Já em alta, trigo deve subir mais no Brasil

Publicado em 09/09/2010 07:20
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Após assistir às cotações internacionais do trigo subirem 53% desde julho, os produtores do cereal no Paraná - que já colheram 15% de sua área - querem ver os preços avançar no mercado interno. Começam a calcular a paridade de exportação e a considerar a possibilidade de vender o cereal ao exterior. A queda de braço entre moinhos e produtores por um maior reajuste interno já começou e deve exercer nova pressão sobre a inflação dos alimentos, com altas nos preços dos produtos finais, como massas, biscoitos e pão francês.

Poucos negócios estão sendo feitos no mercado do Paraná, sobretudo porque os moinhos ainda têm algum estoque para queimar, diz Flávio Turra, gerente econômico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar). Por isso, os preços têm reagido pouco, diz ele, e, dependendo da região do Paraná, já compensa mais exportar trigo que vender internamente.

Segundo a Ocepar, a tonelada do cereal do tipo branco em Paranaguá custa US$ 290, valor que em Ponta Grossa (a região de produção mais próxima do porto) é de R$ 465, ao câmbio de R$ 1,73. "Em Ponta Grossa, as cotações atuais apontam R$ 460 por tonelada", diz Turra. Quanto mais próximo do porto, melhor é a relação.

Élcio Bento, analista da Safras & Mercado, diz que nos últimos dias alguns negócios no norte do Paraná - mesmo que em pequeno volume - elevaram os patamares de preços, mas ainda abaixo do solicitado pelos produtores. "Há um mês, a tonelada estava em R$ 420, nos últimos dias, fechou a R$ 480", diz Bento. Ele acrescenta que produtores do norte paranense estão segurando produto na expectativa de que os preços atinjam o nível de R$ 500 a tonelada.

As indústrias de panificação e de massas e biscoitos reportam reajustes no preço da farinha de, pelo menos, 20%. "Essa farinha vendida se refere a trigo comprado por R$ 420 a tonelada no Paraná ou até menos. Agora, que os preços ensaiam se ajustar entre R$ 480 e R$ 500 a tonelada, novos reajustes na farinha podem estar por vir", diz Bento. Ele avalia que os moinhos aproveitaram a alta da commodity nas bolsas internacionais para elevar os preços, que estavam estagnados há algum tempo. O Sindicato da Indústria do Trigo de São Paulo e a Associação Brasileira da Indústria do Trigo foram procurados, mas não se pronunciaram.

Em agosto, as indústrias de massas e pães industriais reajustaram seus produtos em 5%, em média. Em setembro, mais 5% devem ser adicionados, diz a Associação Brasileira das Indústrias de Massas Alimentícias (Abima). "A farinha de trigo já aumentou, na média, 20% desde o fim de julho", diz Cláudio Zanão, presidente da Abima.

Ele não acredita, porém, que possa haver mais reajustes internos se os preços internacionais do trigo permanecerem nos mesmos patamares. "O produtor ainda tem a safra antiga no estoque e com a entrada da safra nova há pressão para liberar espaço nos armazéns. Além disso, três quartos da produção mundial são colhidos no segundo semestre, o que deve deixar o mercado mais confortável do ponto de vista de oferta", diz.

A alta da farinha em São Paulo superou 30%, afirma Carlos Perregil, vice-presidente do Sindicato da Panificação do Estado (Sinpan). "Pagávamos R$ 55 a saca de 50 quilos no início de agosto. Agora estamos pagando R$ 70", diz. Ainda assim, não houve reajustes generalizados, mas pontuais nas padarias que não tinham estoques. "As altas serão inevitáveis, pois a farinha subiu muito. O pão deve ficar, em média, de 8% a 10% mais caro".

Dos cerca de 10 milhões de toneladas que o Brasil consome por ano de trigo, 5 milhões de toneladas são produzidas internamente e, o restante, importado principalmente da Argentina, mas também do Paraguai e do Uruguai. Por isso, a possibilidade de exportar trigo é vista pelo mercado como remota. "Mas, algumas cooperativas estão estudando essa possibilidade, caso o mercado interno não reaja. O produtor ainda tem estoque de safra passadas", diz Turra.

Neste ano, o Brasil exportou níveis recordes de trigo de qualidade inferior, devido à ocorrência de chuvas na colheita da safra passada. Foram embarcados de janeiro a julho deste ano 1,1 milhão de toneladas de trigo de baixa qualidade. A receita total com os embarques foi de US$ 176,5 milhões. No mesmo período de 2009, tinham sido embarcadas 351 mil toneladas de trigo do Brasil com uma receita de US$ 57 milhões, segundo dados da Secex. "Se a exportação desta safra ocorrer, será de trigo de boa qualidade, pois a colheita até agora indica padrões elevados, de trigo tipo 1", avalia Turra.

De acordo com cálculos do Valor Data, desde o início de julho, as cotações internacionais do trigo subiram 53%, em decorrência de problemas climáticos em países produtores e exportadores do cereal, principalmente na Rússia.
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Fonte: Valor Online

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