"Bolsonaro não vai desidratar até a eleição", diz Rodrigo Constantino (Saiba quais são as 3 prioridades)

Publicado em 02/07/2018 17:35 e atualizado em 03/07/2018 19:26
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na Gazeta do Povo

Estive no Brasil nas últimas semanas, rodando por São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Nesse não pisava há mais de ano. A deterioração é visível, especialmente do espírito. O clima é o pior possível. Com todos que conversei, desde motoristas e cabeleireiros até grandes empresários, a sensação é de derrota, cansaço e desesperança. Se pudesse, a maioria se mudava ontem.

As três prioridades identificadas são: segurança, emprego e resgate de valores morais. Ninguém aguenta mais ser refém dos bandidos, mas como não é possível se enclausurar e deixar de viver, as pessoas se adaptam, ainda que com medo. No dia em que fui embora, três senhoras foram assaltadas por um motoqueiro e seu cúmplice. Basta ver uma moto com alguém na garupa para sentir calafrios. Isso não é normal, mas o carioca se esquece.

Já a economia é o básico: a condição de vida está ruim para todos, com 13 milhões mergulhados no desemprego. Motoristas de Uber têm rodado mais tempo para compensar, e muitos sequer conseguem pagar as contas. Diversos reclamaram que a situação vem piorando. Dois me disseram que pretendem arriscar uma ida para Portugal ou Estados Unidos.

A corrupção generalizada e a degradação de valores morais também jogam lenha na fogueira da revolta. A turma não aguenta mais os políticos do establishment e a mídia “progressista”, que distorce a realidade e ignora as demandas do povo em troca de pautas sem sentido, produzidas por figuras estranhas que querem “lacrar” nas redes sociais. O anseio por algum “outsider” durão que confronte “isso tudo que está aí” e coloque ordem na bagunça vem crescendo.

Em palestras para empresários, não foi difícil identificar o pavor que produz a ideia de um retorno da esquerda radical, por meio de Ciro Gomes ou do PT. Esse pânico, totalmente legítimo, e a fragmentação de um “centrão” que não decola, tem feito muita gente esclarecida flertar com a candidatura de Jair Bolsonaro, como uma alternativa menos pior.

Quando lembram que o liberal Paulo Guedes poderá ser seu ministro da Fazenda, os riscos são mitigados pelo selo de qualidade, ainda que o candidato seja o capitão, não o economista. Mas o desespero tem feito com que o desejo por mudança fale mais alto do que qualquer cautela. Basta andar pelo País para entender como a “análise” de que Bolsonaro vai desidratar não passa de pura torcida. O fenômeno é real e bastante significativo, pois ele já se tornou um símbolo de uma reação a esse caos todo, não importa se com ou sem fundamento.

Por fim, retornei para minha casa na Flórida. Passei pela imigração com toda a documentação em dia. O Trump “malvadão” não me separou dos meus filhos. Os brasileiros esquecem que em países sérios os crimes costumam ser punidos. Por isso são sérios…

Artigo originalmente publicado pela revista IstoÉ

 

Paulo Guedes diz que não há mal estar com Bolsonaro. “Há franqueza” (O Antagonista)

Paulo Guedes afirmou ao Valor que não ruídos entre ele e Jair Bolsonaro:

Eu diria que a característica da nossa conversa é a franqueza absoluta. Ele é uma pessoa muito franca. Eu também. Então em vários momentos ele vira e fala: ‘Paulo, pode ser até que isso aí seja importante, mas tem de ver se o Congresso aprova’.

É interessante, porque vocês podem ter a leitura construtiva ou a ruim. A construtiva é: estão com medo de um democrata? O sujeito diz: ‘Será que o Congresso aprova?’. Ou a negativa, que diz: ‘Ei, vocês estão se desentendendo’. Eu, economista, tenho um diagnóstico. Acho que as reformas têm que vir.

Ele está cada vez mais se informando da urgência dessa agenda. Previdência, tributária, reforma fiscal. E tem, realmente, considerações de de parte a parte. ‘Olha, não é do jeito que economista imagina, mundo ideal de fazer tudo; tem o Congresso’. Eu falo: ‘Claro, claro. Mas também não é do jeito que o político imagina, que vai continuar postergando ajustes inadiáveis’.

Não houve mal estar. Há franqueza.”

A ver.

CARTA DE JOÃO ROBERTO MARINHO A JORNALISTAS DO GLOBO ATACA SINTOMAS, NÃO CAUSAS DA IMAGEM DO VIÉS IDEOLÓGICO DO GRUPO

O jornal O GLOBO divulgou hoje uma carta do seu presidente João Roberto Marinho aos jornalistas da empresa, assim como as diretrizes do grupo que já tinham sido publicadas antes. Abrindo com um “companheiras e companheiros”, a carta tenta lembrar dos princípios de isenção do jornalismo, e que o próprio jornal adota como meta importante. Ele cita exemplos internacionais, como o NYT e a BBC, e reforça a ideia de que o jornalismo traz bônus mas também ônus:

Nós, jornalistas, como todos os cidadãos, podemos fazer parte delas seja do ponto de vista pessoal ou profissional. Podemos compartilhar impressões, sentimentos, fatos do nosso dia a dia, assim como utilizá-las para fazer fontes, garimpar notícias, descobrir tendências. Não é novidade para nenhum de nós, no entanto, que o jornalismo traz bônus e ônus.

O bônus é o prazer de exercer uma atividade fascinante cujo objetivo último é informar o público, para que possa escolher melhor como quer viver, como fazer livremente escolhas, uma atividade que nós, sem modéstia, consideramos absolutamente nobre. O ônus é justamente aquele que nos impomos para poder fazer um bom jornalismo: em resumo, tentar ao máximo nos despir de tudo aquilo que possa pôr em dúvida a nossa isenção.

[…]

As redes sociais nos impõem também algumas restrições. Diferentemente das outras pessoas, sabemos que não podemos atuar nelas desconsiderando o fato de que somos jornalistas e de que precisamos agir de tal modo que nossa isenção não seja questionada. Já no lançamento dos Princípios Editoriais, previmos isso quando estabelecemos o seguinte: “A participação de jornalistas do Grupo Globo em plataformas da internet como blogs pessoais, redes sociais e sites colaborativos deve levar em conta três pressupostos: (…) 3- os jornalistas são em grande medida responsáveis pela imagem dos veículos para os quais trabalham e devem levar isso em conta em suas atividades públicas, evitando tudo aquilo que possa comprometer a percepção de que exercem a profissão com isenção e correção.”

[…]

Essas recomendações sobre como devemos nos comportar nas redes não têm nada de idiossincrático ou exclusivo. Na verdade, estão rigorosamente em linha com o que praticam os mais prestigiados veículos jornalísticos do mundo, como “The New York Times” e BBC, para citar apenas dois de dezenas de exemplos.

Antes de comentar, gostaria de dizer ao meu leitor que já estive com João algumas vezes, uma delas por algumas horas num almoço na sede do jornal, somente nós dois. Tenho as melhores impressões dele como pessoa, e acredito em sua honesta busca pelo que acredita ser o bom jornalismo. Também sou grato pelo espaço que seu jornal me concedeu por seis anos, o que certamente me ajudou a ter o destaque que tenho hoje.

Dito isso, vamos ao problema que vejo em sua mensagem: ela expõe mais os sintomas do que as causas da percepção desse viés ideológico que ele condena. Não é por acaso que, a despeito das diretrizes já publicadas, o presidente do Conselho Editorial do grupo se viu na necessidade de publicar nova carta, reforçando o apelo aos seus jornalistas. É que muitos deles têm usado as redes sociais para dar opiniões pessoais, e isso desnudou o manto de isenção, expondo o escancarado viés “progressista”.

Não há mal, a princípio, em ter um viés de esquerda. O problema começa quando se tenta ocultar isso. Eu uso minhas redes sociais, e mesmo meu espaço na imprensa, para divulgar minhas opiniões, e todos sabem que sou um liberal com viés conservador. Não sou isento, portanto. Tenho uma visão de mundo, como todos. O jornalista, porém, deve tentar deixar a sua de lado na hora de fazer uma reportagem, cobrir alguma notícia. Mais fácil falar do que fazer, porém.

Repito: acredito na sinceridade de João ao desejar essa imparcialidade, e acho que ele realmente não se dá conta de que existe um claro viés esquerdista na linha editorial e nas reportagens. O Brasil viveu por muitas décadas sob a hegemonia da esquerda na cultura e na mídia, uma esquerda radical, que chamava o PSDB de “direita”. Os responsáveis pelo jornal, portanto, adotam uma postura bastante tucana, com viés social-democrata “progressista”, e pensam que isso significa “neutralidade” de fato. Foram justamente as redes sociais que mostraram que não é bem assim.

O melhor exemplo está nos dois casos citados por João na carta: NYT e BBC, ou seja, dois veículos de comunicação claramente à esquerda no espectro ideológico. O NYT não é imparcial nem aqui, nem na China. Mas reconheço que, para muitos da “velha guarda”, ele assim seja percebido. Foram décadas batendo na tecla de que se trata de um jornalzão sério e sem qualquer inclinação ideológica ou partidária, crença ingênua que foi definitivamente enterrada na campanha eleitoral que levou Trump ao poder.

A cultura brasileira tem muito de esteta, ou seja, dá um baita valor ao que aparenta, não necessariamente ao que é. Na carta de João, fica clara a preocupação em não parecer enviesado, daí a importância de o jornalista não expor suas opiniões nas redes sociais. Mas isso é o sintoma, como disse, não a causa. As redes sociais serviram apenas para tornar mais transparente um viés que existe de fato, e ficou visível nos comentários desses jornalistas. Já era, para bom observador, perceptível nas chamadas, na forma de dar a notícia, nos olhares ou expressões. Mas a certeza absoluta veio só com a exposição deles nas redes sociais.

Quando uma Leilane Neubarth comemora a legislação pró-aborto na Argentina, por exemplo, não dá mais para fingir que ela busca isenção ao falar sobre o tema. Quando Guga Chacra detona Trump com rótulos depreciativos, fica evidente que faz torcida, não análise. E os exemplos se multiplicam por dezenas, quiçá centenas. Quase todos demonstram inclinação à esquerda e são incapazes de esconder esse viés.

O pai de João, o saudoso Roberto Marinho, costumava dizer aos militares que “dos meus comunistas cuido eu”. Ou seja, ele estava ciente da quantidade de comunistas em sua organização, mas mantinha uma mão firme para que a coisa não saísse de controle. Desde então, lamento dizer, a guinada do jornal à esquerda foi espantosa, a ponto de muitos o confundirem atualmente com um jornal do PSOL. Penso que os tais comunistas saíram do controle e assumiram o poder de fato, criando inclusive feudos de nepotismo lá dentro.

Chegamos então a essa perda de credibilidade, graças às redes sociais, e por isso a reação de João Roberto Marinho com essa carta pública. Ele está preocupado, com toda razão, com a imagem do grupo, com o princípio básico do jornalismo, que é buscar a imparcialidade. Mas, se posso dar um palpite com a melhor das intenções, o empresário e jornalista erra o alvo, pois está culpando o termômetro pela febre.

Enquanto os editoriais e reportagens pregarem, sem muito esforço de ocultar sua preferência, causas como o aborto, a legalização das drogas, o desarmamento, a ideologia de gênero etc, o veículo será considerado de esquerda e “progressista” por aqueles que, agora, possuem as redes sociais para compreender melhor as divergências ideológicas entre esquerda e direita.

Enquanto documentários enaltecerem Cuba ou Che Guevara, será impossível bancar o imparcial. Enquanto William Waack, um dos melhores jornalistas do país, for demitido por uma piada boba que vazou de forma suspeita, mas Chico Pinheiro permanecer mesmo com áudio elogiando Lula, não será viável posar de isento. Enquanto um brilhante Guilherme Fiuza for demitido enquanto um ultra-esquerdista como Bernardo Mello Franco for contratado, como se dizer imparcial? Nem é preciso os jornalistas tornarem público seu próprio viés nas redes sociais. O leitor não é cego.

Portanto, creio que faria mais sentido, se o objetivo é resgatar a percepção de jornal isento, o grupo realmente contratar mais jornalistas liberais e conservadores, e reduzir a enorme superioridade numérica atual dos esquerdistas. Foi o que fez, por exemplo, esta Gazeta do Povo, que ainda tem jornalistas e colunistas de esquerda, mas deu um espaço enorme aos liberais e conservadores, valorizando nas ações – não só nas palavras – a desejada pluralidade de um jornal.

Se isso estiver fora do alcance ou do desejo do comando do GLOBO, que assuma de vez ter um viés “progressista”, o que não é pecado algum, mas sim um direito de qualquer jornal de propriedade privada. Garanto que terá mais respeito daquele leitor inteligente que sabe desse viés, mesmo sem os jornalistas emitirem suas opiniões pessoais nas redes sociais. Ou alguém acha mesmo que a “canonização” da vereadora socialista Marielle Franco, do PSOL, combina com uma postura de busca pela isenção?

Rodrigo Constantino

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Fonte: Gazeta do Povo/O Antagonista

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