Brasil recebe representantes de 14 países para mostrar produção e qualidade do algodão

Publicado em 27/08/2026 17:00
Cotton Brazil Dialogues recebeu 50 representantes de 14 países em fazendas, algodoeiras e centros de pesquisa; estratégia busca mostrar, na prática, qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade da fibra brasileira

Depois de conquistar a liderança mundial nas exportações de algodão, o Brasil trabalha agora para fortalecer uma segunda frente: fazer com que compradores, indústrias, marcas e varejistas internacionais não apenas comprem, mas conheçam e valorizem a forma como a fibra brasileira é produzida.

É esse, em essência, o objetivo do Cotton Brazil Dialogues, iniciativa que encerrou nesta semana sua edição de 2026 depois de receber 50 representantes de 14 países para uma imersão na cotonicultura brasileira. Os visitantes passaram por fazendas, unidades de beneficiamento, laboratórios e centros de pesquisa em Mato Grosso, Bahia, Goiás e Distrito Federal.

O projeto funciona como uma espécie de “porteira aberta” para o mercado internacional. Em vez de apresentar o algodão brasileiro apenas por meio de reuniões comerciais, feiras e apresentações no exterior, representantes da cadeia têxtil mundial são trazidos ao Brasil para acompanhar o processo produtivo, conversar diretamente com produtores e conhecer os sistemas utilizados para garantir qualidade, sustentabilidade e rastreabilidade.

A iniciativa é liderada pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e pela Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), com apoio da ApexBrasil e participação das associações estaduais de produtores.

De compradores a quem influencia o consumidor

Embora as visitas internacionais à produção brasileira aconteçam desde 2015, em 2026 o projeto ganhou um formato mais abrangente.

Até então, a aproximação era concentrada principalmente nos compradores tradicionais da fibra. Agora, a estratégia passa a alcançar também quem influencia a escolha do algodão utilizado pela indústria e pelas grandes marcas internacionais.

Dos 50 participantes desta edição, 32 eram representantes de indústrias de fiação e outros 18 estavam ligados a marcas, varejistas e organizações não governamentais. As duas rodadas de visitas ocorreram em julho e agosto.

Na prática, a mudança amplia o alcance comercial do projeto. O Brasil passa a conversar não somente com quem efetivamente compra o algodão, mas também com empresas e organizações capazes de estabelecer requisitos de sustentabilidade, rastreabilidade e qualidade e influenciar decisões ao longo de toda a cadeia têxtil.

O gerente do Cotton Brazil, Fernando Rati, destaca justamente o impacto de tirar essas discussões das apresentações comerciais e levá-las para dentro das propriedades.

Segundo ele, os visitantes podem ver a produção, tocar o produto e conversar diretamente com os produtores. É essa experiência presencial, afirma Rati, que ajuda a transformar conhecimento sobre a produção brasileira em confiança no fornecedor.

Estratégia ganha importância com Brasil líder das exportações

A iniciativa acontece em um momento particularmente importante para a cotonicultura nacional.

O Brasil encerrou o ano comercial 2025/26 com recorde de 3,37 milhões de toneladas exportadas, crescimento de 19% em relação ao ciclo anterior, consolidando-se como maior exportador mundial de algodão.

Para o presidente da Abrapa, Gustavo Piccoli, o próximo passo é ampliar o relacionamento com os diferentes segmentos capazes de influenciar as decisões dentro da cadeia têxtil mundial.

“Há mais de uma década, abrimos as portas da produção brasileira de algodão para o mercado internacional”, afirmou Piccoli. Segundo ele, a mudança deste ano amplia o diálogo para marcas, varejistas, compradores, organizações internacionais e pesquisadores, permitindo que esses agentes conheçam diretamente como a fibra é produzida no país.

A estratégia, portanto, vai além de buscar novos compradores. O objetivo é agregar reputação à origem Brasil, associando a fibra nacional a atributos cada vez mais exigidos pela indústria mundial, como qualidade, tecnologia, responsabilidade socioambiental e capacidade de rastrear o produto.

Do campo ao laboratório

Durante as visitas, os estrangeiros puderam acompanhar diferentes etapas da cadeia produtiva.

Em Mato Grosso, por exemplo, representantes da indústria têxtil, marcas e varejistas acompanharam operações de produção e colheita e conheceram propriedades certificadas pelo programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR).

Na Bahia, o grupo passou por unidades de beneficiamento e laboratórios de análise de fibras. Os visitantes conheceram sistemas de classificação por HVI (High Volume Instrument) e mecanismos que permitem acessar informações sobre a fibra por QR Code, demonstrando como a rastreabilidade acompanha o algodão desde a produção até sua comercialização.

Também fizeram parte da programação discussões sobre qualidade, sustentabilidade, tecnologia, inovação e rastreabilidade.

Estrangeiros avaliam produção brasileira

As impressões colhidas entre os participantes também ajudam a mostrar o que o setor pretende alcançar com o projeto.

Bharat Desai, da Arvind Mills, da Índia, destacou os avanços observados na inovação e na qualidade do algodão brasileiro e chamou a atenção para a integração e o compartilhamento de conhecimento encontrados durante a visita.

Já Renska Koster, Cotton Relationship Manager da Textile Exchange, ressaltou a oportunidade de conhecer no campo a aplicação do programa ABR e as práticas ambientais e sociais adotadas pelos produtores. Entre os pontos que chamaram sua atenção esteve a capacidade de produzir algodão de qualidade sob sistema de sequeiro.

Mais que vender algodão, vender a origem Brasil

O Cotton Brazil Dialogues faz parte de uma estratégia mais ampla de promoção internacional.

O Cotton Brazil, lançado em 2020, reúne Abrapa e Anea em parceria com a ApexBrasil e trabalha para ampliar o reconhecimento internacional da fibra brasileira a partir de quatro atributos centrais: qualidade, sustentabilidade, rastreabilidade e tecnologia.

O Dialogues funciona como uma das ferramentas dessa estratégia, aproximando o mercado consumidor da origem da matéria-prima.

E esse movimento ganha relevância justamente porque o Brasil já alcançou uma posição que poucos anos atrás ainda era perseguida: a liderança mundial das exportações.

Com escala e volume conquistados, o desafio passa a ser outro: fazer com que a indústria internacional enxergue o algodão brasileiro não apenas como uma alternativa de fornecimento, mas como uma fibra desejada e especificada por sua origem.

É nesse ponto que levar compradores, marcas, varejistas e organizações internacionais para dentro das lavouras deixa de ser apenas uma ação institucional e passa a funcionar como estratégia comercial para defender e ampliar o espaço do algodão brasileiro no mercado mundial.

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Por:
Aleksander Horta
Fonte:
Abrapa

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