Eficiência e cortes de valor impulsionam novo momento da suinocultura paulista
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Durante as comemorações dos 59 anos da Associação Paulista de Criadores de Suínos (APCS), o presidente da entidade, Valdomiro Ferreira Jr., traçou um panorama atualizado da atividade no Brasil e em São Paulo, evidenciando a forte transformação do setor nas últimas décadas. Na avaliação do dirigente, o cenário atual combina desafios relevantes — como o aumento dos custos de produção e a escassez de trabalhadores — com oportunidades estratégicas, especialmente ligadas à proximidade com grandes centros consumidores e à crescente valorização de cortes diferenciados.
Ao longo da entrevista ao Notícias Agrícolas, Ferreira Jr. também destacou temas centrais para o futuro da cadeia, como sustentabilidade, inovação e mudanças no comportamento de consumo. Segundo ele, o avanço da suinocultura paulista dependerá menos da expansão do plantel e mais do ganho de eficiência, aliado à produção de carne com maior qualidade e competitividade. O dirigente ainda reforçou a importância de ajustes no sistema tributário e de uma comunicação mais eficaz com a sociedade, sobretudo por meio da educação, para fortalecer a imagem do agronegócio.
Notícias Agrícolas: Hoje é uma data especial para o setor e para a entidade. São 59 anos da APCS. Como o senhor avalia a evolução da suinocultura brasileira e, especialmente a paulista, ao longo dos anos?
Valdomiro Ferreira Jr., presidente da APCS: A suinocultura brasileira, e especialmente a paulista, passou por uma transformação profunda. Ao longo das últimas décadas, tivemos que evoluir em todos os aspectos: forma de produção, nutrição e bem-estar animal. Esse processo contínuo de adaptação foi essencial para garantir competitividade tanto no mercado interno quanto no externo. O resultado é positivo. Saímos de um patamar de cerca de 700 mil toneladas exportadas por ano para aproximadamente 1,4 milhão de toneladas em 2025. Em 2026, devemos alcançar a posição de terceiro maior exportador mundial. Esse avanço está diretamente ligado à seriedade no controle sanitário, que é fundamental para abrir mercados.
Notícias Agrícolas: E quanto a fatores como conflitos internacionais e aumento de custos?
Valdomiro Ferreira Jr., presidente da APCS: O momento é delicado. Em um mundo globalizado, qualquer instabilidade econômica impacta diretamente a produção. Trabalhamos com proteína animal, mas dependemos fortemente de grãos como milho e farelo de soja. A elevação no preço dos combustíveis, por exemplo, já está aumentando o custo logístico — tivemos um acréscimo de cerca de R$ 30 por tonelada no transporte de insumos até a região de Campinas. Isso pressiona o custo de produção e, em um segundo momento, tende a afetar os preços. Além disso, temos compromissos com mercados internacionais, como a China e países da América Central, o que exige ainda mais estabilidade.
Notícias Agrícolas: Quais são as principais oportunidades para a suinocultura paulista?
Valdomiro Ferreira Jr., presidente da APCS: São Paulo está em uma posição privilegiada. Temos uma vantagem logística enorme pela proximidade entre produção e consumo. Um produto pode sair do frigorífico e chegar à gôndola do supermercado em cerca de sete horas, enquanto de outras regiões isso pode levar até 24 horas. Além disso, o consumo per capita está crescendo, impulsionado pela valorização de cortes diferenciados. Hoje, a carne suína ganhou espaço em restaurantes e no varejo com cortes mais sofisticados. Saímos de três cortes tradicionais para mais de 30 opções, muitas delas competindo diretamente com cortes bovinos.
Notícias Agrícolas: E os principais desafios do setor no estado?
Valdomiro Ferreira Jr., presidente da APCS: O primeiro grande desafio é a mão de obra. Há dificuldade em atrair jovens para trabalhar nas granjas, o que já nos leva a buscar profissionais de outras regiões e até de outros países. O segundo ponto é a questão ambiental. Ainda existe a percepção equivocada de que a suinocultura é poluidora, quando, na verdade, os dejetos podem ser transformados em energia e biofertilizantes. O terceiro desafio é o modelo produtivo: São Paulo não trabalha com integração como outras regiões. Produzimos cerca de 280 mil toneladas, mas consumimos mais de 1,1 milhão. Por isso, o caminho é focar em nichos de mercado, com produtos de maior valor agregado e proximidade com o consumidor.
Notícias Agrícolas: A sustentabilidade tem ganhado destaque no setor. Como o senhor vê essa questão?
Valdomiro Ferreira Jr., presidente da APCS: A sustentabilidade é essencial. O produtor rural hoje tem consciência do seu papel ambiental. Temos exemplos concretos de economia circular, como granjas que utilizam dejetos suínos na fertirrigação de lavouras, substituindo adubos químicos. Também há produção de energia a partir do biogás, reduzindo emissões e custos. É um sistema cada vez mais eficiente, que integra produção animal e vegetal com responsabilidade ambiental.
Notícias Agrícolas: O consumo de carne suína também vem mudando. Como o senhor avalia esse movimento?
Valdomiro Ferreira Jr., presidente da APCS: Estamos vivendo uma transformação importante. O consumidor passou a valorizar mais a experiência gastronômica, e isso abriu espaço para novos cortes e formas de preparo. A carne suína hoje é versátil, saborosa e competitiva. Além disso, houve um avanço significativo em genética, nutrição e manejo, que melhoraram a qualidade do produto. Ainda temos um desafio de comunicação, pois muitos consumidores não conhecem essa evolução. Precisamos mostrar mais a origem e a qualidade da carne suína.
Notícias Agrícolas: Na sua visão, quais incentivos são essenciais para fortalecer ainda mais a suinocultura paulista?
Valdomiro Ferreira Jr., presidente da APCS: O primeiro ponto é o tributário. Hoje enfrentamos uma carga que reduz a competitividade frente a outros estados. Em alguns casos, há bitributação, com incidência tanto na origem quanto no destino, o que encarece o produto final. Isso é ainda mais sensível para São Paulo, que depende da importação de insumos como o farelo de soja — cerca de 95% vem do Centro-Oeste.
Outro aspecto fundamental é a educação. Precisamos rever a forma como o agronegócio é apresentado nas escolas. Ainda existem visões distorcidas sobre o setor, o que afasta as novas gerações e compromete a formação de profissionais. É essencial aproximar o campo da sociedade e mostrar a realidade da produção moderna, baseada em tecnologia e sustentabilidade.
Notícias Agrícolas: E quais são as perspectivas para os próximos anos no estado de São Paulo?
Valdomiro Ferreira Jr., presidente da APCS: Não devemos crescer em número de matrizes, mas sim em eficiência. O foco será aumentar a produção de carne com o mesmo plantel, o que também traz ganhos ambientais. Já avançamos muito: antes, o peso médio de abate era de cerca de 100 quilos; hoje está em torno de 120 quilos, com potencial de chegar a 130. Isso é resultado direto de evolução genética, nutrição de ponta e melhorias no manejo e no bem-estar animal.
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