Trump assina decreto que amplia cota de carne bovina com tarifa reduzida e medida abre janela de oportunidade para o Brasil

Publicado em 27/08/2026 10:40 e atualizado em 27/08/2026 17:40
Consultorias alertam para limitações operacionais e para a exigência de que o benefício chegue ao consumidor americano

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A decisão do governo dos Estados Unidos de ampliar temporariamente em 300 mil toneladas a cota de importação de carne bovina sujeita à tarifa intra-cota cria uma nova janela comercial para fornecedores estrangeiros — e coloca o Brasil entre os países com potencial para capturar parte relevante desse volume.

A medida foi formalizada pelo presidente Donald Trump nesta quarta-feira (26) , e vale exclusivamente para lean beef trimmings, aparas magras utilizadas principalmente na fabricação de carne moída no mercado americano. O volume adicional será oferecido em três parcelas de 100 mil toneladas, entre setembro e novembro, no sistema “first come, first served”, ou seja, por ordem de chegada.

As análises da Terra Investimentos e da Expana convergem ao enxergar a medida como uma resposta do governo americano à escassez de matéria-prima e aos preços elevados da carne bovina nos Estados Unidos. As duas consultorias também destacam que não se trata de uma abertura irrestrita para qualquer tipo de carne, mas de uma ação bastante específica, direcionada às aparas magras frescas, refrigeradas ou congeladas utilizadas na produção de carne moída.

A diferença está principalmente na leitura sobre como essa oportunidade deverá se traduzir para países como o Brasil e nos riscos envolvidos no aproveitamento da nova cota.

Cota adicional não é exclusiva do Brasil

Um ponto importante é que as 300 mil toneladas não foram destinadas ao Brasil. O volume integral será enquadrado na categoria americana de “other countries or areas”, compartilhada entre países habilitados que não possuem uma cota própria ou tratamento específico por acordo comercial.

A Expana destaca que a nova abertura é adicional e separada das 80 mil toneladas concedidas exclusivamente à Argentina em fevereiro, que permanecem inalteradas. Naquela decisão anterior, Washington havia ampliado temporariamente a cota destinada aos argentinos para enfrentar a mesma combinação de oferta doméstica restrita e preços elevados.

A leitura da Terra Investimentos vai na mesma direção e chama a atenção para um detalhe estratégico: o Brasil deverá disputar o volume com outros fornecedores elegíveis.

Na avaliação de Geraldo Isoldi, da Terra Investimentos, o sistema por ordem de chegada pode favorecer empresas que já tenham produto embarcado ou armazenado em entrepostos alfandegados nos Estados Unidos quando cada tranche (fatia)  for aberta.

Em outras palavras, não basta ter carne disponível. Logística e timing passam a ser decisivos.

Brasil tem espaço para ganhar competitividade

É justamente neste ponto que a mudança pode ser mais relevante para o exportador brasileiro.

Segundo a Terra Investimentos, a cota compartilhada regular era de aproximadamente 52 mil toneladas, volume que teria sido rapidamente preenchido no início do ano. Depois de esgotado esse espaço, as exportações realizadas fora da cota passaram a enfrentar uma tarifa de 26,4% .

A nova janela permite que os volumes enquadrados na cota adicional ingressem nos Estados Unidos sob a alíquota intra-cota prevista no sistema tarifário americano, substancialmente inferior à tarifa aplicada fora da quota.

Isso não significa, porém, uma retirada geral das tarifas sobre a carne brasileira. A medida é específica para os produtos e volumes enquadrados na recente medida.

Essa distinção é fundamental porque os Estados Unidos já se consolidaram em 2026 como um dos mercados mais importantes para a carne bovina brasileira. Segundo levantamento apresentado pela Terra Ivestimentos, entre janeiro e julho o Brasil exportou cerca de 209,6 mil toneladas para os EUA, crescimento de 23,9% sobre o mesmo período de 2025, movimentando aproximadamente US$ 1,28 bilhão.

Boa parte dessas vendas, porém, ocorreu fora da cota.

A abertura adicional, portanto, pode significar uma melhora importante na equação econômica dessas exportações.

Déficit estrutural de carne nos EUA justifica medida

A Expana  concentra sua análise principalmente no problema que levou Washington a adotar a medida.

Augusto Eto, autor do levantamento,  destaca que o rebanho bovino americano está nos menores níveis em aproximadamente 75 anos, enquanto secas e incêndios comprometeram pastagens e limitaram a capacidade de recomposição da oferta.

Além disso, restrições impostas à entrada de bovinos vivos provenientes do México em função da mosca-da-bicheira do Novo Mundo acrescentaram pressão sobre a disponibilidade de animais.

Esse ambiente levou o próprio USDA a trabalhar com perspectiva de redução da produção americana de carne bovina em 2026.

A Casa Branca reconhece formalmente essa restrição de oferta. No decreto, o governo afirma que a disponibilidade doméstica de carne bovina e de matérias-primas utilizadas na produção de carne moída é insuficiente para atender a demanda a preços considerados razoáveis e que o consumo doméstico deve permanecer elevado durante o restante do ano.

Nesse aspecto, Terra e Expana chegam à mesma conclusão: a abertura não acontece por liberalização comercial, mas por necessidade do mercado americano.

O ponto mais sensível: carne precisa chegar mais barata

Existe, entretanto, uma condição que pode mudar a dinâmica comercial.

O decreto determina que o USDA ( Departamento de Agricultura dos EUA)  e o USTR (Representação Comercial dos Estados Unidos) acompanhem os preços da carne importada dentro da nova cota. O governo americano espera que o produto beneficiado seja comercializado com preço 25% inferior ao preço de mercado das aparas magras.

Se essa redução não ocorrer, o presidente poderá cancelar o saldo ainda não utilizado da cota adicional.

Para Geraldo Isoldi da Terra Investimentos, aí está o principal “risco embutido” na medida.

O material da consultoria chama a atenção para a possibilidade de o governo americano avaliar se a redução tarifária está efetivamente chegando ao consumidor. Caso isso não aconteça, parte do benefício poderia ser interrompida antes da utilização das 300 mil toneladas.

Essa leitura também ajuda a explicar por que Washington enfatiza que a medida tem como objetivo central tornar a carne moída mais acessível.

Segundo a Casa Branca, a ampliação vale por aproximadamente 90 dias, limita a entrada a 100 mil toneladas por mês e foi desenhada justamente para aumentar a oferta de matéria-prima sem provocar uma abertura ampla e permanente do mercado. 

O objetivo político da Casa Branca não é simplesmente importar mais carne, mas fazer com que a redução tarifária resulte em carne mais barata dentro dos Estados Unidos.

Para o Brasil, que já ampliou significativamente suas vendas ao mercado americano em 2026, a nova cota representa a possibilidade de transformar parte dos embarques que vinham pagando tarifa elevada em operações com uma condição tarifária muito mais competitiva.

A janela porém será curta. 

A primeira fatia de 100 mil toneladas começa em 1º de setembro e termina em 30 de setembro. A segunda será aberta em outubro e a terceira entre 31 de outubro e 30 de novembro — ou até que o volume seja totalmente preenchido.

Em um mercado que já demonstrou capacidade para consumir rapidamente as cotas disponíveis, a disputa provavelmente começará antes mesmo de o primeiro navio chegar ao porto americano.

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Por:
Aleksander Horta
Fonte:
Notícias Agrícolas

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