Lula voltou?, por Juan Árias, no EL PAÍS

Publicado em 09/11/2014 07:35 e atualizado em 13/11/2014 11:17 933 exibições
Dilma vai aceitar desta vez ser João Batista, o precursor da chegada do novo Messias anunciado pelos profetas?

O slogan “Volta Lula” se apagou com as eleições. Não voltou. Seja porque ele não quis ou porque Dilma Rousseff não deixou que voltasse, não importa. Dilma voltou a ser presidente, mas Lula da Silva também voltou e está mais ativo do que nunca até na formação do novo Governo, pelo menos em seus ministérios chaves.

Com poucas coisas se especulou tanto na política quanto com as relações nos últimos quatro anos entre Dilma e seu criador. Uma coisa é certa: o ex-presidente não parece feliz, segundo seus colaboradores mais próximos, com tantas notícias negativas tanto na economia quanto nas relações entre o Governo e o Congresso; entre a presidenta e os empresários, entre ela e os aliados, sobretudo com o centrista PMDB. E com a imagem negativa que, justa ou injustamente, seu partido projeta para metade da sociedade.

É conhecido o estilo de Lula de fazer política, pragmático, negociador e não ideológico, e sua capacidade de metamorfose para se adaptar às circunstâncias (como ele mesmo destacou de seu caráter), é lógico que às vezes choque com o estilo bem diferente de sua criatura, menos contemporizador, mais direto, às vezes até duro e exigente, e sem muito espaço nem vontade de negociar muito. E mais ideológico. Dilma é de esquerda. Lula é, simplesmente, sindicalista.

Existe nos meios políticos muita curiosidade por conhecer até que ponto Lula será capaz de convencer Dilma a aceitar um novo caminho traçado por ele para enfrentar a crise econômica que aperta o país.

Saberemos logo. O melhor espelho será a indicação do novo ministro da Fazenda. Será alguém à imagem e semelhança dela a quem deverá obedecer, goste ou não, ou levará a marca de Lula, mais liberal e independente, mais parecido com o que teria escolhido a oposição se tivesse ganhando as eleições? É importante, porque as decisões mais importantes que o novo Governo deverá tomar serão em matéria de economia e poderiam, com cortes inevitáveis de gastos e aumento dos serviços públicos, prejudicar momentaneamente os interesses das classes mais necessitadas.

Lula conseguirá, além disso, convencer o PMDB a não abandonar o barco de Dilma? Do jeito que estão as coisas, tudo faz pensar que só ele conseguiria isso.

E o PT? Aí Lula deverá colocar em ação o melhor de seu estilo conciliador porque em seu partido as águas também estão alvoroçadas. Estão aqueles que querem arrastar o partido para a esquerda, com o objetivo de poder prescindir o antes possível do PMDB, visto como mais de direita do que talvez seja na realidade. Alguma vez, por acaso, esse partido investiu contra a liberdade de imprensa?

Será esse desejo do PT de girar à esquerda a tática de Lula, que sempre se sentiu muito bem com seus aliados mais conservadores?

Seria melhor começar a aceitar que Lula já voltou e que já é candidato para 2018. Melhor para Dilma que, não tendo que se preocupar em assegurar sua reeleição, tampouco precisa se diferenciar tanto da política de Lula (que, como todos sabem, de um modo ou de outro, continuará sendo influente, pelo simples fato de que o PT é ele. Goste ou não.) Volta a antiga frase de que Lula não existiria sem o PT, assim como este tampouco seria nada sem Lula. Menos ainda, contra ele.

De Dilma Rousseff já se sabe que não nasceu no partido do ex-sindicalista, que nunca teve cargo nem influência nele a não ser pelo fato de ter sido a candidata escolhida. Por Lula, mais que pelo partido. Por isso chegou-se a falar de dilmismo em contraposição ao lulismo. Ela acaba de dizer: “Eu não sou o PT”, e é verdade.

A política do PT está em um labirinto. Quer continuar no poder pelo menos outros 12 anos para cumprir um ciclo de 1/4 de século de Governo popular. Vai conseguir sem Lula ou contra ele? O PT tem hoje algum candidato, além de Lula, capaz de fazer com que continue no poder? Hoje não funcionam mais nem os candidatos propostos pelo ex-presidente. Continuará, além disso, crescendo e se afirmando a nova oposição nos próximos quatro anos? E alguém é capaz de profetizar o papel, talvez fundamental, das redes sociais na futura política do país? Dilma será capaz de domesticá-las, como parece ser seu projeto?

Lula já manifestou desejos de dar uma virada no partido. Não pôde deixar de ver que, ao contrário do sucesso que esperava no novo Congresso, o PT chegou diminuído e com menos força. Sabe que o PT não entusiasma mais os jovens como antes e que os chamados movimentos sociais têm dificuldade de arrastar seus membros para a rua, que começa a ser ocupada também pelas classes médias, menos simpáticas ao PT. Pesam os escândalos de corrupção, ou como já afirmou o próprio Lula, o fato de que o PT se transformou em um partido “como os demais”, enquanto ele o havia concebido diferente, mais ético.

O mais urgente hoje para Lula é devolver ao PT sua força perdida, força que, segundo ele, se manifesta sobretudo na rua, não nas experiências de laboratório.

Um alto personagem político me assegura que o PT já “perdeu sua virgindade”, enquanto que a oposição afirma que o Brasil “perdeu o medo do PT”. O que isso significa?

Lula terá que atuar em duas frentes que não pode separar: primeiro, assegurar que Dilma Rousseff não chegue muito mal posicionada daqui a quatro anos, em sua viagem pelas águas agitadas da crise que caracterizará seu segundo mandato, para que seja mais fácil para ele sua última aventura eleitoral em 2018. Segundo, intervir no PT para que isso seja possível.

E, claro, contar, por fim, com a benevolência de sua criatura, hoje com o poder presidencial nas mãos. Ela vai aceitar exercer o papel do precursor João Batista e preparar o caminho ao Messias anunciado pelos profetas? Difícil saber. O Brasil parece estar em busca de uma nova identidade. Segundo o sociólogo francês Michel Maffesoli, em sua entrevista de hoje no jornal O Globo, seria um país que, sem saber, “está entrando pelo caminho da pós-modernidade”.

Os políticos saberão disso ou preferem não acreditar, desejosos de que tudo continue igual?

Melhor um Brasil enfurecido do que deprimido

A fome volta ao país enquanto a corrupção cresce, semeando de vítimas o mundo político e empresarial

 

Um perigo espreita o Brasil: o de cair em depressão, agoniado por tantas noticias negativas. Não é fácil, efetivamente, passar da euforia de um país encantado consigo mesmo, invejado no exterior, que havia deixado de ser o eterno país do futuro a descobrir-se de repente andando de marcha à ré.

Não é psicologicamente saudável para os brasileiros ler que, pela primeira vez em dez anos, cresce o número de miseráveis, que já atinge dez milhões, enquanto uma empresa como a Petrobras se vê supostamente saqueada em 10 bilhões de reais.É melhor a depressão ou a ira como remédio contra os demônios que parecem ter se apoderado do país e que as eleições em vez de apaziguar ressuscitaram com maior força?

A fome volta ao Brasil enquanto a corrupção cresce, semeando de vítimas o mundo político e empresarial. Quanta miséria se poderia aliviar com o fruto de tantas ilegalidades perpetradas por quem deveria zelar pelas riquezas do país?

Se até ontem amigos espanhóis me escreviam, desejosos de vir para cá porque o Brasil estava se tornando a Meca da esperança e das oportunidades, dói ler hoje que há brasileiros com vontade de ir viver no exterior porque se sentem decepcionados e deprimidos.

Dói ver que nossas cidades são cada dia mais violentas. A Globo News apresentou dias atrás uma reportagem que me encheu de profunda tristeza. Filmou –no centro do Rio de Janeiro– cidadãos sendo assaltados por quadrilhas de 15 ou 20 adolescentes, com facas nas mãos, enquanto esperavam o ônibus para ir ou voltar do trabalho.

Melhor a irritação, o desabafo, a vontade de ser protagonistas do que o silêncio cúmplice

Homens e mulheres corriam atemorizados; alguns chegaram a enfrentar os assaltantes. Muitos, como eles mesmos contaram, decidiram esperar o ônibus nos dias seguintes não mais no lugar de parada, mas dentro das lojas que ficam em frente, meio escondidos, para se proteger melhor.

Era gente comum, que não tem carro, que já sofre horas para ir e voltar do trabalho esmagada dentro de ônibus velhos e incômodos. Como se não bastassem os assaltos dentro dos ônibus, agora os passageiros têm de se proteger contra a violência enquanto esperam na rua. E isso no centro da “Cidade maravilhosa”, que o é até nos deixar mudos de tanta beleza. Maravilhosa e violenta.

A reportagem contava que nas últimas semanas a polícia havia detido mais de 400 adolescentes assaltantes. Para fazer o que com eles? Para enterrá-los em um sistema penitenciário cujo ministro responsável confessou que preferiria ser condenado à pena de morte a viver em uma das prisões do Brasil?

Essa historia não foi uma digressão na minha análise. Quis recordá-la como emblemática desse desencanto de tantos cidadãos de bem, que trabalham e se sacrificam para que o país cresça e progrida e têm de viver acossados pela violência de quadrilhas de adolescentes sem presente e sem futuro.

Se até ontem o Brasil parecia um trem de alta velocidade a caminho de uma nova primavera de prosperidade e até de modernidade, hoje, à vista dos índices cada dia mais negativos em todos os aspectos, dos econômicos aos sociais, parece, pelo contrário, um trem que começa a andar de marcha à ré em direção a uma via morta.

Os psicólogos e sociólogos se esforçam para ver nessa crise a etimologia da palavra chinesa “oportunidade”. O governo explica que nunca foi tão vistosa a plaga da corrupção porque, em vez de escondê-la sob o tapete, hoje se combate e se investiga. A nova oposição derrotada nas urnas, mas dotada da força conferida por 51 milhões de votos, prefere pensar que o Brasil “despertou” de sua letargia de conformismo e de atávica passividade e agora quer fazer ouvir sua voz e seu protesto.

Tudo menos se deixar morder pela depressão que nos despoja até da vontade de respirar

O momento é crítico, tanto na acepção portuguesa como na chinesa da palavra. A crise é real. O desencanto é não só visível, mas até palpável. É notado na pele irritada dos cidadãos.

E pode ser também uma oportunidade para que, juntos, os brasileiros não se conformem com o que já foi conseguido. Aguilhoados pela realidade dolorosa de que as coisas em vez de melhorar parecem começar a murchar, é possível e desejável que transformem a crise em uma nova onda de oportunidades.

Nesse sentido, melhor a ira, no bom sentido da palavra, ou seja, o inconformismo em relação ao que não funciona, a luta para melhorá-lo, a determinação de exigir satisfações dos responsáveis políticos do governo e da oposição. Melhor isso do que se deixar escorregar na depressão, que costuma ser tantas vezes a porta do suicídio.

Melhor a irritação, o desabafo, o grito de protesto, a vontade de ser protagonistas da própria história do que o silêncio cúmplice da passividade que até ontem os brasileiros comuns, os que acreditavam não ter poder, haviam esculpido triste e graficamente com a frase: “Fazer o quê?”.

A resignação aceita como fatalismo costuma desembocar no fracasso. A vontade de se empenhar para mudar as coisas é, ao contrário, a antessala da esperança que se nega a morrer.

Sim, é melhor a ira do que a depressão. Para todos, mas principalmente para os brasileiros que deixariam de sê-lo no dia que renunciassem a poder desfrutar de seus pequenos ou grandes espaços de felicidade.

Tudo menos se deixar morder pela depressão que nos despoja até da vontade de respirar.

Fonte:
EL PAÍS

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

0 comentário