El Niño e seus possíveis impactos na produção mundial de café
*Por Fernando Maximiliano
Após a ocorrência do fenômeno climático La Niña por três anos consecutivos, o que impactou o clima e, consequentemente, a produção de café em vários países, os dados da agência americana NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) tem apontado para uma condição neutra no segundo trimestre de 2023, mas com a possibilidade da ocorrência do El Niño a partir do terceiro trimestre do ano.
De acordo com a previsão divulgada pelo NOAA, existe uma probabilidade acima de 80% da ocorrência do fenômeno a partir do trimestre Junho-Julho-Agosto (JJA), com os modelos preditivos indicando que o fenômeno deverá ser de intensidade moderada.
Tendo em vista as mudanças climáticas causadas pela chegada do El Niño, este estudo tem o objetivo de apresentar os possíveis impactos na produção de café nos principais produtores mundiais da commodity.
Previsão probabilística de El Niño e La Niña e projeção de variação da temperatura de superfície do Oceano Pacífico (°C)
BRASIL
Historicamente, o fenômeno climático traz chuvas para o sul do país, o que potencialmente cobriria regiões sul do cinturão de café e um clima mais quente para parte do cinturão cafeeiro no sudeste e nordeste brasileiro. Com as frentes frias bloqueadas no sul do Brasil, as ondas de frio não podem ir para o sudeste, promovendo temperaturas acima do normal nos cafezais em partes da região sudeste. Algumas ondas podem mover-se em partes para o norte do Sul do Brasil e em regiões de São Paulo. No entanto, em geral, o risco de geada é baixo.
O El Niño ocorreu pela última vez entre os anos de 2014 e 2016, com o fenômeno atingindo intensidade forte em 2015 e no início de 2016. Naquela ocasião, a ocorrência do fenômeno provocou uma seca intensa nas regiões produtoras de café robusta, no Espírito Santo e extremo Sul da Bahia. Como resultado, a produção brasileira para o tipo caiu de 17 milhões de sacas em 2014/15 para 13,3 milhões em 2015/16 (-21,8%) e para 10,5 milhões em 2016/17 (-21,1%). Desta maneira, entre 2014 e 2016, a produção brasileira de robusta teve uma redução de 38,2%.
Caso o fenômeno se confirme, os impactos sobre as regiões produtoras de robusta poderiam ser diferentes, tendo em vista que houve um grande investimento em reservatórios hídricos e em sistemas de irrigação mais eficientes após a forte seca de 2016. Além disso, até o momento, a média dos modelos tem apontado para uma intensidade moderada, menor que o observado naquela ocasião.
Para a produção de café arábica, a chegada do El Niño pode atuar de forma favorável à produção da espécie, já que o fenômeno não está associado ao atraso das chuvas no cinturão cafeeiro, como ocorreu com La Niña. Desta forma, existe a expectativa do retorno adequado das chuvas durante o segundo semestre do ano.
SUDOESTE ASIÁTICO
A região do sudeste asiático tem grande importância na oferta mundial de café robusta, já que lá estão localizados dois grandes países produtores, o Vietnã e a Indonésia. De forma geral, a região do sudeste asiático sofre com um clima predominantemente seco quando o El Niño ocorre entre os meses de junho a agosto, e de um clima seco e quente quando ocorre entre dezembro e fevereiro.
No caso do Vietnã, apesar de não ter uma correlação tão expressiva com os dados de produção, a ocorrência do El Niño, principalmente de intensidade forte, pode ter um impacto negativo na produção. Considerando os modelos probabilísticos, que indicam uma maior chance de ocorrência do fenômeno a partir do trimestre JJA (junho-julho-agosto), o El Niño ocorreria durante o período crítico de desenvolvimento dos frutos no país.
Na Indonésia, considerando os dados históricos, não houve correlação entre a produção de café robusta e a variação da temperatura no oceano pacífico.
COLÔMBIA, MÉXICO E AMÉRICA CENTRAL
Se para alguns países, a possibilidade da chegada de um clima seco, provocado pelo El Niño, pode ser um ponto de alerta com relação a produção, para a América Central e, principalmente, para a Colômbia, a perspectiva de um clima mais seco traz um otimismo com relação a produção de café. Desde o segundo semestre de 2020, a ocorrência do La Niña trouxe volumes excessivos de chuva para os países da América Central e Colômbia, o que impactou negativamente a produção de café por lá.
No caso da Colômbia, o volume de chuva e a cobertura excessiva de nuvens reduziu o balanço energético disponível para as lavouras, sem contar os problemas logísticos e estruturais causados pelas chuvas torrenciais. A produção colombiana totalizou 14,1 milhões de sacas em 2019/20, mas recuou para 13,4 milhões (-5%) em 2020/21 e para 11,8 milhões (-11,9%) em 2021/22, de acordo com os dados do USDA. Portanto, a princípio, a ocorrência do El Niño tende a beneficiar a produção colombiana de café.
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