Rombo previdenciário deve chegar a R$ 55 bilhões: o elefante na sala que todos ignoram

Publicado em 15/08/2014 02:34 e atualizado em 27/11/2014 13:38 1265 exibições
por Rodrigo Constantino, de veja.com.br

Rombo previdenciário deve chegar a R$ 55 bilhões: o elefante na sala que todos ignoram

O rombo nas contas da Previdência Social neste ano será cerca de R$ 15 bilhões superior às estimativas oficiais, chegando próximo de R$ 55 bilhões, de acordo com fontes do próprio governo. Na avaliação de técnicos do governo, esse déficit adicional será um dos fatores que devem impedir o cumprimento da meta fiscal de 2014, equivalente a 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB).

A previsão oficial ainda é de um déficit R$ 40,1 bilhões na Previdência, projeção que consta na programação de receitas e despesas do Orçamento. Até agora, o governo não reviu a estimativa. Se tivesse feito isso, teria de promover um corte adicional nas despesas do Orçamento para cumprir a meta. “A projeção está mantida”, afirmou há duas semanas o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin.

Em que mundo essa gente do governo vive? Quando o ministro Garibaldi Alves Filho reconheceu que o rombo seria maior do que o número oficialmente previsto, houve reação por parte da equipe econômica e do Planalto. Mas ele estava certo: os R$ 40 bilhões previstos eram irrealistas, otimistas demais. O rombo ficará entre R$ 50 e R$ 60 bilhões!

Adicionando insulto à injúria, devemos lembrar que o Brasil ainda vive sob o tal “bônus demográfico”, ou seja, temos uma população muito jovem ainda, com uma pirâmide de fato, com base mais gorda do que o topo. A tendência é o Brasil envelhecer em breve, engordando o topo da pirâmide, o que trará consequências enormes para a Previdência Social.

Somos um espelho dos Estados Unidos nessa área: enquanto temos uns 12% de gasto previdenciário em relação ao PIB para apenas 6% de idosos do total da população, eles têm 6% de gasto com aposentadorias para 12% de idosos. Quanto gastaremos quando tivermos 12% de idosos sobre o total? A conta não fecha!

Mas como a bomba-relógio não estoura amanhã, os governantes empurram com a barriga o problema, fingem que ele não existe. Churchill definiu a diferença entre estadista e populista dizendo que aquele se preocupava com as próximas gerações, enquanto este só se preocupa com as próximas eleições. Estamos carentes de estadistas por aqui…

O modelo atual criou inúmeros privilégios, especialmente no setor público, mas o INSS também é um esquema de pirâmide insustentável, sem correlação alguma entre aposentadoria e o que foi efetivamente poupado por cada um. Mas quem fala em contas individuais de capitalização? Ninguém.

A saúde avança, graças às inovações capitalistas, e as pessoas morrem cada vez mais tarde, o que é ótimo. Mas a idade de aposentadoria não se altera. Resumo: o sujeito se aposenta com 60 anos e vive outros 30 anos sem trabalhar. Quem paga?

Como sua poupança não foi investida de fato em ativos rentáveis para lhe garantir um dividendo no futuro, são os novos entrantes na pirâmide que pagam, i.e., os jovens inexperiente e menos produtivos. O fardo fica pesado. Somando a isso todas as “conquistas trabalhistas”, alguém fica espantado com a dificuldade de encontrar bons empregos por parte dos mais jovens?

Há uma guerra entre gerações sendo fomentada no Brasil. O modelo de Previdência Social está no epicentro do problema. Até quando vamos fechar os olhos para o enorme elefante na sala?

Rodrigo Constantino

Filha de Chávez é nomeada embaixadora por Maduro. Em Cuba? Não! Na ONU!

Gabriela Chávez rindo à toa: “socialismo” para otários!

Uma filha do ex-presidente Hugo Chávez foi designada embaixadora da Venezuela na ONU. María Gabriela Chávez, de 33 anos, vai “reforçar o trabalho” do atual embaixador na organização, Samuel Moncada, nas palavras do ministro de Relações Exteriores, Elías Jaua. O chanceler destacou que Gabriela foi encarregada da função “para que os povos da África, Ásia, Oriente Médio, América e todos os povos do mundo continuem escutando a voz profunda e fraterna do comandante”.

Segunda dos quatro filhos de Chávez, Gaby, como é chamada pelos governistas, vai ocupar seu primeiro cargo público, apesar de ser a filha do coronel mais presente nos meios de comunicação, com frequentes participações em atos de governo. Sua irmã Rosa Virgínia, mulher do vice-presidente Jorge Arreaza, é responsável pela Missão Milagre, um dos muitos programas assistencialistas do governo que atende a pessoas com problemas de visão.

O anúncio da nomeação de Gaby foi feito durante um ato em apoio aos palestinos em Caracas, no qual o desgoverno venezuelano não perdeu a chance de voltar a atacar seu inimigo externo, os Estados Unidos, por meio do aliado Israel. 

Talvez Maduro queira apenas se livrar dos herdeiros de Chávez, para não sofrer ameaça de golpe dentro do golpe, pois sabemos como seus familiares continuam gozando de privilégios e circulando perto do poder.

Socialismo – do século 20 ou 21, tanto faz – é assim mesmo: na prática mais parece o feudalismo, e os descendentes do antigo senhor feudal querem seu quinhão no butim. Não abandonam o osso docilmente, pois adquirem forte apego ao luxo e ao poder.

Mas não deixa de ser irônica a escolha do destino. A filha de Chávez nem pensou em ir para Cuba? Talvez Coreia do Norte? Quem sabe Irã, país tão aliado do “papi”, quando o maluco Ahmadinejad comandava o circo? Ainda que fosse a Rússia! Mas não. Ela vai para Nova York, ser embaixadora na ONU. Vai gritar bravatas socialistas desfrutando daquilo que só o capitalismo pode oferecer: conforto material e liberdade de expressão.

Em Nunca antes na diplomacia…, Paulo Roberto de Almeida mostra como o Itamaraty sob o PT, especialmente sob Lula, virou uma máquina de reproduzir a ideologia do líder máximo, servindo justamente aos interesses dessa cúpula “socialista” e hipócrita.

Atacar o Ocidente, a hegemonia do “imperialismo estadunidense” passou a ser prioritário. Chegaram a sabotar deliberadamente o acordo que criaria a Alca. Diz o autor, que é diplomata, sobre isso:

À falta de resultados mais efetivos a partir da atuação desses grupos, a impressão que se tem é a de uma coordenação bizarra para tentar retirar legitimidade ao grupo de potências identificadas com o capitalismo ocidental, ou seja, uma agenda mais de tipo negativo do que positivo. 

Exatamente. Como disse Roberto Campos, “Os comunistas sempre souberam chacoalhar as árvores para apanhar no chão os frutos. O que não sabem é plantá-las…” O ódio é disseminado por essa gente o tempo todo. O que não sabem é construir.

Chávez morreu. Lula ficou milionário. E a filha de Chávez vai curtir as benesses do capitalismo, cuspindo nele com palavras de ordem para enganar os trouxas, os otários que aplaudem o bolivarianismo na América Latina, contribuindo para a disseminação da miséria e da escravidão.

Rodrigo Constantino

A “terceira via” perde seu lado pragmático e fica apenas com o “sonhático”

Após o choque inicial da tragédia que culminou na morte de Eduardo Campos, os sinceros lamentos pelo sofrimento de sua família, e as reflexões acerca da imprevisibilidade do futuro, é hora de pensar sobre o efeito prático disso na política. E o principal, de imediato, é justamente a perda do lado prático na “terceira via” que a campanha de Eduardo Campos com Marina Silva tentava representar.

Em sua coluna de hoje no GLOBO, Carlos Alberto Sardenberg faz um bom resumo da coisa:

O sentido da candidatura também muda. Sim, havia uma aliança, um acordo entre Campos e Marina, mas o candidato era o ex-governador de Pernambuco, com seu perfil: de esquerda e “amigável aos negócios”, como dizem os economistas para os líderes que se propõem a buscar justiça social no quadro do regime capitalista.

O papel de Marina, no essencial, era atrair os votos das pessoas que foram às ruas em junho do ano passado e que, apontavam as pesquisas, não se identificavam com os políticos tradicionais. Ao contrário, manifestavam uma bronca geral com a política. Marina estava fora disso. As pesquisas também indicaram que, entre os políticos conhecidos, era a única aprovada pelos manifestantes.

[...]

Simplificando, para facilitar, se poderia dizer que Campos era o lado “amigável ao mercado”; Marina, o social. Ainda nos meios econômicos, era crescente a admiração pela administração de Campos em Pernambuco, sobretudo pela introdução de métodos de gestão privada inclusive nas áreas de educação e saúde.

Quem acompanha meu blog sabe que critico bastante Marina Silva. Não compro essa imagem de alguém “acima” da política tradicional, sendo ela uma pessoa que ficou no PT por três décadas e considerou o dia de sua saída um dos mais difíceis e tristes de sua vida.

Acredito em sua sinceridade, como na de Campos, quando critica o governo atual, mesmo tendo sido parte do governo anterior, também do PT. Ambos foram ministros de Lula, inclusive. Mas é legítimo mudar de opinião e constatar que o modelo ficou ultrapassado, obsoleto, incapaz de oferecer ao Brasil uma trajetória de progresso.

Só não acho que a chapa Campos/Marina representasse efetivamente essa terceira via, para sair da polarização entre PT/PSDB – e a polarização em si não é um problema, em minha opinião, e sim o fato de nenhum ser liberal. Era, no fundo, algo entre o PT e o PSDB, os três representando cores distintas dentro da esquerda.

O PT com um viés mais intervencionista e autoritário, ligado ao que há de pior em termos mundiais, Campos e Marina tentando encontrar um espaço mais ao centro e com cores ambientalistas, e Aécio Neves falando em nome da social-democracia nos moldes europeus – o que, para padrões brasileiros, soa como “neoliberal”, o que demonstra nosso atraso político.

O casamento político de Campos e Marina era delicado e exótico. Dentro do PSB, muitos não aceitam Marina, e na Rede, vários condenam o PSB. Eram os dois que mantinham, com suas lideranças pessoais, o elo. A “nova forma de fazer política” era mais um slogan e uma meta do que uma realidade. Acredito na boa intenção, mas é muito mais fácil falar do que fazer.

Com a morte de Campos, o PSB poderá rachar, alguns desejando migrar de volta para a coalizão do PT e outros para o lado tucano. O natural parece ser colocar Marina como candidata, até porque ela largaria com mais intenções de voto que o próprio Campos, com chances reais de ir ao segundo turno. O problema é confiar nela se eleita.

Afinal, se Campos era o lado pragmático da dupla, Marina é o lado “sonhático”, mais romântico, idealista, um tanto desprovido de bom senso, principalmente na área econômica. Sim, ela conta com assessores que respeito muito, como Eduardo Giannetti e André Lara Resende. Mas é absolutamente incerto o que faria na gestão econômica, e investidores detestam tanta incerteza.

Marina captura muitos votos da classe média e alta mais idealista e romântica, justamente aqueles que acreditaram no despertar do gigante e que acham que basta “vontade política” para mudar essencialmente o Brasil, de cima para baixo. Ou seja, aqueles que esperam uma espécie de messias salvador – ou salvadora – da Pátria. Um perigo.

Dito isso, espero, para o bem da democracia, que Marina seja a candidata pelo PSB e seus aliados, e que tente, como desejava Campos, elevar o nível do debate político, tentando focar em ideias e programas, não em ataques pessoais. O Brasil precisa disso, mesmo que eu discorde de inúmeras ideias de Marina, banhadas por um ambientalismo que julgo retrógrado e até anti-progresso.

Quem sabe não teremos um segundo turno entre Marina Silva e Aécio Neves, deixando o PT, que empobrece qualquer debate sério, de fora? Deixa eu ser um pouco “sonhático” também…

Rodrigo Constantino

Eduardo Giannetti, ligado à Marina, diz que há “uma forte convergência” entre PSDB e PSB

Eduardo Giannetti. Fonte: Folha

Por Gustavo Porto, para a Broadcast:

O economista Eduardo Gianetti da Fonseca afirmou hoje, durante palestra no 24º Congresso da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), que há “uma forte convergência” entre o PSDB e o PSB para as políticas econômicas necessárias caso derrotem o atual governo nas eleições. “A oposição vai corrigir os equívocos do atual governo, com a volta do tripé macroeconômico, com um movimento inevitável de correção e ajustes aos desequilíbrios”, disse. “A hipotética vitória da oposição será de ajustes duros que restabeleçam confiança”, completou. 

Entre os ajustes, Gianetti defendeu a correção de tarifas públicas, a busca por metas fiscais pautadas pela redução dos gastos do governo e ainda correção no câmbio e até mesmo nos juros no início do governo. “Você limpa horizontes e estabelece cenário de volta à normalidade. E reação da economia sempre ocorre rapidamente, como foi após os ajustes no segundo mandato do (ex-presidente) FHC (Fernando Henrique Cardoso) e com o (ex-presidente) Lula no primeiro mandato”, exemplificou.

Diante dessa convergência de propostas entre PSDB e PSB, Gianetti foi indagado se Marina Silva (PSB), caso seja escolhida candidata do partido após a morte de Eduardo Campos, apoiaria Aécio Neves (PSDB) em um eventual segundo turno contra Dilma Rousseff (PT). Ele evitou dar uma opinião pessoal, mas admitiu: “Marina zela pela sua independência em relação à polarização PT e PSDB com enorme cuidado e dificilmente vai se engajar em um possível segundo turno a uma dessas duas forças políticas”.

Sobre a reeleição de Dilma, Gianetti previu dois cenários para a economia brasileira: uma “curva de aprendizado” e uma temerosa “aposta redobrada”. Na curva de aprendizado o governo assumiria e corrigiria equívocos da condução da política econômica ocorridos de acordo com o economista. “Ainda que envergonhadamente, no segundo mandato haveria a correção paulatina dos graves equívocos. Isso requer humildade e quando eu ouço os economistas que abandonaram o governo, eu fico animado.” 

Já no cenário pessimista, o da aposta redobrada segundo Gianetti, Dilma manteria a condução da política econômica sem mudanças por conta do prestígio concedido a ela em um segundo mandato. “Aí, meus caros, apertem os cintos. Vamos enveredar para uma crise financeira logo no inicio do segundo mandato, porque o mercado financeiro vai perceber rapidamente que o Brasil não se sustenta. Eu realmente temo que essa possibilidade aconteça”, completou.

Na palestra, Gianetti avaliou que o Brasil passa por uma forte e justificada reversão de perspectiva e que mudou de classificação de país em desenvolvimento para país vulnerável. “As condições da economia perderam o brilho e o desempenho e o País, que já foi rebaixado, agora corre o risco de perder o investment grade.”

Para justificar o que chamou de “deterioração da economia brasileira”, Gianetti fez questão de afirmar que falava “com máxima isenção e neutralidade, independente de preferência partidária”, numa referência à ligação dele com a ex-senadora e ainda candidata a vice-presidente Marina Silva. Ele citou um fator externo e dois internos para completar sua avaliação para o desempenho da economia do País.

Segundo Gianetti, houve uma mudança de ambiente externo, com a redução de preços relativos, que favoreciam o comércio brasileiro com os parceiros comerciais, e da liquidez internacional. “A maré baixou e o Brasil foi pego de tanguinha, com extrema fragilidade”, brincou.

Os fatores internos são estruturais e conjunturais. O fator estrutural foi a explosão da carga tributária bruta de 24%, em 1988, para 36,5% agora, com 3,5% do PIB de déficit nominal. “O estado brasileiro drena 40% do nosso trabalho, da nossa renda. Isso se transforma em gasto corrente e não em investimento, que caiu a 2,5% do PIB”, afirmou. 

Além disso, Gianetti diz que há o baixo investimento em Formação Bruta de Capital Fixo, o gasto alto de 12% do PIB em Previdência. “Se não reduzirmos o tamanho da União não vamos sair desse sistema de drenagem”, disse.

Já o fator conjuntural diz respeito à política econômica equivocada iniciada, segundo Gianetti, no segundo mandato de Lula e mantido por Dilma. “Na política monetária cometeu-se o que podemos chamar de barbeiragem. As pessoas têm de acreditar que o centro da meta (de 4,5% de inflação) é para valer e barbeiragem foi o BC dizer que a inflação no teto (de 6,5%) estaria de bom tamanho: o teto virou centro”, disse. “O governo assustou, retrocedeu e segurou tarifas, passa a intervir pesadamente no câmbio”, concluiu.

Rodrigo Constantino

O cisne negro: aprendendo a viver em um mundo complexo e imprevisível

Dando continuidade às reflexões sobre a imprevisibilidade da vida, alimentadas pela trágica morte de Eduardo Campos e toda a mudança que isso gera no cenário político nacional, segue mais um texto antigo, dessa vez com base em ótimo e conhecido livro de Nassim Taleb:

O cisne negro

“Não importa quantos cisnes brancos você veja ao longo da vida; isso nunca lhe dará certeza de que cisnes negros não existem.” (Karl Popper)

Antes da descoberta da Austrália, as pessoas do Velho Mundo estavam convencidas de que todos os cisnes eram brancos, e tal crença era altamente corroborada pela evidência empírica. No entanto, bastou verificar a existência deum cisne negro para derrubar essa crença. Isso ilustra os graves limites de nosso aprendizado por observações.

O livro The Black Swan, de Nassim Taleb, trata justamente desse interessante tema, e é possível notar a forte influência de Popper e de Hayek em sua análise. O livro é uma forma de apelo por maior humildade epistemológica, infelizmente algo em falta na maioria dos homens, que necessitam do conforto de previsões e, portanto, costumam ignorar os limites do nosso conhecimento. É um livro sobre a incerteza, sobre os raros eventos que mudam o rumo das coisas sem aviso prévio e sem que os modelos estatísticos possam antecipá-los.

A idéia central de Taleb está relacionada à cegueira em relação ao fator randômico das diferentes áreas da vida. Cada um pode observar sua própria história de vida para verificar quanto os fatos ocorridos divergiram dos planos traçados anteriormente. A escolha da profissão, o encontro com a futura mulher, as mudanças repentinas do rumo da vida, quanto cada uma dessas coisas havia sido corretamente prevista? A lógica do “cisne negro” torna aquilo que não sabemos algo muito mais relevante do que aquilo que sabemos.

Os “pontos fora da curva” ocorrem com muito mais freqüência do que antecipamos, e nossa incapacidade de prevê-los é nossa incapacidade de prever o curso da história. Basta verificar os erros grosseiros das previsões passadas para se ter mais humildade em relação às previsões do futuro. É preciso deixar um espaço enorme para os eventos imprevisíveis. A maioria das descobertas tecnológicas, por exemplo, não foi planejada, mas sim fruto de “cisnes negros”. O mecanismo de tentativa e erro é crucial para garantir esse avanço. Taleb chega a afirmar que o livre mercado funciona porque permite que as pessoas tenham sorte.

Taleb define aquilo que chama de “tripé da opacidade”, algo que a mente humana sofreria ao entrar em contato com a história. Seriam eles: a ilusão de compreensão, com todos achando que sabem o que se passa num mundo que é bem mais complexo do que percebem; a distorção retrospectiva, que transforma a história mais clara após os fatos, organizando-os de forma bem mais simplista do que a realidade; a sobrevalorização da informação factual, particularmente quando “autoridades” criam categorias, quando idealizam os fatos de maneira platônica.

Tentamos explicar os fatos do passado de forma bem mais simplista do que ocorreram, e tudo parece mais razoável e previsível depois disso. Em retrospecto, chegamos a questionar como outros foram capazes de ignorar o que estava para acontecer. A categorização dos fatos acaba produzindo uma redução de sua verdadeira complexidade. Taleb conclui que nossas mentes são brilhantes máquinas para explicar os fenômenos ocorridos, mas geralmente incapazes de aceitar a idéia da imprevisibilidade acerca do futuro.

O mundo seria dividido, segundo Taleb, entre Mediocristan Extremistan, os nomes que ele criou para explicar realidades diferentes. No primeiro caso, a distribuição normal da famosa curva de Gauss explica razoavelmente os eventos. No segundo caso, os eventos são escaláveis, e os resultados não se encaixam no padrão estatístico dominante. O peso dos indivíduos, por exemplo, faz parte do primeiro mundo. Já a renda deles está na segunda categoria. A profissão de garçom gera determinado salário médio, com certo desvio padrão.

Mas a profissão de escritor produz resultados bem diferentes, com desigualdades monstruosas e disparidades muito distantes daquelas calculadas pela curva normal. As recompensas de uns poucos escritores que chegam ao sucesso são infinitamente maiores do que as da média, e muitos simplesmente não vendem quase nada. O mesmo vale para atores, onde poucos atingem a fama e a fortuna, enquanto muitos fracassam e ficam no total anonimato.

Para Taleb, a sorte exerce um importante papel nesses resultados, mas a mente humana costuma atribuir tudo às habilidades e esforços apenas. O mundo é cada vez mais Extremistan, com as novas tecnologias e a globalização. No entanto, a maioria ainda usa as velhas ferramentas estatísticas do Mediocristan para analisar os fatos.

A observação de fatos passados para a inferência do futuro carrega enormes problemas. Um exemplo muito bom citado por Taleb é a alimentação de um peru desde o seu nascimento até o Dia de Ação de Graças. Supondo que ele recebeu certa quantia de comida a cada dia, por mil dias, o gráfico de seu peso ou tamanho no tempo será praticamente uma reta, com pouca variância. De fato, a confiança em relação ao futuro, com base nos dados passados, aumenta a cada dia, ainda que ele esteja cada vez mais próximo da morte. Algo funcionou por vários dias de forma bastante regular, até que, de repente, ele deixa de funcionar de forma inesperada.

Esse tipo de erro – o uso ingênuo de observações passadas como representativo do futuro – é a causa de nossa incapacidade de compreensão do “cisne negro”. O capitão do Titanic afirmou, em 1907, que jamais estivera envolvido em qualquer acidente, com toda a sua experiência. Até que algo deu errado em 1912, e o navio afundou. Quanto realmente os dados passados podem ser utilizados para prever o futuro?

Nassim Taleb vem do mercado financeiro, e essa é uma área excelente para ensinar sobre imprevisibilidade. Em 1982, os grandes bancos americanos perderam praticamente todo o ganho acumulado anteriormente. Tudo que fora gerado antes, na história desses bancos, perdido em um único ano. Eles haviam emprestado grandes somas para países da América Central e do Sul, e esses países deram o calote na mesma época. Um “evento excepcionalmente raro”, conforme as estatísticas. No entanto, ocorreu.

O crash de 1987 nas bolsas é outro exemplo, ou então a bancarrota do Long Term Capital em 1998, criado por economistas com prêmio Nobel, “gênios” que encaravam as finanças como algo pertencente ao mundo “normal”. Seus complexos modelos estatísticos não foram capazes de prever os fatos, que teriam probabilidade infinitesimal, mas aconteceram. A arrogância desses “cientistas” era enorme. Faltaram justamente mais humildade e ceticismo. Faltou entender que “cisnes negros” existem.

O viés de confirmação é um dos grandes inimigos na compreensão do “cisne negro”. A mente humana busca confirmar teorias através da observação dos fatos. Muitas pessoas confundem, por exemplo, a afirmação verdadeira de que “quase todos os terroristas são muçulmanos” com aquela falsa que diz que “todos os muçulmanos são terroristas”. Na verdade, uma minúscula parcela dos muçulmanos é terrorista, mas a confusão produz uma estimativa absurda de que cada muçulmano em particular pode ser um terrorista. As pessoas vão, então, observar os ataques terroristas, quase todos praticados por muçulmanos, e vão concluir que os muçulmanos são terroristas.

As pessoas tendem a procurar fatos que corroboram com suas teorias prévias, e tratam esses fatos como evidências. A grande contribuição de Popper foi justamente inverter o ônus da prova, tentando refutar as teorias em vez de confirmá-las. A diferença é que milhões de cisnes brancos observados não provam que todos os cisnes são brancos, enquanto basta um único cisne negro para negar isso. Podemos nos aproximar da verdade através da negação de teorias, mas não pela sua verificação. É arriscado demais construir uma teoria geral com base nos fatos observados.

Um exemplo bobo do cotidiano pode ilustrar melhor o ponto. Todos conhecem a máxima “sorte de principiante”, a crença disseminada de que os jogadores costumam ter mais sorte no começo. No fundo, isso não passa de uma ilusão. Aqueles que começam a jogar serão sortudos ou azarentos. No entanto, aqueles com sorte tendem a insistir no jogo, acreditando que vencer é seu destino. Os outros, desanimados com as perdas iniciais, tendem a abandonar o jogo. Eles somem das estatísticas. Aqueles que continuam no jogo lembrarão a sorte inicial. Isso explica a tal “sorte de principiante”, nada mais.

Chamamos isso de viés de sobrevivência, e o mesmo pode ser observado na análise de investidores bem-sucedidos. O cemitério está repleto de evidências silenciosas. No entanto, costumamos olhar apenas para os sobreviventes e inferir teorias que explicam seu sucesso, ignorando a quantidade enorme de pessoas com as mesmas habilidades que fracassaram no caminho. Essa noção está por trás também do insight de Bastiat, quando lembrou que existe aquilo que se vê, e aquilo que não se vê. Várias medidas do governo, por exemplo, são celebradas porque as pessoas focam apenas nos resultados imediatamente observáveis, esquecendo os mortos no caminho, aquilo que não se vê.

O mundo é bem mais complexo do que pensamos ou modelamos. Taleb expressa seu espanto no fato de que continuamos acreditando que somos bons em prever fatos usando ferramentas que excluem os raros eventos, mesmo diante de um histórico terrível de previsões passadas. Aprendemos com a história que não aprendemos muito com a história. Somos arrogantes em relação àquilo que achamos que sabemos, e ignoramos que aquilo que não se sabe pode ser fatal. Costumamos sobrevalorizar o que sabemos e subestimar a incerteza. Deveríamos ser bem mais céticos com os “profetas”, analisando sua taxa passada de erros. Isso serve para quase todos os campos, e há séculos que os “profetas” conquistam multidões dispostas a focar somente nos acertos, ignorando os erros.

Nostradamus ficou famoso dessa forma, assim como atualmente temos a “mãe” Dináh e outros “profetas”. Mesmo os economistas insistem na mania de fazer previsões como se fossem capazes de antecipar os complexos eventos futuros. Ambientalistas usam modelos estatísticos para inferir como será o clima um século na frente. Governos apelam para “especialistas” para desenhar planos econômicos com base em estimativas de décadas à frente. A necessidade humana de controlar ou antecipar o futuro garante o emprego de todos esses “profetas”. Poucos são os céticos que se dão ao trabalho de olhar para trás e verificar a quantidade de previsões erradas de todo tipo de especialista.

As inovações tecnológicas que mudaram o mundo nos últimos séculos foram, em grande parte, não planejadas. Além disso, quando uma nova tecnologia surge, costumamos subestimar ou sobrevalorizar sua importância de forma grosseira. Thomas Watson, o fundador da IBM, chegou a prever que não haveria necessidade para mais do que uns poucos computadores no mundo. Quando o Esperanto foi criado, muitos acharam que o mundo inteiro estaria se comunicando na mesma língua artificialmente desenhada. Diferente do que previram, não estamos passando nossos finais de semana em estações espaciais desde 2000. Quando o homem chegou à Lua, a Pan Am chegou a reservar viagens para lá. Ignorou apenas que estaria falida pouco depois. O Viagra deveria ser uma droga para a hipertensão. Das cem maiores empresas atuais, poucas estarão na lista em 50 anos.

Em suma, são infindáveis exemplos de mudanças relevantes sem previsão alguma, ou de previsões de mudanças incríveis que não se realizaram. O homem tem dificuldade de aceitar esse processo evolutivo como fruto de mudanças randômicas. Ele necessita da sensação de controle, da imagem de um designer inteligente por trás das mudanças, antecipando o futuro. No entanto, a criação de inúmeros produtos foi simplesmente algo não-intencional. Se hoje poucos acreditam na infalibilidade papal, muitos acreditam na infalibilidade dos diferentes “profetas”, especialmente se associados a alguma forma de autoridade, como um prêmio Nobel. O livro de Nassim Taleb é um ótimo antídoto contra essa doença, resgatando a humildade epistemológica presente em alguns pensadores da Antiga Grécia.

O conhecimento humano tem evoluído bastante, e isso é maravilhoso. Mas se o resultado desse maior conhecimento for a arrogância em relação ao futuro incerto, então seremos vítimas indefesas dos “cisnes negros” negativos, e também evitaremos muitos “cisnes negros” positivos. O conhecimento humano pode nos mostrar justamente os limites desse conhecimento, de nossa capacidade de prever o futuro. Como disse Hayek, “a razão humana não pode prever ou deliberadamente moldar seu próprio futuro; seus avanços consistem em descobrir onde esteve errada”. Basta encontrar apenas um cisne negro para derrubar uma crença milenar de que existem somente cisnes brancos!

Rodrigo Constantino

A profecia de Nostradamus: o destino é imprevisível

Com a trágica morte de Eduardo Campos, que altera repentinamente todo o cenário eleitoral brasileiro, vem à mente reflexões sobre o quão imprevisível é a história e o futuro. Há sempre aqueles que tentam abraçar algum tipo de determinismo, de teoria que deixa de fora o acaso, o imponderável. O próprio marxismo caiu nessa tentação, a despeito do uso do termo “científico” ao lado de socialismo.

Resgato, para contribuir com tais reflexões, um texto em que coloco em xeque todos os “profetas”, justamente para reforçar a ideia de que o destino, ninguém conhece!

A profecia de Nostradamus

“O primeiro adivinho, o primeiro profeta foi o primeiro embusteiro que encontrou um imbecil.” (Voltaire)

A mente humana costuma partir em busca de confirmações de suas teorias mais do que em busca de fatos ou argumentos que derrubem essas teorias. Focamos mais nos acertos que nos erros. Faz parte da natureza humana, e é preciso um exercício constante, que exige esforço e atenção, para evitar essa tentação. As teorias conspiratórias, em especial, conquistam ainda mais, e qualquer pseudo-evidência é suficiente para que se tenha convicção dela. Por estas razões é que, na ciência, se busca refutaras hipóteses levantadas, em vez de confirmá-las.

Como diz Karl Popper, “não importa quantos cisnes brancos você veja ao longo da vida; isso nunca lhe dará certeza de que cisnes negros não existem”. Para provar a teoria de que existem apenas cisnes brancos, é necessário buscar cisnes de outras cores, e não confirmar que só conhecemos cisnes brancos. Basta um cisne preto ou de qualquer outra cor para derrubar a teoria toda. Os “profetas” costumam explorar a tendência humana de evitar tal postura, e ainda abusam de linguagem ambígua e vaga, justamente para que os crédulos possam ajustar os fatos às suas profecias.

Nostradamus é um grande exemplo disso. Sua fama de profeta com capacidade premonitória se alastra até os nossos dias, e, no entanto, seu histórico de “acertos” é sofrível. Nostradamus nasceu em 1503, e recebeu licença para praticar a medicina em 1525. Entretanto, parece que ele se sentiu mais inclinado ao ocultismo. A principal fonte de suas inspirações mágicas teria sido um livro intitulado De Mysteriis Egyptorum. Os versos de seu livro Profecias são escritos em estilo tortuoso e obscuro.

Para evitar perseguição, sob a acusação de feitiçaria, Nostradamus alega ter misturado deliberadamente a seqüência cronológica das profecias, de modo que seus segredos não fossem desvelados aos não-iniciados. As roupas transparentes do imperador, não custa lembrar, só podem ser vistas pelos inteligentes. Quem não consegue ver é culpado de burrice. Nostradamus conseguiu fama com extraordinária rapidez pela França e toda a Europa, lembrando que a maior parte da população era analfabeta. As críticas partiam sobretudo dos médicos, que acusavam Nostradamus de estar aviltando sua posição profissional. Não é difícil entender o motivo.

Mas Nostradamus conseguiu coisas que os demais médicos não tinham acesso. Durante os dois últimos anos de sua vida, por exemplo, a proteção real garantiu a Nostradamus uma existência repleta de favores e honrarias. Além disso, Nostradamus conseguiu bons lucros com seus “dons”. Nostradamus teria dito: “Deus imortal e os anjos bons concederam aos profetas o poder da predição”. Mas, curiosamente, sua capacidade de conhecer o passado era bem limitada. Tomando por base os dados da Bíblia, Nostradamus fez cálculos e chegou à conclusão de que o mundo existia desde 4.757 anos antes do nascimento de Cristo.

Quando é para acertar algo que já aconteceu e que temos como checar de forma objetiva, o profeta não passa de um adivinhador qualquer, que erra feio. Quando se trata de presságios, são sempre sombrios, prevendo desgraças, e de forma totalmente vaga, para permitir que as vítimas adaptem o máximo possível os fatos a estas profecias. A natureza humana costuma ser atraída por previsões catastróficas, que mexem com o temor pela morte. O Apocalipse bíblico é prova disso. As projeções de Malthus também. O Armagedon assusta, e por isso conquista.

Se alguém resolver perder algum tempo lendo algumas profecias de Nostradamus com um olhar mais crítico, verá que não dizem absolutamente nada de concreto, que possa ser checado de fato. São previsões totalmente vagas, como esta: “O líder terceiro cometerá atos mais execráveis que Nero. Quanto sangue de pessoas valentes fará correr! Ele reerguerá os fornos do sacrifício. A ‘Era de Ouro’ é uma era de morte. O novo potentado é um escândalo”.

O que isso realmente quer dizer? Vários intérpretes atribuíram esses versos à Revolução Francesa. Alguns acham que ele falava de Hitler. Mas a questão é: ele realmente diz algo objetivo que possa ser julgado honestamente? Claro que não. Podemos forçar um pouco aqui, espremer um pouco ali, e adotando os conceitos que nos interessam, concluir que Nostradamus era um grande profeta, que sabia o que iria ocorrer séculos à frente. Não é mais emocionante? Sem dúvida. Mas não quer dizer que seja mais verdadeiro…

Quase todas as suas “profecias” vão à linha de catástrofes, antecipando guerras, mortes, desgraças e assassinatos. Como se Nostradamus nem vivesse numa época onde tais desgraças eram parte do cotidiano! Minha dúvida é porque ele, com tanto poder, não foi capaz de antecipar coisas realmente inusitadas para a sua época. Já pensou se o “profeta” diz, com todas as letras, que uma inovação tecnológica chamada Internet irá revolucionar o mundo, reduzindo absurdamente a distância entre as pessoas?!

Isso sim seria algo que chamaria a minha atenção. Mas ficar prevendo guerras e assassinatos, de forma totalmente abrangente, até uma criança é capaz. E não faltarão crédulos desesperados para crer, que darão um jeito de filtrar os fatos de forma a encaixar nestas profecias. Nostradamus não foi o primeiro, tampouco o último a explorar essa fraqueza humana. Como Voltaire disse, “o mundo esteve cheio de sibilas e de Nostradamus”. Segundo o filósofo, somente o Corão conta duzentos e vinte e quatro mil profetas!

Ainda hoje, mesmo com todo o avanço do conhecimento humano, que reduziu bastante a ignorância na qual estava mergulhado o mundo de Nostradamus, não são poucos os profetas que fazem previsões fantásticas sem compromisso algum com a realidade. Tem profeta para todo tipo de gosto – e de bolso. Tem aqueles que jogam pedras, viram as cartas, observam a borra do café, lêem as mãos, apelam para a magia, observam os astros, enfim, inúmeras formas diferentes para enganar mais um coitado desesperado por conforto.

Tem inclusive um profeta barbudo dos mais impostores que, alegando utilizar o método científico, adotou o determinismo histórico e antecipou o fim do capitalismo! Este profeta ainda conta com muitos seguidores, totalmente dominados pelas emoções, como sempre acontece quando se trata de profetas. Eles ainda esperam a profecia se realizar, mesmo que ela pareça cada vez mais distante. No fundo, é o desejo de crer na profecia que torna o profeta tão adorado. O que as pessoas desesperadas não fazem em busca de um pouco de fuga da realidade!

Vide o mais famoso escritor brasileiro, chamado pretensamente de “mago”, que chegou a afirmar que a magia era mais útil para prever os acontecimentos econômicos do que os estudos dos especialistas. Nostradamus fez escola. Aqueles que desejam acreditar focam apenas nos raros acertos, ainda que previstos de forma vaga, e ignoram a grande quantidade de erros. Como um bom advogado, o cérebro às vezes vai à busca apenas da confirmação da tese inicial, não da verdade. Mas também como um bom advogado, ele é mais admirável pela sua capacidade de realizar esta tarefa do que por sua virtude.

A verdade é sacrificada pelos interesses imediatos. Enquanto existirem crédulos ingênuos, iremos conviver com profetas. Pelo que podemos presumir, ainda vamos ter que aturar profetas por muito tempo… Eis a profecia que faço!

Rodrigo Constantino

Uma peregrinação pela liberdade em Belo Horizonte

Com o pessoal do IFL, EPL e Ibmec.

Com o pessoal do IFL, EPL e Ibmec.

Conforme avisei aqui, o blog teve menos atividade no começo desta semana, pois estava em um road show pelas universidades de Belo Horizonte para divulgar o V Fórum Liberdade e Democracia, organizado pelo IFL. Passei por seis universidades no total, e em todas tive ótima receptividade.

O auditório da UNA, primeira do road show, estava lotado, com muitos calouros que se mostraram interessados no tema: o cenário econômico do Brasil. Na FUMEC, segunda da lista, o auditório estava apinhado de gente, faltando lugares para atender à demanda.

A provocação do IFL foi o tema do fórum: qual Brasil queremos? Para falar disso, antes é preciso saber qual Brasil temos, olhar para onde escorregamos, não onde caímos. Minha palestra faz um resumo de como chegamos até aqui, nessa situação periclitante de estagflação. Uso metáforas que facilitam a compreensão por parte dos mais leigos em economia, evitando o jargão da área.

Conto a fábula de uma cigarra que ganhou na loteria e pensou que o verão duraria para sempre. A loteria tem dois pilares externos – crescimento chinês e custo de capital negativo em termos reais nos países desenvolvidos – e dois internos – tripé macroeconômico como herança benigna de FHC e bônus demográfico.

Mas como nenhuma reforma estrutural foi feita nos últimos anos que reduzisse o “Custo Brasil” e melhorasse nossa produtividade, a euforia era infundada, tudo não passou de voo de galinha, uma prosperidade ilusória artificialmente produzida. O inverno chegou, trazendo consigo a estagflação.

Fora isso, o intervencionismo estatal em setores importantes, o planejamento central arrogante, os malabarismos contábeis e truques rudimentares do governo para enganar os investidores, o abandono do tripé macroeconômico, tudo isso levou a uma enorme perda de credibilidade e recuo dos investimentos, além de ter desorganizado a economia toda.

Chegamos a uma encruzilhada: insistir nos mesmos equívocos, dobrar a aposta, pode ser caminhar rumo ao modelo argentino, totalmente fracassado. É preciso mudar. É preciso reverter vários erros, aprovar reformas, soltar amarras estatais e dar mais liberdade ao mercado. Tanto Aécio Neves como Eduardo Campos adotaram mensagem similar.

Fiquei surpreso com a aceitação e compreensão dessa mensagem por parte da imensa maioria das centenas de pessoas que escutaram as palestras. E não falo do público do Ibmec apenas, mas da UFMG também, e do pessoal de odontologia da FAED, que se mostrou ligado ao cenário político-econômico e fez várias perguntas interessantes.

O que não vi foi gente defendendo o governo Dilma. Os petistas sumiram! Dois participantes na Milton Campos tentaram defender especificamente as cotas raciais do governo. Mas rebati seus argumentos, mostrando que não se combate uma injustiça histórica com outra injustiça, e que o governo deveria investir em educação básica de boa qualidade para brancos e negros, em vez de segregar a população miscigenada brasileira em raças.

Acusaram-me de “radical”, logo depois de eu reclamar da falta de debate sério no país, substituído por rótulos e slogans em monólogos repetitivos, nos quais a intenção do adversário é colocada em xeque. O monopólio dos fins nobres por parte da esquerda foi algo que condenei em todas as palestras, reforçando justamente a necessidade de iniciativas como a do IFL, de promover um debate verdadeiro com as diferentes matizes ideológicas.

Enfim, a peregrinação mineira me encheu de esperanças. Os jovens querem mudanças, e estão abertos ao diálogo, aos argumentos liberais. Mostraram-se preocupados com os destinos do país, e perceberam que, se continuarmos na mesma toada bolivariana, faltarão logo empregos. São esses jovens que pagarão o alto preço dos infindáveis equívocos do governo Dilma…

PS: Soube da trágica morte de Eduardo Campos durante o road show, antes da última palestra na federal. Postei o seguinte comentário em minha página de Facebook:

Lamento profundamente a morte de Eduardo Campos e demais. Primeiro, pela tragédia familiar, com a perda de um pai de cinco filhos. Segundo, pois mesmo com várias divergênciaa ideológicas, reconheço nele alguém que tentou elevar o nível do debate político no país. A democracia sai empobrecida. Muito triste…

Rodrigo Constantino

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Blog Rodrigo Constantino (VEJA)

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