A epidemia chinesa de peste suína e o Brasil, por Marcos Yank

Publicado em 15/04/2019 05:44 e atualizado em 15/04/2019 07:58
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Essa terrível crise vai gerar oportunidades de comércio e cooperação para o Brasil (PUBLICADO ORIGINALMENTE NA FOLHA DE S. PAULO, EDIÇÃO DE SÁBADO)

Família e fortuna são valores fundamentais da cultura chinesa. Na história milenar do país, um dos símbolos desses valores é o porco. O ideograma chinês para a palavra “lar” é um suíno embaixo de um teto, simbolizando que família, prosperidade e suínos vivem juntos, simbioticamente.

Estamos no ano zodiacal do porco na China. O país responde por metade da produção mundial de carne suína, ao consumir incríveis 54 milhões de toneladas.

Porém, desde agosto a China enfrenta uma terrível epidemia de peste suína africana, que já dizimou 17% do seu plantel de quase 700 milhões de cabeças, chegando a 20% no abate de matrizes. A epidemia avança no Vietnã e começa a chegar a outros países do sudeste da Ásia.

Trata-se da doença suína mais temida no planeta, cuja contaminação se espalha rapidamente por meio do trânsito de animais vivos (incluindo porcos selvagens), pessoas, carnes, rações e subprodutos da indústria. Não há risco para seres humanos, mas o vírus é letal e incurável no rebanho suíno.

Estima-se que a oferta doméstica chinesa deva cair cerca de 8,5 milhões de toneladas em 2019 (15% da produção), o equivalente ao volume total de exportações do mundo nesse momento e a mais do que o dobro da produção total brasileira. No relatório alarmista que o Rabobank divulgou essa semana, a produção chinesa pode cair de 25% a 35% até 2020.

Certamente veremos uma alta importante dos preços chineses no segundo semestre e em 2020, não apenas na carne suína mas também em aves, bovinos e pescados.

Essa alta só não aconteceu ainda porque os produtores estão abatendo seus rebanhos, com medo de serem atingidos pela doença. E também porque as empresas estatais chinesas saíram “varrendo” a América do Sul, a Oceania e a Europa para formar estoques estratégicos e evitar o desabastecimento.

A crise atingiu principalmente o rebanho suíno de “fundo de quintal” das pequenas propriedades (20% do total), segmento que tende a desaparecer em razão dos recorrentes problemas de controle sanitário e, agora, da falta de crédito que impedirá que pequenas e médias renovem o seu plantel. Mas ela já atinge também as grandes propriedades verticalizadas, que respondem por 60% da oferta chinesa.

África e Rússia também foram vítimas da peste suína na última década. A situação no Leste Europeu e na Bélgica é dramática. Portanto, a solução para a crise chinesa nas três proteínas está nas Américas, principalmente nos EUA e no Mercosul.

O Brasil é o país com maior potencial de expansão sustentável da oferta, graças aos s excedentes de soja e milho. Para tanto, é preciso entender o contexto como um todo e jogar direito nesse tabuleiro. Precisamos mapear e acompanhar o que está acontecendo no campo chinês, conversar com os envolvidos e analisar os impactos da crise na oferta, demanda e preços de principais commodities envolvidas na equação —soja, milho, rações, suínos, aves, bovinos, pescados, etc.

É hora de fortalecer a parceria Brasil-China nas áreas técnica e comercial, apoiando nosso maior cliente e investidor neste momento difícil.

Além disso, é imprescindível reforçar os controles de fronteira, de forma a impedir a entrada desse terrível vírus no Brasil.

O Brasil vinha perdendo mercado em todas as carnes nos últimos anos e ainda corria o risco de ser impactado pelo acordo EUA-China, que sairá nas próximas semanas. Mas de repente essa crise pode virar o jogo em nosso favor, a exemplo do que aconteceu há alguns anos com a epidemia de grive aviária, que poupou o Brasil.

Um momento crucial dessa partida será jogado em maio, quando a ministra Tereza Cristina e o vice-presidente Hamilton Mourão estarão em Pequim.

(*) Marcos Sawaya Jank é especialista em questões globais do agronegócio. 

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Fonte: Notícias Agrícolas/Folha

2 comentários

  • Rodrigo Polo Pires Balneário Camboriú - SC

    Ninguém está varrendo o mercado de carnes do Brasil (o uso exagerado da retórica é próprio dos conversadores)..., Se comparamos os dois últimos meses em relação ao ano passado houve aumento da exportação, mas na comparação do mes de abril com maio de desse ano está havendo queda... Então essa não é uma tendencia, e essa estorinha de avaliar conjuntura politica para fazer previsões é equivocada... O que o general Mourão pode acrescentar ao comércio exterior? Um funcionário público que nunca foi politico, nunca comandou nenhuma batalha e que, no cargo de vice presidente, começa a se maquiar?!!! E Tereza Cristina, uma politica do nosso podre sistema politico pode fazer o que? Blairo Maggi, que era considerado o grande conhecedor do mercado, gastou milhões em viagens com grandes comitivas, passeou pela Ásia inteira com o dinheiro da pobreza e que resultado teve? O mesmo que Mourão e Tereza Cristina terão nessas viagens. Nenhum.

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  • Paulo Bezerra iguape - SP

    Logo seremos a "China 2, a missão"... já temos casos de PSC no Maranhão, o Estado de São Paulo produzindo javalis protegidos por Lei, com mais de 426 municípios já infestados. Logo o maior produtor de javalis do Brasil(SP), intensificará a colonização da bioinvasão no Paraná e Santa Catarina, enterrando a suinocultura brasileira. Vamos ver é só uma questão de tempo.

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    • PAULO ROBERTO RENSIBANDEIRANTES - PR

      As duas principais causas que causam a extinção de uma espécie são: I- Destruição de seu habitat. ... II- Introdução de espécies exóticas em seu habitat. ... ... ... Será que esses "energúmenos" têm o conhecimento dessa informação tão simples?

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