Queda de preços agrava situação do arroz em pleno plantio

Publicado em 07/10/2010 11:37
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Depois de cair 2,87% em setembro, cotações do arroz em casca seguem a tendência baixista e já perderam 0,6% do valor nos seis primeiros dias de outubro

É preocupante, e exigirá intervenção governamental para ser alterado, o cenário de comercialização do arroz em casca no Rio Grande do Sul, que é referencial para todo o mercado brasileiro e interfere no Mercosul. Depois de cair 2,87% em setembro, fechando o mês cotado a R$ 26,05, segundo o Indicador do Arroz Cepea-Bolsa Brasileira de Mercadorias (BVM&F), a saca de arroz em casca de 50 quilos (58x10), colocada na indústria, manteve-se em queda nos seis primeiros dias de outubro.

Segundo o Indicador, em outubro as cotações baixaram 0,6%, de R$ 26,09 para R$ 25,90. Em dólar, o valor equivaleria a US$ 15,42. Na semana, a média das cotações é de R$ 25,95. Esse movimento baixista está atrelado à condição de oferta interna, a relação de livre mercado estabelecida esse ano sem a presença dos mecanismos de comercialização do governo brasileiro, concentração de oferta de mais de 70% do arroz no Sul do Brasil, somada à oferta concentrada pelo Mercosul também nessa região, recuperação das safras mundiais e uma forte pressão de venda dos países asiáticos e dos Estados Unidos, em um mercado internacional que apesar de uma leve recuperação nos últimos 60 dias na Tailândia, principalmente, vive um ciclo de baixa frente aos recordes históricos de preços de dois anos atrás.

O câmbio é um agravante. O dólar cotado abaixo de R$ 1,70 retira ainda mais a competitividade do arroz brasileiro, principalmente quebrados e parboilizado que estavam determinando o fluxo de saída, prejudicando de maneira muito grave os contratos de venda externa futuros. Em contrapartida, com esse movimento do câmbio, o Brasil torna-se ainda mais atraente para a importação de arroz, que deve sofrer novo impacto de aumento do volume. Arroz uruguaio é ofertado na fronteira gaúcha a R$ 25,40 o equivalente em casca/50kg. Abaixo dos R$ 25,80 de média do mercado local. Entrando mais arroz, principalmente do Mercosul, mas possivelmente de terceiros mercados, já que o governo brasileiro não moveu uma palha sequer para o pleito dos arrozeiros de elevação da TEC incidente sobre o arroz extra-bloco, de 12% para 30%.

Ou seja, entrará mais arroz no Brasil nos próximos meses e sairá menos. Os estoques de passagem serão maiores (muita gente apostava em estoques baixos em razão da safra menor), os estoques públicos dificilmente serão alterados (seja por venda ou compra) e vem aí uma safra cheia, que pode superar 8 milhões de toneladas só no Rio Grande do Sul. E o clima beneficiará o Mercosul também, para quem o mercado brasileiro com arroz a US$ 15,40/50 quilos, é altamente atraente. Principalmente com a retração dos mercados compradores do Oriente Médio.

Isso tudo afeta a comercialização interna, com preços seguindo a paridade de importação, indústria comprando sob a pressão de baixa, varejo querendo concessões e preços ainda mais atraentes e produtor segurando a matéria-prima esperando uma recuperação nas cotações que pelo menos cubra o custo de produção ou a intervenção do governo, com mecanismos de comercialização. |E o governo tem problemas com a falta de armazéns credenciados. Todavia, com custeio vencendo, prorrogação de EGFs, demanda por caixa para as operações de plantio, previsão de safra cheia e cenário baixista, sem qualquer sinal de interesse do governo em comprar produto ou sustentar a comercialização, o arrozeiro acaba pressionado a vender produto, ainda que fracionadamente. Razão esta, pela qual os números do Irga indicam um volume de beneficiamento normal no ano, até esse momento, no principal pólo industrial brasileiro, o gaúcho.

Apesar da possibilidade de recuperações muito pontuais de preços na entressafra, cada vez mais os analistas indicam que sem um fenômeno mundial capaz de elevar significativamente (pelo menos 50 dólares/tonelada) as cotações do arroz tendem a ser baixas até o final do ano. Piorando à medida que uma grande safra se aproxima no Mercosul. Para um movimento positivo, diante do atual cenário, seria necessário que acontecesse uma quebra grave de safra nos grandes produtores e consumidores e redução dos estoques internacionais ou, internamente, presença do governo federal com mecanismos de apoio à exportação ou formação de estoques (um paliativo nem sempre eficiente). Ou uma mexida no câmbio, o que está descartado pelo momento político, com eleições para presidente, que vive o Brasil.

A redução de área não é viável, pois à medida que o Brasil reduzir sua presença na oferta de arroz, o Mercosul e terceiros países pressionarão ainda mais o mercado nacional, o mais atraente fora da Ásia. E com clima favorável, saindo de uma quebra de safra e com água disponível para irrigar, o produtor gaúcho deve ampliar a área em 10 a 13%, dependendo da fonte. No Rio Grande do Sul, chegou à Assembléia Legislativa um projeto de Lei do Governo do Estado retirando a incidência da taxa CDO sobre o arroz exportado que tenha como base a matéria-prima gaúcha. O percentual não chega a compensar a competitividade que a baixa do dólar retira do setor, mas já é alguma coisa.

MOVIMENTO

A partir do próximo sábado, 9/10, quando haverá a solenidade de Plantio da Lavoura Oficial do Arroz, em Camaquã, RS, as lideranças arrozeiras gaúchas se mobilizarão para formar uma tropa de choque para pressionar o governo federal à adoção de medidas de apoio à comercialização. Recursos para PEP, Pepro, PROP, AGFs e contratos de opção estão na pauta. Vale lembrar que o milho viveu uma situação semelhante até setembro, quando o alto volume de investimentos do governo federal em PEP viabilizou um salto nas exportações, enxugamento do mercado e valorização do produto. Lideranças setoriais e políticos eleitos ou com mandato em vigor, serão mobilizados para esse esforço junto às autoridades federais.

PREÇOS

A Corretora Mercado, de Porto Alegre, indica preços médios de R$ 25,80 para a saca de arroz de 50 quilos, em casca, no Rio Grande do Sul. A saca de arroz beneficiado em 60 quilos alcança 54,50. O farelo de arroz é mantido na faixa de R$ 230,00 a tonelada (FOB Arroio Grande/RS), enquanto a quirera é comercializada a R$ 22,50 (60kg). O canjicão se mantém valorizado em razão da demanda africana por quebrados, em R$ 29,50 (60kg/FOB Porto Alegre/RS). A área plantada no Rio Grande do Sul, aproveitando o tempo seco e quente dos últimos dias, é projetada em torno de 10%.
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Fonte: Planeta Arroz

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