Preços do milho deverão subir no mercado pela alta nas exportações (por MAURO ZAFALON)

Publicado em 27/05/2016 17:51 e atualizado em 28/05/2016 09:29
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Mauro Zafalon é editor da coluna vaievem das commodities, na Folha de S. Paulo (edição deste sábado). (E +: Em semana positiva, preços acumulam altas de até 4% e consolidam nível dos US$ 4,00/bu na CBOT (por FERNANDA CUSTÓDIO, do NA)

Os consumidores de milho de Santa Catarina pagarão R$ 63 por saca do cereal importado em julho de 2017. Um anos depois, o produto poderá estar em R$ 71.

Exagero? Não, é o que indicavam os contratos futuros do cereal na Bolsa de Chicago e os do dólar na BM&FBovespa nesta semana.

Qualquer desvio para cima na taxa de câmbio ou nos preços de Chicago faz o valor das importações subir para R$ 80 ou até mais por saca.

Isso sem pensar em uma eventual quebra de safra em um dos grandes produtores mundiais, entre eles Estados Unidos e Brasil.

"Esse é um cenário com base em premissas de mercado de maio de 2016. Se tudo se mantiver constante como apontam os dados atuais, o consumidor de milho enfrentará anos difíceis em 2017 e 2018." Em julho deste ano, os preços deverão estar em R$ 57 por saca.

TRANSFORMAÇÃO

A advertência é de Anderson Galvão, da consultoria Céleres, de Uberlândia (MG). Há quatro safras que o país produz mais de 80 milhões de toneladas de milho por ano, mas o setor está passando por uma transformação na estrutura de mercado.

A tranquilidade de sempre no abastecimento interno cede lugar às exportações. Novas rotas de escoamento por Norte e Nordeste e a boa aceitação do milho brasileiro pelo mercado externo vão dificultar o abastecimento no Sul e no Sudeste, diz Galvão.

A indústria vai sair da posição confortável de abastecimento que tinha e, se quiser dispor desse produto, terá de atuar com o produtor, desenvolvendo contratos de compra, programas de troca e financiando o setor. "Deverá fazer o papel das tradings", afirma Galvão.

Os consumidores de milho terão de convencer os produtores de que, além do plantio na safra de inverno, poderão ter ganhos substituindo áreas de soja por milho no verão.

Até os anos 1990, a produção de milho vinha praticamente da safra de verão. Hoje, representa apenas 35% da produção nacional.

Parafraseando o ex-presidente João Figueiredo, Galvão diz que a indústria deverá dizer ao campo: "Plante que a indústria garante".

O Brasil é o único país que pode aumentar a área de milho sem comprometer a de outras commodities.

Portanto, a saída tem de ser por maior produção. "A pior coisa seria a adoção de medidas restritivas à exportação", diz Galvão.

"Afinal, o país só chegou a esse patamar elevado graças às exportações", acrescenta.

Produtores e indústrias têm de se conscientizar da necessidade de maior oferta de milho. Do lado do produtor, a rotação de cultura elevaria a produtividade da soja, estacionada devido a problemas de solo e de pragas vindas da utilização da mesma cultura por vários anos.

Já a indústria, principalmente a de carnes, sem oferta e preços razoáveis de milho, vai perder competitividade, um dos diferenciais do país no mercado externo.

A elevação do custo da carne vai afetar não só as exportações como o consumo interno. Os pequenos granjeiros vão ter forte elevação de custos e podem sair do mercado.

O mesmo pode ocorrer com produtores de leite, um produto praticamente consumido no mercado interno.

Eles terão aumento dos custos na produção, sem uma compensação monetária no mercado interno.

INFLAÇÃO

A falta de um bom planejamento na produção de milho vai se espalhar também pela inflação, devido à elevação dos preços pagos pelos consumidores.

Galvão diz que, se bem planejada a produção, o milho poderá ocupar parte da área de soja no verão. Esta vai para as áreas de pastagens.

Em algumas regiões do Paraná, por exemplo, a renda com milho já supera a da soja no verão, diz ele.

As novas tecnologias do milho fazem com que o produto tenha um rendimento agronômico melhor. Ao término de uma safra de soja, pode ter havido até nove pulverizações de agroquímicos. No caso do milho, são de três a quatro, segundo ele.

Está na hora de o setor privado consumidor assumir as rédeas dessa produção. Com deficit de R$ 170 bilhões, o governo não terá dinheiro para subsidiar programas de escoamento como fazia.

A indústria tem hoje os problemas que o produtor tinha há alguns anos: custos em dólar e receitas em reais. 

 Em semana positiva, preços acumulam altas de até 4% e consolidam nível dos US$ 4,00/bu na CBOT (por FERNANDA CUSTÓDIO, do NA)

Nesta sexta-feira (27), os futuros do milho negociados na Bolsa de Chicago (CBOT) ampliaram os ganhos e encerraram o dia com altas entre 3,50 e 4,50 pontos. O vencimento julho/16 era cotado a US$ 4,12 por bushel, enquanto o dezembro/16 era negociado a US$ 4,13 por bushel. Ao longo da semana, as principais posições da commodity consolidaram o patamar dos US$ 4,00 por bushel e acumularam valorizações entre 3,32% e 4,63%, conforme levantamento realizado pelo economista do Notícias Agrícolas, André Bitencourt Lopes.

Nos últimos dias, as cotações do cereal foram alavancadas, principalmente pelas notícias vindas do lado da demanda. A cada semana, o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) tem mostrado números fortes dos embarques e vendas semanais. Na última segunda-feira (23), os embarques do cereal foram estimados em 1.076,464 milhão de toneladas e, nesta quinta-feira (26), as vendas totalizaram 1.627,3 milhão de toneladas.

Paralelamente, o departamento também tem informado novas vendas do cereal para outros países. Essa semana, o órgão divulgou a venda de 253 mil toneladas do grão, das quais, 130 mil toneladas para Taiwan e o restante, de 123 mil toneladas, para destinos desconhecidos. Hoje, o órgão reportou a venda de 130 mil toneladas do cereal para destinos desconhecidos, com entrega na temporada 2015/16. Mais cedo, o USDA informou que o comprador teria sido a China, porém, durante o dia, o departamento corrigiu para destinos desconhecidos.

Ainda hoje, as cotações trabalharam bem próximas da estabilidade em parte do dia, uma vez que os investidores já se posicionavam frente ao final de semana prolongado nos Estados Unidos. Isso porque, na próxima segunda-feira (30), não haverá negócios em Chicago em virtude do feriado do Memorial Day. As negociações serão retomadas na terça-feira (31).

Além disso, os participantes do mercado também estavam ansiosos em relação ao anúncio da presidente do Federal Reserve, banco central norte-americano, Janet Yellen, sobre um possível aumento da taxa de juros no país. A líder reforçou que as chances são grandes de aumento na taxa de juros entre os meses de junho ou julho.

"É apropriado... que o Fed gradualmente e cautelosamente eleve nossa taxa básica de juros ao longo do tempo e provavelmente nos próximos meses esse movimento será apropriado", disse Janet, em entrevista à agência de notícias Reuters.

Safra dos Estados Unidos

Enquanto isso, os investidores também acompanham de perto a evolução dos trabalhos nos campos norte-americanos e as previsões climáticas. "O rali registrado no milho hoje ganhou mais impulso após a divulgação de novos modelos climáticos indicando mais chuvas para os próximos dias, reduzindo chances para o plantio no final do Corn Belt ocidental. Muitas áreas nos estados do Kansas e de Nebraska ainda precisam ser cultivados", disse Bob Burgdorfer, analista e editor do portal Farm Futures.

A semeadura do cereal já estava completa em 86% da área esperada para essa temporada até o último domingo, conforme dados levantados pelo USDA. As informações serão atualizadas na próxima semana, em novo boletim de acompanhamento de safras do órgão. É preciso ressaltar que, os produtores norte-americanos têm até o dia 5 de junho para finalizar o plantio do cereal dentro da janela e do seguro agrícola.

Mercado interno

No mercado brasileiro, a semana foi mais movimentada com variações nos preços nas principais praças pesquisadas pelo Notícias Agrícolas e negócios ainda lentos. Em Sorriso (MT), a alta semanal foi de 9,09%, com a saca do milho negociada a R$ 36,00, já em Itapeva (SP), a valorização ficou em 3,17% e a saca fechou a sexta-feira a R$ 47,87. Já nas praças de Ubiratã, Londrina e Cascavel, ambas no Paraná, o ganho foi de 1,25% e a saca cotada a R$ 40,50.

Na região de Não-me-toque (RS), a alta ficou em 2,22% e a saca a R4 46,00, em Panambi, também no estado gaúcho, a saca encerrou a semana a R$ 46,02 e ganho de 2,27%. No Porto de Paranaguá, a semana também foi positiva, já que a cotação subiu 4,17% e a saca ficou em R$ 37,50.

Em contrapartida, o preço caiu 8,17% na região de Araçatuba (SP) e o valor ficou em R$ 43,96 a saca. Em Assis e Avaré, também no estado paulista, as cotações recuaram 5,15% e 2,09%, já os preços ficaram em R$ 44,94 e R$ 45,91 a saca, respectivamente. Em Tangará da Serra e Campo Novo do Parecis, no Mato Grosso, a queda foi de 2,86% e a saca cotada a R$ 34,00. Nas demais praças pesquisadas a semana foi de estabilidade aos preços.

Apesar do início da colheita, nos principais estados produtores como Mato Grosso e Paraná os trabalhos nos campos já começaram, os analistas ponderam que ainda não foi o suficiente para pressionar as cotações. A baixa disponibilidade do cereal no mercado interno permanece, o que tem mantido as cotações valorizadas e elevado as importações do cereal.

No acumulado entre janeiro e abril de 2016, as importações de milho já totalizam 243,65 mil toneladas, conforme dados divulgados pela Secex (Secretaria de Comércio Exterior). Do total adquirido, em torno de 123,74 mil toneladas tem como origem o Paraguai e, o restante é da Argentina. A situação é tão grave que essa semana, o o Ciep (Conselho Interministerial de Estoques Públicos de Alimentos) aprovou a venda em balcão de 160 mil toneladas de milho, com o limite mensal de seis toneladas por produtor rural. A medida foi reportada no Diário Oficial da União.

Atualmente, os estoques públicos de milho somam pouco mais de 902 mil toneladas, de acordo com dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). O volume é bem menor do que o consumo mensal do país, de 4,5 milhões de toneladas, conforme destacam os analistas. Porém, apesar das perdas observadas na safrinha devido ao clima seco de abril, os analistas ponderam que a entrada da safra no mercado tende a acomodar as cotações em patamares mais baixos do que os praticados nesse momento.

Ainda nesta sexta-feira, a Safras & Mercado estimou a safrinha brasileira em 52,1 milhões de toneladas nesta temporada. O número está abaixo do colhido na última safra, 2014/15, de 56,2 milhões de toneladas, conforme projetou a consultoria.

BM&F Bovespa

Na BM&F Bovespa, a sexta-feira também foi positiva aos preços do milho. As principais posições da commodity subiram mais de 1%. O vencimento julho/16 era cotado a R$ 46,15 a saca, já o setembro/16, referência para a safrinha, era negociado a R$ 43,65 e ganho de 1,46%.

Além do quadro fundamental já conhecido, as cotações também encontram sustentação no dólar. Por sua vez, a moeda norte-americana fechou o dia a R$ 3,6110 na venda, com alta de 0,38%. A movimentação foi decorrente das apostas por parte dos operadores de que o Federal Reserve irá aumentar a taxa de juros nos EUA, provavelmente, em junho, segundo informou a Reuters.

Confira como fecharam os preços nesta sexta-feira:

>> MILHO

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Por: Fernanda Custódio
Fonte: Notícias Agrícolas + Folha

1 comentário

  • jose renato da silva Uberlândia - MG

    Anderson Galvão, foi brilhante e muito consciente o seu comentário...

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