Na Argentina, frigoríficos afirmam que governo impede embarque do produto

Publicado em 17/03/2010 13:50 566 exibições

Com poucas exceções, os frigoríficos instalados na Argentina interromperam suas exportações de carne bovina, desde sábado, e acusaram o governo de ter proibido os embarques sem comunicação prévia. O preço do produto subiu de 35% a 40% nos açougues e supermercados de Buenos Aires, somente em janeiro e fevereiro.

A restrição às exportações não foi confirmada ontem pelo governo. O ministro da Agricultura, Julián Domínguez, que estava em viagem ao exterior, divulgou apenas uma nota vaga sobre o assunto. "Trabalhamos para manter o equilíbrio entre o estoque pecuário, o abate, as exportações e o preço da carne", afirmou Domínguez.

Rússia, Chile e União Europeia são os principais mercados externos para a carne argentina. Se a restrição às exportações for mantida, abre-se uma oportunidade para o aumento das vendas de outros fornecedores, como o Brasil. Em 2009, os embarques totais da Argentina cresceram 59%, em volume. Ao mesmo tempo, o consumo interno cresceu e atingiu 73 quilos por habitante/ano, maior índice do mundo - seguido pelo Uruguai e Estados Unidos.

O problema, segundo a indústria de carne, é que o aumento das exportações e do consumo doméstico só tem sido possível graças ao abate de novilhos e de fêmeas. Ou seja, estaria ocorrendo um processo de desinvestimento, com a antecipação da produção e o abate de futuras mães. Nos últimos três anos, o estoque pecuário caiu de 60 milhões para 51 milhões de cabeças. Por isso, a oferta despencou e os preços deram um salto.

Em conversas com executivos do setor, o Valor apurou a evolução das medidas adotadas pelo governo. Na sexta-feira, os gerentes de comércio exterior dos frigoríficos ouviram rumores crescentes de que as exportações seriam fechadas. De fato, no sábado, fiscais aduaneiros passaram a bloquear todos os embarques. Um grande frigorífico foi pressionado, inclusive, a retirar contêineres de carne que já haviam sido embarcados e aguardavam apenas a saída do navio.

Não houve qualquer decreto ou resolução para justificar a medida. Ontem, com a divulgação do bloqueio pela imprensa argentina, o governo recuou parcialmente sem sequer ter admitido o fechamento das exportações. O recuo ocorreu depois de uma reunião de representantes do setor com o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, apontado como o grande responsável pelas restrições.

Na reunião, segundo as fontes, ficou acertado que o governo liberará as exportações de cortes traseiros (mais caros), como filé e contra-filé, enquanto os dianteiros e de costelas (mais baratos) serão destinados exclusivamente ao mercado interno. As exportações dentro da Cota Hilton para a União Europeia - a Argentina tem uma volume de 29 mil toneladas - não foram afetadas.

Conforme explicou um executivo, trata-se de uma "promessa" que somente poderá ser comprovada no fim de semana, quando saem os próximos navios com carregamentos importantes. Em troca da liberação dos cortes mais nobres, Moreno tenta forçar um acordo de preços para baratear os cortes mais populares de carne. O produto puxou o índice oficial de inflação em fevereiro, de 1,2%.

"É um disparate, uma decisão sem lógica nenhuma, fruto de uma política que reduziu nosso estoque em quase dez milhões de cabeças de gado", afirmou ao Valor o coordenador da comissão de pecuária da Federação Agrária Argentina (FAA), Pedro Peretti.

Segundo ele, o consumo doméstico, em termos anualizados, caiu 20 quilos por habitante em janeiro, na comparação com o patamar anterior, de 73 quilos. "Não é um problema político nem ideológico. Trata-se de um problema biológico", reclamou Peretti, acrescentando que espera não ver a repetição do fechamento às exportações ocorrido em 2006, na gestão do ex-presidente Néstor Kirchner.

Para Otávio Cançado, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne Bovina (Abiec), as restrições às exportações de carne bovina podem favorecer o Brasil já que devem abrir espaço em mercados como UE e Rússia. Uruguai e Paraguai também seriam possíveis fornecedores, mas têm limitações de oferta de carne bovina, observa.

Cançado, que critica a política de abastecimento de carne da Argentina, acrescenta que as restrições podem desestimular investimentos naquele país, onde estão instalados grandes frigoríficos brasileiros como JBS e Marfrig. (Colaborou AAR, de São Paulo)

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Fonte:
Valor Econômico

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