Emprego: "Vai piorar; as empresas esperavam as eleições para demitir", diz Mendonça de Barros

Publicado em 02/11/2014 06:22 672 exibições
JR Mendonça de Barros: "... Os desequilíbrios estão em todas as frentes: fiscal, inflação, crescimento, energia elétrica, petróleo, etanol". (na FOLHA DE S. PAULO DESTE DOMINGO)

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS

Brasil já gastou todas as fichas de seu crescimento

PARA ECONOMISTA LIGADO AOS TUCANOS, GOVERNO ESTÁ PRESO AO DILEMA DE TER QUE FAZER AJUSTE DURO PARA RECUPERAR CONFIANÇA

RAQUEL LANDIMDE SÃO PAULO

A presidente reeleita, Dilma Rousseff, está presa em um dilema: se quiser recuperar a credibilidade de seu governo, será obrigada a um forte ajuste fiscal, com chances de provocar uma recessão.

A avaliação é de José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados, ex-secretário de Política Econômica do governo FHC e um dos conselheiros do candidato derrotado do PSDB à Presidência, Aécio Neves.

"É exatamente o contrário do discurso eleitoral que dizia que o ajuste recessivo seria feito pela oposição."

Para Mendonça de Barros, as chances de o Brasil perder o grau de investimento "não são desprezíveis", o que vai afugentar ainda mais os investimentos, comprometendo a capacidade de crescimento da economia.

"O Brasil não está preparado para crescer. Gastaram-se todas as fichas", afirma.

Folha - Quais serão os desafios do próximo governo da presidente Dilma?

José Roberto Mendonça de Barros - Antes de discutir o segundo mandato, temos de falar de 2014, que ainda não terminou. Tenho convicção de que o desempenho será pior que o projetado. A falta d'água e o aumento do preço da energia vão derrubar o PIB. O consumo industrial de energia elétrica caiu 5%.

Nos últimos 12 meses, a indústria perdeu 120 mil vagas. Vai piorar porque muitas empresas estavam esperando as eleições para demitir.

O investimento está cada vez mais fraco. Estamos projetando queda de 8% neste ano. Os desequilíbrios estão em todas as frentes: fiscal, inflação, crescimento, energia elétrica, petróleo, etanol.

A capacidade de crescer está comprometida. Em qualquer cenário, vamos crescer pouco no ano que vem. Projetamos alta de 0,5% do PIB.

Os analistas estão preocupados com a capacidade do governo de recuperar a credibilidade. Qual é a sua opinião?

A retomada do investimento tem que começar pelo ganho de credibilidade. A tarefa de construir reputação é difícil e vai muito além de uma pequena alta de juros ou de um novo ministro da Fazenda. As empresas, especialmente as multinacionais, serão iguais a são Tomé: vão precisar ver para crer.

Se o governo ganhar credibilidade, o investimento deslancha?

Várias empresas estão tendo resultados piores neste ano. Quando começou a ficar claro que 2014 seria um ano muito fraco, muitas decisões de investimento já tinham sido tomadas em 2013.

O que aconteceu ao longo deste ano? Todos os custos subiram e as vendas não cresceram, derrubando o lucro enquanto o endividamento subia. Algumas empresas já estão em fase de perda patrimonial; vão ter que estar muito confiantes sobre o futuro para voltar a investir.

Dilma prometeu na campanha que o ajuste da economia seria gradual. E possível?

É o que deveria ser feito. Mas, quanto menor a credibilidade, mais curto tem que ser o ajuste. Exatamente o oposto do discurso eleitoral que dizia que a oposição faria um ajuste recessivo. O governo hoje tem um dilema: precisa de um ganho rápido de credibilidade, mas isso exige um ajuste brutal. Não sei que solução vai ter, mas eles estão presos nesse dilema.

O maior equívoco da discussão política é que o Brasil está pronto para crescer. Não é verdade. O consumidor está endividado, o investimento parou, perdemos competitividade no exterior e as finanças públicas estão um caos.

Qual vai ser a fonte de crescimento? Gastaram-se todas as fichas. Por isso, a eleição foi tão apertada.

Quanto tempo o governo tem para convencer o mercado?

No curto prazo, estamos aguardando o novo ministro. Mas isso movimenta o jogo de rouba-monte do merca- do financeiro; não é o mais importante. O jogo principal é se as empresas vão voltar a investir. São quatro anos de piora de expectativas, e isso não muda de uma hora para outra.

No fim do primeiro semestre do ano que vem, as empresas vão se perguntar: mudou o modelo de crescimento ou continua o intervencionismo? Se a avaliação for que o modelo mudou, pode ser que o investimento volte. Eu não acredito que vá mudar.

Por quê?

A percepção do centro do poder é que a reeleição ratifica que o caminho está certo. As mudanças serão táticas: controlar um pouco o gasto, aumentar a taxa Selic em 0,5 ponto percentual. Isso não é mudança de concepção da economia.

Se o desemprego subir, o governo muda a política?

O emprego não vai cair de uma hora para outra, mas escorregar devagarinho porque menos gente está procurando trabalho. O que é capaz de romper esse ciclo? Investimento.

Um ajuste fiscal hoje exige aumento de carga tributária?

Muita gente acha que sim. Eu não acredito em um ajuste fiscal de verdade.

Qual é a chance de as agências de rating rebaixarem o Brasil? Caso ocorra, quais serão as consequências?

Não é desprezível. O ano que vem já é um ano perdido. O que está em jogo é o desempenho da economia em 2016. Se perdemos o grau de investimento, vamos continuar sem crescer. As multinacionais vão investir em outros países. Dificilmente fecharão fábricas, mas não vão investir aqui. Não será uma fuga de capitais, mas sofreremos um redução no acréscimo de capital.

Fonte:
Folha de S. Paulo

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