Perdas gestacionais desafiam a eficiência da suinocultura brasileira
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A eficiência reprodutiva é um dos pilares da rentabilidade na suinocultura moderna. Mesmo com avanços genéticos expressivos nas últimas décadas, perdas gestacionais ainda representam um desafio relevante dentro das granjas brasileiras. Reduções no número de leitões nascidos podem ocorrer ao longo de toda a gestação, impactando diretamente o resultado econômico da atividade.
Pesquisas indicam que uma parcela significativa dos embriões não chega ao nascimento. A Profa. Dra. Amanda Prudêncio Lemes, docente do Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais da Universidade Brasil (UB), explica que parte desse processo ocorre naturalmente, mas nem sempre apenas por causas fisiológicas. “Estudos indicam que aproximadamente 30% a 40% dos embriões podem ser perdidos durante a gestação, principalmente nas primeiras semanas após a fecundação”, disse.
Mesmo sendo um fenômeno conhecido, o problema exige atenção constante dentro das propriedades. A pesquisadora destaca que muitas dessas perdas estão relacionadas ao dia a dia das granjas. “Parte dessas perdas é considerada fisiológica, mas uma proporção importante está relacionada a fatores de manejo, ambiente e sanidade nas granjas”, esclarece.
Gargalos técnicos ainda presentes nas granjas
O avanço genético das matrizes trouxe maior prolificidade, mas também elevou a complexidade do sistema produtivo. Hoje, as fêmeas produzem mais leitões por parto, o que exige um controle ainda mais preciso de diversos fatores dentro da granja.
Entre os principais desafios enfrentados pelos produtores, o estresse térmico aparece com frequência nas regiões tropicais. A pesquisadora explica que as altas temperaturas podem comprometer o desempenho reprodutivo das fêmeas. “Nesse contexto, tem destaque o estresse térmico, especialmente em regiões mais quentes do país, comprometendo o desempenho reprodutivo das matrizes”, afirma.
Outro ponto importante envolve a pressão genética por leitegadas cada vez maiores. Embora o avanço tecnológico tenha aumentado o número de leitões por parto, também trouxe novos limites fisiológicos para as fêmeas.”A pressão genética por hiperprolificidade (seleção genética de matrizes para gerar leitegadas muito numerosas) pode intensificar a competição intrauterina (que acontece dentro do útero) entre fetos e reduzir a viabilidade de parte da leitegada”, observa.
Nutrição adequada pode melhorar resultados reprodutivos
O manejo nutricional tem papel estratégico na manutenção da gestação e no desenvolvimento fetal. Ajustes corretos na alimentação das matrizes podem contribuir tanto para aumentar o número de leitões quanto para melhorar o peso ao nascimento.
Resultados observados em sistemas produtivos indicam ganhos importantes quando o equilíbrio nutricional é bem conduzido. “Em determinados sistemas produtivos foi possível elevar o número total de nascidos de 15,6 para 16,9 leitões, ao mesmo tempo em que o peso médio ao nascimento aumentou de 1,419 kg para 1,488 kg em um período de um ano”, confirma a docente da UB.
Essa evidência ajuda a quebrar um conceito antigo dentro da produção suína. A pesquisadora explica que o manejo nutricional adequado permite ganhos simultâneos na quantidade e na qualidade da leitegada. Segundo ela, esse tipo de resultado desafia a antiga premissa de que leitegadas maiores resultariam necessariamente em leitões mais leves.
Na prática das granjas, a nutrição precisa atender às exigências específicas de cada fase da gestação. O zootecnista Fernando Zimmer, da Auster Nutrição Animal, explica que, na maioria das situações, a formulação das dietas já contempla as necessidades das matrizes. “As perdas embrionárias estão pouco associadas a fatores nutricionais, pois, em geral, as rações são formuladas para atender às necessidades específicas das fêmeas suínas”, reforça.
Micotoxinas e manejo alimentar exigem atenção
Mesmo com dietas bem formuladas, problemas podem surgir quando há falhas na qualidade dos ingredientes ou no fornecimento da ração. Contaminações por micotoxinas, por exemplo, representam um risco importante para a reprodução das matrizes.
Zimmer alerta que algumas toxinas presentes nos grãos podem interferir diretamente na fertilidade e no desenvolvimento embrionário. “Micotoxinas como zearalenona e fumonisinas podem prejudicar a fertilidade, interferir no equilíbrio hormonal e causar reabsorções embrionárias, abortos e aumento de natimortos”.
Outro aspecto que merece atenção dentro da granja é o escore corporal das fêmeas no momento da cobertura. O estado nutricional inadequado pode comprometer tanto a implantação embrionária quanto o desempenho no parto. “Fêmeas com escore baixo apresentam maior mortalidade embrionária devido à menor reserva energética e suporte hormonal”.
Por outro lado, o excesso de condição corporal também traz riscos para a reprodução. O especialista destaca que matrizes muito pesadas podem enfrentar dificuldades durante o parto. “Matrizes com escore elevado têm maior risco de dificuldade ao parto, distocias e natimortalidade”.
Monitoramento correto ajuda a identificar causas
A análise detalhada das perdas reprodutivas é uma ferramenta importante para melhorar a gestão da granja. A classificação correta dos leitões mortos ao nascimento ajuda a identificar possíveis causas e direcionar medidas preventivas.
O Prof. Dr. Cleber Fernando Menegasso Mansano, docente do Programa de Pós-graduação em Produção Animal da UB, explica que o registro padronizado das informações reprodutivas contribui para diagnósticos mais precisos. “Uma das medidas mais importantes é padronizar a classificação dos leitões mortos ao nascimento”.
A identificação adequada permite distinguir diferentes tipos de ocorrência durante o parto. “Essa diferenciação é fundamental porque cada situação pode indicar causas distintas, como dificuldades de parto, problemas placentários, infecções ou perdas gestacionais ocorridas em diferentes fases da gestação”.
Além disso, o monitoramento contínuo da granja fornece dados valiosos para decisões técnicas. “Quando ocorrem eventos reprodutivos anormais — como aumento de abortos, natimortos ou leitões fracos — é indicado coletar fetos, placenta e amostras de sangue das matrizes para investigação laboratorial”, afirma.
Estratégia integrada é chave para reduzir perdas
Especialistas concordam que não existe uma solução única para reduzir as perdas gestacionais na suinocultura. O sucesso depende da combinação de vários fatores dentro do sistema produtivo.
O controle do ambiente, especialmente da temperatura nas instalações, é um dos pontos fundamentais. O estresse térmico pode afetar diretamente a fertilidade e a manutenção da gestação, exigindo manejo adequado das instalações.
Ao mesmo tempo, programas de biosseguridade, nutrição equilibrada e acompanhamento constante dos indicadores reprodutivos ajudam a reduzir riscos dentro das granjas. A integração dessas práticas contribui para maior estabilidade produtiva ao longo do tempo.
Para os especialistas, granjas que trabalham de forma estratégica nesses pilares conseguem melhorar a eficiência reprodutiva e aumentar a viabilidade dos leitões ao nascimento. Esse conjunto de medidas reforça que a gestão integrada continua sendo o caminho mais seguro para elevar os resultados da suinocultura brasileira.
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