Exportação de milho para China consolida agricultura do Brasil, diz consultor

Publicado em 08/04/2014 15:30 e atualizado em 08/04/2014 19:03 4696 exibições

Nesta terça-feira (8), a China anunciou a formalização de um acordo de importação de milho com o Brasil. O objetivo desse acordo seria, segundo autoridades, reduzir a dependência do produto vindo dos Estados Unidos, que é responsável pelo fornecimento de, aproximadamente, 90% do cereal que é comprado pela nação asiática. 

Para Liones Severo, consultor do SIM Consult, esse acordo era o que faltava para a consolidação da agricultura brasileira. "Agora podemos vender soja e milho para a China, o maior consumidor de alimentos do mundo, era isso que precisávamos para a agricultura brasileira se consolidar", disse.

A demanda chinesa pelo cereal aumentou, entre 2009 e 2013, cerca de 39 vezes. Para Severo, a China deverá se tornar, aos poucos, o maior importador mundial de milho - posto atualmente ocupado pelo Japão -, o que potencializa ainda mais o efeito desse acordo para a produção e o mercado brasileiros. 

Segundo informações da agência internacional Dow Jones Newswires, esse acordo foi assinado pela Associação Geral de Supervisão de Qualidade, Inspeção e Quarentena da China em 31 de março, após meses de preparação. A decisão mais demorada foi a de quais tipos de milho brasileiro seriam aceitáveis para a compra. 

Afinal, como explicou a agência Reuters, essa autorização para o grão do Brasil chega em mais um revés para as vendas dos Estados Unidos, depois que órgãos controladores recusaram aproximadamente 1 milhão de toneladas de uma variedade geneticamente modificada não aprovada pelo país. 

O volume de milho que será destinado à China, no entanto, ainda é incerto e, de acordo com Severo, dependerá de uma situação de mercado. Porém, o consultor do SIM Consult, já afirma que esse acordo abre um grande e promissor caminho para as exportações brasileiras. "O milho é o cereal mais consumido do mundo", diz. 

Severo explica que uma das maiores necessidades atuais dos chineses é a alta demanda pela ração animal, dado pelo aumento do consumo de proteína, o que acentua a procura por farelo de soja e, consequentemente, milho. Na produção de alimentação animal, para cada parte de farelo são necessárias quatro de milho. Com essa demanda extremamente aquecida, o temor é de que o gigante asiático passe por um déficit de milho.

Frente a isso, o consultor acredita ainda que essas informações estimularão um aumento da produção brasileira, principalmente com uma expansão da área de safrinha no Brasil, a qual recuou este ano por conta dos baixos preços praticados no mercado interno. "Com exportações para um grande tomador, os preços internos ficarão mais equalizados com o mercado internacional", acredita Liones Severo.

As importações de milho da China, no entanto, têm algumas cotas e que as detém é a estatal de grãos Cofco e, recentemente, como forma de ampliar seus negócios e também de garantir o abastecimento, a empresa adquiriu mais duas tradings, sendo 51% da holandesa Nidera, por US$ 1,2 bilhão, e formou uma joint venture com a Noble, por US$ 1,5 bilhão. 

Na Reuters: China autoriza importação de milho do Brasil em revés para EUA

A China autorizou importações de milho brasileiro com início neste mês, em mais um revés para as vendas dos Estados Unidos para o segundo maior consumidor do grão do mundo, já prejudicadas pela descoberta de um carregamento não aprovado com cepa modificada geneticamente. O milho do Brasil foi aprovado para importação a partir de 31 de março, disseram as autoridades chinesas de quarentena nesta terça-feira, em um comunicado em seu site. O governo do Brasil, segundo maior exportador de milho do mundo depois dos Estados Unidos, sinalizou o movimento no fim do ano passado, mas a data de início não havia sido revelada naquele momento.

Veja a notícia na íntegra no site da Reuters


Bloomberg: China aumenta produção e estoques de milho para atender demanda interna

Mesmo após colher quarto safras recordes consecutivas de milho e acumular o maior estoque desde 2002, a China continua incentivando o aumento da produção interna do cereal para atender a crescente demanda, de acordo com matéria publicada pela Bloomberg. 

O governo chinês continua comprando milho acima do preço de mercado e criando estoques que seriam suficientes para abastecer 28 países da União Europeia por um ano. Os estoques governamentais são estratégicos para a China, o país mais populoso do mundo, onde o uso de milho para alimentar gado, aves e suínos cresceu 44% nos últimos cinco anos, com o aumento do consumo de carne.           

“Nada se compara ao milho para dar estabilidade e um bom retorno financeiro”, afirma Zhang Fengyou, produtor que cultiva em uma área de 11 hectares em Baiwu, na província de Heilongjiang. Em 2009, a maior parte de sua terra era ocupada com soja. 

Produção interna em alta
Aumento da produção de milho na China frustrou as previsões de que o crescimento econômico e o aumento da demanda de carne faria o maior importador do grão a elevar os preços globais. Em vez disso, a autossuficiência chinesa aliviou a pressão da escalada do consumo mundial. 

Desde que os subsídios governamentais começaram em 2008, ano em que os preços de alimentos acompanhados pelas Nações Unidas alcançaram os maiores patamares da história, os produtores chineses aumentaram sua produção em 43%, colhendo um volume recorde de 217,7 milhões de toneladas em 2013, de acordo com o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).                

Antes do início das colheitas em setembro, os estoques chineses deverão alcançar os 72,2 milhões de toneladas, quase o dobro dos estoques dos Estados Unidos, de 37 milhões de toneladas, e quase o volume total de milho utilizado em um ano pela União Europeia, estimado em 73,5 milhões de toneladas. 

Governo paga mais 
O governo chinês pagou aos produtores de Heilongjiang o valor de 2,220 yuan (US$ 9,08 o bushel) pela tonelada de milho em 2013. Em 2008, o mesmo volume era comprador pelo governo por 1,480 yuan. 

O produtor Zhang Fengyou conta que ganhou 10,950 yuan (US$ 1.763,00) pelo hectare plantado em milho no ano passado, o dobro que ele consegue ganhar com a produção de soja. Zhang diz que guarda 30% de seu milho para criar 50 suínos.

“A China está colhendo muito mais milho do que esperava, então o governo compra o excesso, por isso as importações não estão sendo muito necessárias”, explica Li Qiang, presidente da empresa de pesquisas Shanghai JC Intelligence Co., que tem estudado o mercado agrícola chinês por 30 anos. Ele estima que o país irá continuar aumentando seus estoques de milho por pelo menos mais dois anos. 

Consumo de carne
Para se prevenir contra climas extremos, pragas e desastres naturais, o governo chinês determinou a produção de amplos estoques de grãos para sustentar seus rebanhos, que alimentam sua população em crescimento. A China terá 1,356 bilhões de habitantes este ano, ou seja, 19% da população mundial, de acordo com o Censo dos Estados Unidos. 

O aumento da renda per capita está estimulando uma maior demanda por proteína animal no país que duplicou sua economia em cinco anos e desbancou o Japão como a segunda maior economia em 2010. 

Em torno de 72% do milho da China será usado como ração animal este ano e o restante será usado para a produção de etanol, amidos e adoçantes. 

Suínos
A China já é o maior consumidor de carne suína no mundo, com um rebanho de 475,9 milhões de animais, ou seja, 6 em cada 10 suínos do mundo. A demanda interna por esta carne já aumentou 11% desde 2011, de acordo com o USDA. 

O país é o quarto maior consumidor de carne bovina, tem o terceiro maior rebanho de gado e é o segundo maior produtor de leite. Já no consumo de frango, os Estados Unidos ainda estão na frente da China. 

Proteção aos produtores
A Administração Estatal de Grãos, em 2009, informou que os estoques governamentais protegem os interesses de produtores e estabilizam os preços do mercado, que no ano passado caíram durante a crise financeira global.

No relatório de 2010, a agência informou que estava “construindo uma infraestrutura agrícola, aumentando a tecnologia, investimentos e promovendo o milho de alta qualidade e alta produtividade” ao aumentar o tamanho dos estoques. O relatório também informa que os estoques serão vendidos, eventualmente, com o preço de mercado. 

Estabilidade social 
“O governo chinês sempre viu a estabilidade do preços dos grãos como a base da estabilidade social no país, o que inclui o arroz, trigo e milho”, afirmou Feng Lichen, gerente geral da consultoria Yigu Information Ltd., baseada em Dalian.         

As políticas de formação de estoques para o arroz foram introduzidas pelo governo chinês em 2004 e para o trigo, em 2006. 

Com ajuda dos subsídios, a produção de milho aumentou no ano passado aumentou para um volume equivalente ao total importado pela China nos últimos seis anos. O USDA prevê a importação de 5 milhões de toneladas nos 12 meses que terminam em 31 de agosto, mas o volume comprador deve ser ainda maior, diante dos cancelamentos de cargos dos EUA, de acordo com Feng. 

Soja 
O cenário é diferente para a soja, que é vista pela China como menos estratégica que o arroz, trigo e o milho. As importações da oleaginosa, usada para a produção de ração, alimentos e óleo de cozinha já dobraram em seis anos, já que os processadores chineses se aproveitam dos preços baixos da soja do Brasil e dos Estados Unidos.

“A China não é tão eficiente na produção de soja quanto outros países”, afirmou Chen Xiwen, chefe do Grupo de Trabalho de Agricultura do Comitê Central do Partido Comunista. “É melhor aumentar nossas importações do que usar nossa terra para plantar soja, ao invés de investir em outra cultura com mais rendimentos”.     

As remunerações mais altas que o milho proporciona aos produtores estão possibilitando o aumento de investimentos em maquinário agrícola, fertilizantes e sementes de melhor qualidade, de acordo com Feng. A produção de milho na China teve avanços sem o uso de sementes geneticamente modificadas, como nos Estados Unidos.   

Informações: Bloomberg

Tradução: Fernanda Bellei

 

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Por:
Carla Mendes
Fonte:
Notícias Agrícolas

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