Café regenerativo avança no Brasil, atrai multinacionais e pode elevar renda no campo
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A cafeicultura regenerativa começa a sair do campo experimental e ganhar escala comercial, impulsionada por demanda internacional, metas ambientais de grandes companhias e estudos que apontam ganhos econômicos relevantes. No Brasil, projetos já em andamento indicam que o modelo pode reposicionar o país como fornecedor estratégico de café com valor agregado.
Levantamento conduzido pela TechnoServe, organização internacional que atua no desenvolvimento de cadeias agrícolas, em parceria com empresas como Nestlé e JDE Peet’s, analisou países responsáveis por cerca de 70% da produção mundial de café. Segundo o estudo, a adoção de práticas regenerativas pode elevar a renda dos produtores em até 62%, dependendo do nível de implementação e das condições locais.
O mesmo levantamento aponta que, em cenários analisados, é possível reduzir em até 46% as emissões de gases de efeito estufa na produção de café, além de potencialmente ampliar as exportações em até 30%. Para que essa transição ocorra em larga escala, a TechnoServe estima a necessidade de investimentos na ordem de 560 milhões de dólares por ano ao longo de sete anos.
As práticas regenerativas incluem o uso de cobertura vegetal, redução de insumos químicos, adoção de bioinsumos e integração de árvores ao sistema produtivo. Revisões científicas internacionais, que reúnem centenas de estudos sobre agricultura regenerativa, apontam benefícios consistentes na melhoria da saúde do solo, retenção de água e aumento da biodiversidade, fatores diretamente ligados à resiliência das lavouras diante das mudanças climáticas.
No Brasil, a Região do Cerrado Mineiro desponta como uma das principais referências na adoção dessas práticas. A região responde por cerca de 12,7% da produção nacional de café e já conta com aproximadamente 30 mil hectares conduzidos sob critérios regenerativos, segundo dados da própria entidade que representa os produtores locais. O café produzido na região é exportado para mais de 30 países.
A inserção no mercado internacional também começa a ganhar tração. Parcerias comerciais com empresas como a illy já viabilizam a venda de cafés com atributos regenerativos, voltados principalmente para nichos de maior valor agregado e consumidores mais exigentes em critérios ambientais.
No campo, cooperativas brasileiras avançam na implementação do modelo. A Cooxupé desenvolve projetos que incluem a formação de corredores ecológicos, o plantio de árvores nas lavouras e o uso de bioinsumos. De acordo com dados divulgados pela cooperativa, as áreas em transição têm apresentado redução no uso de defensivos, menor necessidade de irrigação e melhora na qualidade dos grãos.
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Além da produção, novas fontes de receita começam a surgir. Projetos ligados à geração de créditos de carbono já estão em desenvolvimento dentro dessas áreas, embora especialistas e entidades do setor apontem que esse mercado ainda está em fase inicial e não representa, por enquanto, uma fonte consolidada de renda para a maioria dos produtores.
A demanda internacional é considerada um dos principais vetores dessa transformação. Mercados como Europa, Estados Unidos e Japão têm ampliado exigências relacionadas à rastreabilidade, sustentabilidade e redução de impacto ambiental. Grandes companhias globais, como Nestlé e JDE Peet’s, vêm incorporando metas ambientais em suas cadeias de fornecimento, o que inclui o incentivo à adoção de práticas regenerativas.
Apesar do avanço, a transição ainda enfrenta desafios. A própria TechnoServe destaca que os benefícios econômicos não são imediatos e dependem de assistência técnica, planejamento e acesso a financiamento. Outro entrave é a ausência de uma padronização global consolidada para certificação regenerativa, o que dificulta a comparação entre diferentes iniciativas e mercados.
Ainda assim, a avaliação predominante entre especialistas e organizações do setor é de que a cafeicultura regenerativa tende a ganhar espaço nos próximos anos, deixando de ser um diferencial competitivo para se tornar um requisito em mercados mais exigentes.
No Brasil, onde a produção de café já combina escala e tecnologia, a incorporação dessas práticas pode representar não apenas uma resposta às exigências externas, mas também uma estratégia para ampliar a competitividade e abrir novas frentes de receita no campo.
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