Geada de 75 ''varreu'' o café e determinou a nova agricultura

Publicado em 19/07/2010 07:16 644 exibições
''Pela ação fulminante no Norte do Paraná, os pioneiros mudaram em 20 anos a geografia do café no Brasil e instalaram aqui as bases do mais denso celeiro alimentar do país'', lembrou Omar Mazzei Guimarães, pioneiro e presidente da Sociedade Rural do Norte do Paraná (SRNP) em 1967. Referia-se à colonização do Norte Novo de Londrina (1930-1950) que, embora sob o signo do café, não era monocultora, predominando as pequenas propriedades diversificadas.

O discurso, escrito para a abertura da Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina de 1967, fazia reparos ao programa de erradicação de cafezais na década de 1960, pressuposto de diversificação que Omar classificava de ''artificial, que nos está levando à pior das monoculturas, a do capim''(*). Mas, na década seguinte, uma outra ação fulminante, a geada negra na noite de 17 para 18 de julho de 1975, ''varre'' todo o café no Norte do Paraná, determinando a consolidação de uma nova agricultura a partir da rotação soja-trigo, com elevado ônus social.

''Na década de 70, o Paraná deixou de olhar para si mesmo, de manter seu relativo equilíbrio social, receptivo às migrações, para dar-se ao País como o produtor para a exportação'', define uma análise da Secretaria de Planejamento do Estado. ''Voltou os olhos para o oceano, colocou as setas dirigidas ao Porto de Paranaguá, encheu os celeiros de soja, esvaziou o campo de homens, colocou a máquina e encheram-se as cidades.''

Neste domingo(18), faz 35 anos que aquela ''onda polar extremamente severa'' e sem precedentes atingiu 75% da cafeicultura brasileira, 100% a do Paraná, 45% a de São Paulo e de 15 a 20% a do sul de Minas Gerais, conforme o registro de Wilson Baggio. ''Foi o tiro de misericórdia na cafeicultura'', cuja expansão atingira o limite agroclimático, em face de localizações inadequadas, afirma hoje Florindo Dalberto. À época, designado pelo Instituto Brasileiro do Café (IBC), participara da implantação do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), do qual seria coordenador de Difusão de Tecnologia e presidente.

No Paraná, foram eliminados 200 milhões de cafeeiros e danificados os restantes 700 milhões, que correspondiam, no total, a 32% de participação na produção brasileira, zerando a safra estadual de 1976. Atingidos no tronco, os remanescentes ''transformaram-se em lavouras em formação, através das brotações'' juntamente com plantios novos. E essas lavouras ainda seriam drasticamente prejudicadas em 1978 e 1979, mais pela sensibilidade, por se encontrarem em fase de recuperação, do que pelas geadas, relativamente de pequena intensidade.

'Tsunami'

Para se traduzir o efeito daquela geada, pode-se equipará-la a um ''tsunami'' desses que ocorrem na Ásia, segundo o ex-cafeicultor Nagib Abudi Filho. O declínio do café no Paraná se tornou irreversível e hoje ocupa menos de 100 mil hectares, tendo regredido de 1,8 milhão em 1961.

Aos 85 anos, Wilson Baggio já não tem café, embora mantenha a empresa rural juntamente com os filhos e ainda seja membro da Comissão Técnica de Café da Federação da Agricultura do Paraná (Faep) e do Conselho Nacional do Café. ''O ano de 1975 foi o marco divisor, que fez o Paraná perder a hegemonia para o norte de São Paulo e Minas Gerais'', resume Baggio à FOLHA.

Desde 1939 em Cornélio Procópio e com a experiência de quem tomou mais de uma dezena de geadas, ele recorda ''o impacto terrível'' em 1975, atingidos todo o café em suas fazendas, aproximadamente um milhão de pés - ''não sobrou nada'' -, a pastagem, encostas, mata virgem, capoeira, milho, frutíferas e o trigo, típica cultura de inverno. Nem a nebulização artificial intensa, durante a noite, atenuou os efeitos.

A geada branca se caracteriza pelo pouco vento; a de 75 foi negra, com ''o vento gelado soprando do sul, vindo da Cordilheira dos Andes, enchendo os vales e transbordando para lugares mais altos'', explica Baggio.

Chovera dois dias antes e na tarde de 17 começou a nevar em Curitiba, recorda Nagib Abudi Filho. Chegando em caminhonete à fazenda, em Cambé, às 6 horas da manhã seguinte, encontrou gelo na estrada. ''Fui patinando em cima do gelo, nunca tinha visto coisa igual. No abrigo, o termômetro registrava sete graus abaixo.'' Na propriedade de 96 alqueires, começara a plantar soja em 1973, substituindo o café em um terço da área. No dia 19 de julho de 1975, todos os cafeeiros estavam ''queimados'' e começou a arrancá-los, usando cabo de aço e trator.

A colheita precedera a geada e, segundo Wilson Baggio, quem não tinha vendido ''aparentemente'' se beneficiou, porque os preços subiram 300% sobre o valor de US$ 50 por saca, chegando a US$ 300. Já os que venderam antes da geada, perderam muito e houve até mesmo aqueles que tiveram de vender a propriedade.

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Fonte:
Folha de Londrina

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