O dia que o canto Va Pensiero, da ópera Nabucco, alertou a população italiana sobre a política de seu país

Publicado em 20/01/2012 06:51 e atualizado em 08/03/2020 08:59 2137 exibições
No dia 12 de Março de 2011, Silvio Berlusconi, quisesse ou não, teve que encarar a realidade. No Teatro dell'Opera di Roma se apresentava a ópera Nabucco, de Giuseppe Verdi, dirigida pelo maestro Riccardo Muti.

Como muitos sabem, Nabucco evoca o episódio da escravidão dos judeus na Babilônia, e o famoso canto "Va pensiero" é o canto do coro dos escravos oprimidos.

Na Itália, este canto é também o símbolo da busca da liberdade (nos anos em que a ópera foi escrita, a Itália estava dominada pelo império dos Habsburgo).

Antes da representação, Gianni Alemanno, prefeito de Roma, subiu ao palco para pronunciar um discurso no qual denunciava os cortes do orçamento de Cultura que estava fazendo o Governo, apesar de Alemanno ser membro do partido governante e ter sido ministro do governo de Berlusconi.

Esta intervenção, na presença de Berlusconi que assistia à apresentação, produz um efeito inesperado. Riccardo Muti, diretor da orquesta, declarou ao "Times": "A ópera transcorreu normalmente até que chegamos ao famoso canto "Va pensiero". Imediatamente senti que o público estava tenso. Tem coisas que não se pode descrever, mas que se sente. Era o silêncio do público que se fazia sentir até então, mas quando começou o "Va Pensiero", o silêncio se encheu de um verdadeiro fervor. Podia-se sentir a reação do público diante do lamento dos escravos que cantam: "Oh pátria minha, tão bela e tão perdida."

Quando o coro chegava ao seu final, o público começou a pedir bis, enquanto gritava "Viva Italia" e "Viva Verdi". Muti em geral não gosta de fazer um bis no meio de uma apresentação. Somente numa ocasião, no Scala de Milão, em 1986, havia aceitado fazer um bis do "Va pensiero". "Eu não queria somente fazer um bis. Tinha que haver uma intenção especial para fazê-lo" - disse Mutti.

Num gesto teatral, Muti se voltou, olhou a platéia e Berlusconi, e alguém da platéia gritou: "Longa vida à Italia!".

Muti disse então: "Sim, estou de acordo: "Longa vida à Italia", mas eu já tenho 30 anos, já vivi a minha vida como italiano e percorri muito deste mundo.

Hoje sinto vergonha do que acontece no meu país. Atendo, pois, ao vosso pedido de um bis do "Va Pensiero". Não é somente pela alegria patriótica que sinto, mas porque esta noite, quando conduzia o coro que cantou "Ai meu país, belo e perdido" , pensei que se continuamos assim vamos matar a cultura sobre a qual se construiu a história da Itália”. Nesse caso, nossa pátria estaria realmente "bela e perdida".

Muitos aplausos, inclusive dos artistas no palco.

Muti prosseguiu. "Eu me calei durante muitos anos. Agora deveríamos dar sentido a este canto. Eu lhes proponho que se unam ao coro e que cantemos todos o "Va pensiero". Todo o público se colocou de pé. E o coro também. Foi um momento mágico.

No link a seguir se pode viver este momento mágico, cheio de emoção:

>> Va Pensiero - Ricardo Muti, diretor da orquestra, fala sobre o momento (em italiano)

Fonte:
Henrique de Souza Dias

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