No Estadão: Europa teme rebaixamento em cadeia

Publicado em 07/08/2011 09:58 573 exibições
Depois dos Estados Unidos, líderes das potências europeias mobilizam-se para impedir contágio;

O rebaixamento da nota dos títulos da dívida dos Estados Unidos pela agência Standard & Poor"s detonou uma descarga elétrica mundo afora. Horas depois do anúncio, líderes das potências europeias começaram a se mobilizar para evitar o contágio. 

Além da Espanha e da Itália, França e Reino Unido, segunda e terceira maiores economias do bloco, tentam evitar rebaixamentos em cadeia - o que agravaria a crise no bloco. 

O governo Obama tentou desqualificar a revisão e, nos bastidores, pressiona a S&P a recuar - até agora sem sucesso. Segundo a Casa Branca, Obama também vai "encorajar" os partidos a se unirem e buscarem uma solução para a crise. 

A China disse que os EUA estão "viciados em dívidas" e pediu garantias para seus ativos no país. A China é a maior credora dos EUA. 

No Brasil, enquanto economistas divergem sobre os efeitos da revisão, fontes do governo começam a falar em novas medidas para reforçar para proteger o País da crise internacional. 

Na Europa, líderes políticos dos principais países participaram ontem de reuniões telefônicas, interrompendo suas férias. Do sul da França, o presidente Nicolas Sarkozy tinha agenda com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e com o primeiro-ministro da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, para discutir a crise na Europa. Silvio Berlusconi teria contatos com o premiê espanhol e com o presidente da União Europeia, Herman Van Rompuy. 

O primeiro ministro britânico, David Cameron, que também trocaria telefonemas com Sarkozy, marcou reuniões com seu ministro do Tesouro, George Osborne, e com autoridades do Bank of England. 

Por outro lado, a antecipação da reunião do G-7 de setembro para agosto, anunciada por Berlusconi, não foi confirmada pela França. O Palácio Eliseu hesita em antecipar a reunião, pois planeja o anúncio de medidas fortes para a economia global. Na avaliação dos líderes europeus, o impasse no projeto de aumento do teto da dívida americana e o consequente rebaixamento dos EUA transformaram a crise das dívidas, antes focada na zona euro em um problema global. 

O receio é que os seis países AAA da zona euro - Alemanha, Holanda, Áustria, Finlândia, Luxemburgo e França -também sejam rebaixados. Para Ciaran O"Hagan, estrategista do banco Société Générale, a decisão da S&P abre as portas para um mundo sem a nota máxima. 

Ontem, o ministro da Economia francês, François Baroin, manifestou apoio a Washington, minimizando o rebaixamento. "A França tem total confiança na solidez e nos fundamentos da economia americana, assim como na determinação do governo de implantar o plano aprovado pelo Congresso", disse. 

Mas o temor na Europa é que a avaliação de S&P leve ao aumento da dificuldade de refinanciamento dos EUA, o que intensificaria as dificuldades da Espanha e da Itália. 

Líderes do G7 concordam em se reunir na 2a-feira

TÓQUIO, 7 DE AGOSTO - O grupo que reúne as sete maiores economias do mundo (G7) concordou em realizar uma teleconferência de emergência reunindo ministros das Finanças e representantes de bancos centrais na segunda-feira, informou a agência Kyodo neste domingo.

Durante a reunião, o ministro das Finanças do Japão, Yoshihiko Noda, deve garantir que o país continuará a adquirir títulos do Tesouro norte-americano, segundo a agência, sem citar fontes.

Os ministros devem discutir medidas para evitar uma maior desordem nos mercados financeiros em meio aos problemas de dívida dos Estados Unidos e da Europa, acrescentou a Kyodo.

Fontes do governo japonês afirmaram que líderes do G7 realizarão uma reunião por telefone na segunda-feira, provavelmente antes da abertura das bolsas asiáticas, para discutir a situação de dívida norte-americana e europeia, devendo emitir um comunicado em seguida.

Terremoto

por Celso Ming

O rebaixamento dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos (conhecidos por treasuries) por uma das mais importantes agências de classificação de risco, a Standard & Poors (S&P), deve agora provocar um terremoto no mercado financeiro global, de consequências nem um pouco previamente mensuráveis.

Este é um acontecimento sem precedentes na história financeira global. O título do Tesouro americano ocupou até agora o posto de referência internacional em excelência de ativo. Não é mais. Um punhado de países (Alemanha, Canadá, Suiça, Holanda, Áustria, etc) terá uma dívida melhor do que a dos Estados Unidos.

A perda do primeiro A no conjunto de três equivale a admitir que passou a haver certo risco de calote da principal economia do mundo. Essa é consequência da insustentabilidade técnica da dívida do Tesouro americano, agora acima de US$ 14,3 trilhões, e da velocidade com que vai crescendo. O que a S&P está dizendo é que a atual equação entre receitas e despesas públicas do governo federal dos Estados Unidos não garante plena capacidade de que a dívida seja honrada.

Se a lei ou disposições estatutárias forem observadas, grande número de instituições não poderá agora manter treasuries rebaixados em carteira. São bancos centrais, fundos de pensão, seguradoras e fundos conservadores. Os treasuries também entram como garantia (colateral) em operações de recompra de outras dívidas. Por essas razões, deveria começar agora uma impressionante desova desses ativos. O problema é que não há com que substituí-los. Isso sugere que todo o mercado deverá agora adequar-se a uma situação nova. Além disso, muitas instituições só começarão essa operação de troca de ativos financeiros se mais de uma agência importante de classificação de risco rebaixar a qualidade do ativo.

De qualquer maneira, o dólar deverá perder valor nos mercados em relação ao ouro e às outras moedas fortes. Sempre que isso acontece, as commodities (especialmente petróleo e alimentos) aumentam de preço, em geral fixado em dólares. Por aí já se antevê forte potencial inflacionário que só poderá ser relativizado se a recessão derrubar a procura.

Uma rejeição em massa dos treasuries deverá aumentar seu rendimento (yield), porque menos dinheiro comprará o mesmo título, que paga juros fixos. Sempre que isso acontece, ficam estabelecidas condições para alta dos juros.

É preciso ver agora como reagirá o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), que recentemente avisou que um rebaixamento da qualidade da dívida americana seria "inadmissível e insustentável". Coincidentemente, terça-feira, reúne-se o Comitê de Política Monetária do Fed, já sob o impacto desse rebaixamento. Ficou mais provável que anuncie nova rodada de recompra de títulos do Tesouro, nos moldes das operações de afrouxamento monetário quantitativo.

Estão agora reforçadas as condições para que mais moeda estrangeira procure refúgio em economias emergentes, entre os quais a do Brasil. Dependendo do volume do desembarque de dólares, novas pressões sobre o câmbio interno devem acontecer. A economia brasileira está em melhores condições para enfrentar o tranco. Mas não se sabe ainda qual será a magnitude das ondas de choque.

O mercado financeiro abrirá amanhã atordoado. Levará bom tempo para absorver e precificar todas as consequências.

CONFIRA

Esforço inútil

Os altos funcionários do Tesouro dos Estados Unidos tentaram de tudo até o início da noite de sexta-feira para convencer os diretores da Standard & Poors de que falta consistência técnica para esse rebaixamento.

S&P Tea Party

É provável que dirigentes e políticos redobrem as críticas às agências de classificação de risco. Foi também o que fizeram há algumas semanas o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi. Vão dizer que a Standard & Poors foi mais fundamentalista do que a facção Tea Party do Partido Republicano.

Elas erraram

As agências foram fortemente criticadas em 2008 e 2009, por ocasião do estouro da bolha das hipotecas, por terem anteriormente atribuído nota máxima a ativos que logo em seguida foram considerados lixo tóxico. Mas desta vez não há como atacá-las. Alguém tem de examinar e atestar a qualidade dos títulos de dívida, sejam eles emitidos por países soberanos (tesouros nacionais) ou por empresas. 


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Fonte:
O Estado de S. Paulo

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