Apesar da redução das tarifas americanas, impacto para a carne bovina brasileira deve ser limitado e não deve impulsionar exportações no curto prazo
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A redução de 50% para 40% na tarifa aplicada pelos Estados Unidos à carne bovina brasileira trouxe algum alívio ao mercado, mas o efeito prático deve ser limitado. Apesar do corte de 10 pontos percentuais trazer um ânimo ao mercado, o Brasil continua pouco competitivo diante de concorrentes como Austrália, Uruguai e Argentina. Para analistas, a medida não é suficiente para impulsionar de forma relevante as exportações ao mercado norte-americano.
Publicada na última sexta-feira (14), a ordem executiva do presidente Donald Trump marcou o primeiro recuo tarifário desde o acirramento das disputas comerciais com o Brasil. Antes das tarifas, os EUA eram o segundo maior destino da carne bovina brasileira, com 156 mil toneladas importadas e participação de 12,2% nas exportações totais do país. No mesmo período, a China respondeu por 49,1% dos embarques.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) considera muito positiva a decisão dos Estados Unidos de reduzir as tarifas aplicadas à carne bovina brasileira. A medida reforça a confiança no diálogo técnico entre os dois países e reconhece a importância da carne do Brasil, marcada pela qualidade, pela regularidade e pela contribuição para a segurança alimentar mundial. “A redução tarifária devolve previsibilidade ao setor e cria condições mais adequadas para o bom funcionamento do comércio”, destacou em nota oficial.
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Apesar de representar um gesto diplomático importante, a redução na tarifa aplicada pelos Estados Unidos à carne bovina brasileira ainda está longe de garantir uma retomada robusta das exportações. A avaliação é de Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado, que considera o impacto da medida positivo, porém insuficiente para recolocar o Brasil em posição de plena competitividade no mercado norte-americano.
Iglesias lembra que, mesmo após a redução, o Brasil ainda enfrenta desvantagem significativa frente a outros grandes fornecedores, como Austrália, Uruguai, Argentina e Nova Zelândia, que seguem com acesso mais favorável ao mercado dos EUA.
“Com a tarifa em 40%, continuamos menos competitivos do que esses países. Ainda não é um mercado que o Brasil consiga acessar ativamente. Precisamos ver como as negociações comerciais vão avançar e qual será o nível final dessas tarifas”, explica.
Felipe Fabbri, analista da Scot Consultoria, também ressalta que o corte é positivo, porém insuficiente para melhorar de forma significativa a competitividade do Brasil no mercado norte-americano.
Segundo Fabbri, a leitura do mercado tende a ser imediata: “Para quem olhar apenas a manchete, a expectativa é de alta na B3 e, de fato, isso deve ocorrer”. O analista afirma que o noticiário deve estimular um movimento especulativo ao longo dos próximos dias, sustentando os preços tanto no mercado futuro quanto no físico.
De acordo com a análise do João Bosco Bittencourt Júnior, Aliá Investimentos, o mercado também está acompanhando as informações da China, que podem trazer informações sobre as salvaguardas.
Fabbri observa desaceleração esperada das compras chinesas, embora ainda em volumes elevados; a possibilidade de Pequim adotar medidas protecionistas; e uma tendência de melhora no consumo doméstico na virada do ano. Segundo ele, esses três fundamentos combinados tendem a reforçar a firmeza do mercado, e os Estados Unidos entram apenas como um elemento adicional de sustentação.
Os contratos futuros foram marcados por fortes volatilidades nas últimas duas semanas, quando rumores e notícias causaram oscilações, mas o mercado físico demonstrou maior resiliência e menor sensibilidade aos solavancos de curto prazo.
Especialistas afirmam que esse comportamento deve promover um ajuste natural na curva futura. Com a demanda mais firme e maior previsibilidade nas negociações à vista, a expectativa é de que o mercado como um todo entre em uma fase de oscilações mais moderadas.
“O que eu acredito que deve acontecer agora é um mercado mais estável, com oscilações menores e um comportamento menos volátil. A tendência é que os preços passem a oscilar menos e que a arroba apresente alguma valorização ao longo das próximas semanas. Devemos ver esse incremento até dezembro. É aquela velha história: os preços da arroba descem de elevador e sobem de escada”, destacou Bittencourt.
Os contratos futuros na Bolsa Brasileira operam na faixa de R$ 317,00 a R$ 325,00, mas a projeção é de que a arroba encerre o ano próxima de R$ 340,00/@, sustentada por um mercado físico mais firme e por um ambiente externo menos pressionado.
Apesar da perspectiva de alta, Fabbri afasta a possibilidade de um salto expressivo nos preços. Ele projeta que a arroba alcance entre R$ 335 e R$ 340 no ponto máximo de 2025, dependendo do comportamento da demanda interna e das exportações. “A redução tarifária aumenta a especulação, mas não muda a margem da indústria de forma significativa. Por isso, não vemos espaço para explosão de preços nem para a B3 romper as máximas anteriores”, diz, lembrando que o contrato de novembro chegou a operar próximo de R$ 333 no final de outubro e início de novembro.
O analista afirma que apenas a retirada completa da tarifa poderia alterar o quadro de forma decisiva, estimulando compras mais agressivas pelos frigoríficos exportadores e garantindo sustentação mais forte às cotações. “Com tarifa zerada, o cenário seria muito mais favorável para quem vende boi para os Estados Unidos. Mas não é o caso neste momento”, conclui.
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