Trigo: Governo argentino autoriza exportação só pelas cooperativas e provoca forte reação

Publicado em 02/08/2011 09:46 380 exibições
Armou-se um grande protesto de empresas depois que o governo anunciou que somente a AFA-Agricultores Federados Argentinos, vinculada à Federação Agrária, ACA-Associação de Cooperativas Agropecuárias, vinculada à Coninagro e um grupo cooperativo de Entre Rios receberam autorização para exportar as 450 mil toneladas de trigo liberadas na semana passada, deixando de fora todas as demais empresas, algumas tradicionais exportadoras e produtores independentes. A Bolsa de Comércio de Rosário convocou uma reunião urgente, na manhã desta segunda-feira, para discutir a situação.

Quando, no meio da semana passada, os ministros de Economia e de Agricultura anunciaram a ampliação das cotas (ROE) de exportação, ninguém no mercado esperava estas restrições quanto às empresas, até porque vários exportadores tinham comprado e armazenado o grão para esta finalidade, que agora lhes é tirada. A pouca esperança de que esta não fosse uma situação definitiva se desvaneceu e logo passou à indignação. Na quinta-feira à noite começaram a circular os primeiros rumores de que o governo daria à AFA e ACA todas as cotas. As fontes destas versões provinham de empresários do setor que haviam estado na reunião prévia ao anúncio que tiveram com o Secretário do Interior, Guillermo Moreno. Na sexta-feira, pela manhã, o Centro de Corretores de Cereais de Rosário começou a buscar confirmações e, ao meio dia, emitiu um comunicado informando “o mal estar e preocupação” pela decisão do governo, ressaltando que “este tipo de medidas não faz mais do que aprofundar as distorções que existem na comercialização, produto da intervenção estatal e atentam contra a atividade comercial”.

Segundo foi comunicado à imprensa, AFA e ACA receberam 350 mil toneladas para que realizem compras a seus associados de até 500 mil toneladas. E, depois de haver sido satisfeitas as necessidades de todos os produtores desta banda, poderiam comprar até 800 toneladas a outros produtores de trigo. As restantes 150 mil toneladas vão para um grupo de 9 cooperativas de Entre Rios, a pedido do governo desta província.

Com o comunicado do Centro de Corretores circulando, o assunto chegou ao resto da cadeia, como armazenistas, cerealistas e produtores e retumbou na Bolsa, caixa de ressonância do setor, que convocou uma reunião para analisar os passos a seguir.

A preocupação dos operadores é de que, sem grandes alardes, o governo continua avançando para uma nova configuração do negócio de grãos no país, conduzido somente por cooperativas e alguns grandes traders, sem lugar para as demais empresas.

O que dirão a Sociedade Rural e a CRA-Confederação Rural Argentina, ao verem que seus associados não poderão vender seu trigo para os exportadores? E a Federação Agrária, que estava preparando uma grande manifestação contra o governo, o que dirá depois de receber este benefício?

Começam a aparecer denúncias de compras anteriores por pessoal ligado aos atuais beneficiados, que teoricamente já sabiam do que iria acontecer. “Há muito dinheiro em jogo e a mente voa” diz o mercado. São mais de US$ 300 milhões. Ademais, cerca de 4,3 milhões de toneladas da safra 2010/11 estão ainda por comercializar na Argentina. Na província de Santa Fé, que tem poucos moinhos e onde a maior parte do trigo vai para cerealistas e comerciantes a impossibilidade de exportar causa grande estress financeiro, aumento de custos logísticos e crispa muito os ânimos. O risco é alto.

Entre as várias tentativas de explicação há, também, quem traga à baila a possibilidade de desunião entre as várias associações, que, enfraquecidas, não conseguem frear o avanço do governo nas suas medidas determinadas, de cunho populista, socialista e contra as grandes empresas. A iminência de eleições internas deixa também a atual diretoria da Bolsa e de algumas outras associações em situação delicada. Por outro lado, representantes de exportadores, que estiveram presentes à reunião que distribuiu estas cotas, não se opuseram à concessão às cooperativas. Isto indicaria o seu interesse em adquirir produto fora dos pregões transparentes das Bolsas e sem passar pelas cadeias tradicionais do comércio. Qual seria o seu real compromisso com o mercado?

Seria uma jogada do governo para calar os produtores e trazê-los para o seu lado? Ultimamente as grandes empresas exportadoras tem estado sob a mira da AFIP, espécie de Receita Federal Argentina, aparentemente um simples jogo de cena, porque, por outro lado, conseguem comprar trigo e milho entre 25 e 30 dólares mais barato, graças às políticas do governo.

Tags:
Fonte:
Trigo & Farinhas

0 comentário