008, o então presidente Lula alardeou que a solidez da economia brasileira rebaixou os vagalhões da crise à condição de mera “marolinha”. Não dá para garantir que esse efeito se repetirá. Mas, depois do turbilhão, o País tende a ficar melhor do que a média do resto do mundo.

CONFIRA


Desmancha no ar. “Tudo o que é sólido se desmancha no ar.” Essa é uma das frases mais lembradas do Manifesto Comunista de 1848, assinado por Marx e Engels. Foi a sensação que os mercados deixaram ao longo desta quinta. A tabela mostra quanto caíram os índices de sete das mais importantes bolsas de valores do mundo apenas nos quatro primeiros dias úteis de agosto.

De olho no Fed. Os mercados esperam agora que o Fed abra novamente sua caixa de ferramentas. Vai ser suficiente?

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Fonte:
O Estado de S. Paulo

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