Com "esquenta", manifestantes já marcam data de novo grande protesto: 13 de março

Publicado em 14/12/2015 07:48

O "esquenta" dos protestos a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff reuniu neste domingo manifestantes em pelo menos dez capitais, além do Distrito Federal. O objetivo de organizadores como o Vem pra Rua e o Movimento Brasil Livre (MBL) foi utilizar os atos como um preparativo para manifestações maiores.

Os movimentos anunciaram a data do próximo ato: 13 de março de 2016. "Se a Dilma não cair até lá, nós vamos derrubá-la em março do ano que vem", bradava Marcello Reis, líder do Revoltados Online, de cima do carro de som na Avenida Paulista, em São Paulo. O objetivo dos grupos é conseguir uma mobilização do mesmo tamanho da do último dia 15 de março, que levou mais de 2 milhões de pessoas às ruas de todo o Brasil. "Vamos juntar milhões. Por isso começamos a divulgar desde já".

A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo informou que 36.500 pessoas participaram de manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff no Estado de São Paulo - 30.000 somente na capital. Alguns políticos da oposição circularam pelo ato em São Paulo e foram bastante tietados pelos manifestantes. Foi o caso do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), que chegou a discursar no carro do Vem Pra Rua: "Eu estou aqui pra dizer que não vai ter golpe, mas o impeachment. A crise tem nome e sobrenome: Dilma Rousseff", disse ele. Além do senador, o secretário de Desenvolvimento Social do governo de São Paulo, Floriano Pesaro, e o pré-candidato à prefeitura da capital João Doria Jr também compareceram à manifestação.

O senador José Serra também marcou presença e discursou no palanque do Vem pra Rua. "Eu acredito que todos vocês vão tirar o Brasil dessa situação. No Congresso, nós estamos lutando pela mesma coisa", disse. O senador foi anunciado como um dos "políticos mais queridos dos paulistanos". Alguns minutos depois, falou o também tucano João Doria Jr: "Não falo aqui como pré-candidato a prefeito, mas como cidadão brasileiro. O Brasil não aguenta mais tanta corrupção e sem vergonhice".

Além dos tucanos, o senador Ronaldo Caiado (DEM) também esteve no protesto na Avenida Paulista. Ele foi bastante assediado pelos manifestantes, que se empurravam com os seguranças do parlamentar para conseguir uma selfie com ele. "Ele é o nosso grande líder no Senado", exclamou um dos porta-vozes do Acorda Brasil quando Caiado passou próximo ao carro de som do grupo.

Delegados da Polícia Federal também discursaram no trio elétrico do Vem pra Rua. "A Lava Jato é um patrimônio do povo brasileiro", gritou um deles. Os manifestantes, por sua vez, exibiam cartazes e camisetas de apoio ao juiz federal Sérgio Moro, que conduz a Lava Jato na primeira instância. "Somos do PSM - Partido Sérgio Moro", dizia uma das cartolinas. Outros participantes do ato vestiam a máscara do agente Newton Ishii, conhecido como o "japonês da PF".

No carro do Vem Pra Rua, ainda discursaram os juristas Miguel Reale Junior e Hélio Bicudo, que assinaram o pedido de impeachment da presidente acolhido pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), no último dia 8. O Brasil não pode permanecer nas mãos do PT. Lula, você não é dono do Brasil. O Brasil é nosso. Na boca do povo, só há uma palavra: impeachment", exclamou Bicudo, inflamando o público que o ouvia.

Os manifestantes já foram às ruas em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Belém, Maceió, Florianópolis, Porto Alegre, Macapá e Ribeirão Preto, entre outras cidades. A maior parte dos protestos até agora reuniu na casa de milhares de pessoas, número menor do que nos atos anteriores. Os eventos deste domingo foram convocados às pressas, depois que Cunha acolheu o pedido de impeachment.

Manifestação anti-Dilma em SP reuniu 40,3 mil pessoas, mostra Datafolha

RICARDO MENDONÇA, EDITOR-ADJUNTO DE "PODER", caderno da FOLHA DE S. PAULO (+ veja.com)

A manifestação contra a presidente Dilma Rousseff na avenida Paulista, em São Paulo, reuniu cerca de 40,3 mil neste domingo (13), segundo levantamento feito pelo Datafolha no local.

A contagem foi realizadas das 13h às 18h. No momento de maior concentração, o ato teve aproximadamente 35,8 mil pessoas protestando simultaneamente.

O número apurado pelo instituto indica a quantidade de pessoas diferentes que, em algum momento, foram à manifestação no intervalo de tempo estudado.

Foi um evento menor que os outros três organizados pelos mesmos grupos em 15 de março (210 mil pessoas), 12 de abril (100 mil) e 16 de agosto (135 mil).

Neste domingo, 3.700 pessoas participaram do protesto do começo ao fim.

Para fazer a contagem de participantes, o Datafolha dividiu a Paulista em quadrantes. Em cada um, os pesquisadores aplicaram uma metodologia de contagem a partir da densidade do público.

Também foram aplicados questionários para conhecer o perfil dos presentes. A combinação dessas técnicas possibilitou medir a renovação do público ao longo da tarde.

As entrevistas também foram usadas para identificar e calcular quantidade de presentes sem qualquer relação com a manifestação, como as pessoas que foram à avenida por lazer. Esses não foram computados como manifestantes.

Às 13h, no primeiro momento da contagem, 44% dos presentes estavam na avenida para protestar. O percentual foi subindo até chegar a 80% às 16h. No encerramento do protesto, eram 72%.

POLÍCIA

A Polícia Militar de São Paulo também contou manifestantes na Paulista nesta tarde. Desta vez, apurou a presença de 30 mil presentes na capital e outras 6.500 em outros municípios do Estado. A PM não costuma apresentar detalhes sobre sua contagem.

Esta é a primeira vez que a PM divulga um número menor que o do Datafolha numa manifestação anti-Dilma. Em março, ante os 210 mil apurados pelo instituto, a polícia afirmou que 1 milhão de pessoas havia marcado presença naquela manifestação.

Protesto no Rio 'foi menor, mas com qualidade', diz organizadora

O protesto chamado de "esquenta pelo impeachment" por seus organizadores ganhou tons literais na tarde deste domingo (13), no Rio, quando milhares de pessoas vestidas de verde e amarelo caminharam pela praia de Copacabana sob sol forte e com termômetros marcando 38ºC, para pedir a saída da presidente Dilma Rousseff.

Os manifestantes andaram por cerca de dois quilômetros, do posto 5 ao Copacabana Palace, exibindo bandeiras e cartazes com dizeres como "Fora Dilma", "Lula, vai chegar sua vez" e "Je suis Moro", em apoio as ações do juiz Sérgio Moro.

O ato também contou com apoio de três carros de som –dois a menos do que na manifestação pró-impeachment de 16 de agosto, no mesmo local.

A cabeleireira Charlo Ferreson, que se apresentou como coordenadora do grupo Revoltados On Line no Rio, disse que a manifestação deste domingo "foi menor, mas com qualidade".

"Tivemos muita dificuldade para organizar esse protesto. O prazo foi muito curto. Tem ainda a questão do calor. Imaginei que seria ainda menor", disse ela, que preferiu não estimar a quantidade de público presente.

Ferreson afirmou ainda que um dos carros de som do protesto teria sofrido sabotagem. "Ele estava parado no sinal e um grupo pró-Dilma cortou os cabos de som", disse.

A manifestação teve um breve momento de confusão quando um grupo de cerca de 50 skatistas, alguns vestidos de vermelho, vieram em direção contrária a da marcha e tentaram passar pelos manifestantes, que reagiram.

A Polícia Militar, que reforçou o patrulhamento em toda orla, teve que intervir e retirar o grupo contrário a manifestação –um policial apontou uma arma de bala de borracha contra os skatistas. No tumulto, copos e latas chegaram a ser lançados em direção aos militares, que não revidaram.

"Acho um absurdo não deixarem expressar nossa opinião. Se eles podem se a favor do impeachment nós podemos ser contrários", disse um dos skatistas. Segundo a PM, ninguém foi preso.

Não houve estimativa oficial nem da PM nem dos organizadores sobre o número de presentes ao ato. Soldados ouvidos pela Folha afirmaram que havia cerca de 5.000 pessoas. Coordenador do Foro do Brasil, Toni Imbrósio, estimou em 10 mil os participantes do protesto.

"O impeachment da Dilma ajuda, mas não resolve o problema do Brasil. O Congresso vai continuar cheio de ratatuia. O mais importante é mudar o sistema do país", disse Imbrósio, citando como exemplo o fim da nomeação de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) pelo presidente.

Por volta das 15h30, duas horas após seu início e ainda sob sol inclemente, grande parte dos manifestantes se dispersou ao chegar em frente ao Copacabana Palace, após a execução do Hino Nacional por um dos carros de som.

Entre os participantes da manifestação carioca estavam os deputados federais Jair Bolsonaro (PP), Julio Lopes (PPL), Aureo (SD), Índio da Costa (PSD) e Sóstenes Cavalcante (PSD).

Previsível, menor adesão revela narrativa diferente da de 92

Por IGOR GIELOW, DIRETOR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

A menor concentração de manifestantes em favor do impeachment de Dilma Rousseff neste domingo (13), ainda que previsível dado o tempo exíguo para a organização dos eventos, explicita a narrativa algo não-linear da crise de 2015. Afinal de contas, a presidente está hoje mais próxima de ser impedida do que estava no auge dos protestos, em março passado.

Isso desafia a parcela da oposição que sonha em uma repetição do roteiro que levou Fernando Collor ao chão em 1992. Só que a realidade política, social e de comunicação interpessoal é totalmente diversa 23 anos depois, assim esses opositores de Dilma terão de achar um novo discurso.

Dizer que "impeachment precisa de rua" pode ser um tiro no pé: não derrubou Dilma em março, não derrubaria agora. A dinâmica das redes sociais e o fato de que pode haver gente disposta a ir para a rua em favor da petista como não havia no tempo de Collor são elementos na equação.

Nesse sentido, será interessante acompanhar a aposta dos movimentos mais organizados em uma data de protestos para março de 2016. Até lá, o impeachment poderá ter prosperado ou ter sido enterrado, ao menos na forma atual. Na primeira hipótese, é factível achar que a "rua" à frente do Congresso possa fazer diferença. Na segunda, tudo terá de recomeçar do zero.

Por isso a maior parte da oposição gostaria de ver o recesso parlamentar ocorrendo integralmente, para jogar com o desgaste progressivo de um governo cuja economia mal para em pé, e que enfrentará mais más notícias em janeiro. Para os governistas, não haver um rugido mais forte hoje nas ruas encoraja a tentativa de fazer uma pausa mais curta, mas tudo isso dependerá da sessão do Supremo na quarta (16) que discutirá o rito do impeachment e poderá forçar um calendário por questões práticas -pedidos de vista, demora em decisões etc.

Não que o Planalto tenha muito a comemorar, ainda que o domingo não lhe tenha sido desastroso. Está cristalizado o cenário da manifestação constante. São alguns milhares dispostos a dispensar o domingo de bom tempo em parte do país para gritar o "Fora, Dilma", e a capilaridade dos atos parece ter sido maior do que a ocorrida em agosto passado. De resto, as pesquisas de opinião reprovam cabalmente o governo e indicam uma maioria a favor do impedimento.

Um fator carece aqui de análise estatística, mas pode ter também ajudado a esvaziar os atos deste domingo: Eduardo Cunha. Os atos recentes do peemedebista para tentar se manter à frente da Câmara são confundidos facilmente, e o governo aposta nessa tática, com o fato de que é dele a condução da Casa que admitiu analisar o processo do impeachment neste momento.

Uma parcela dos que vão à rua, particularmente o estrato mais bem informado, empunha uma bandeira ética e pode estar constrangido, temer ser confundido com apoiador de Cunha.

No mundo político, contudo, tal raciocínio está superado pela semana em que avançou o divórcio do PMDB com o governo, e Dilma perdeu apoios importantes. Ao fim, a "rua" poderá perder parte da mística que a acompanha no debate político, para bem e para mal, embora março de 2015 e junho de 2013 estejam na memória para confrontar essa hipótese.

 

Asfalto morno indica que a raiva exige previsão, por Josias de Souza, do UOL

Perto da temperatura das manifestações de março, abril e agosto, o asfalto deste domingo, 13 de dezembro, estava apenas morno. E é justamente na queda da temperatura que está o principal recado do meio-fio.Veja Álbum de fotos

Os brasileiros contra o governo, hoje majoritários, já informaram o que não querem: Dilma e o PT no poder. Se o impedimento for decretado pelo Congresso, assume o vice. É do jogo. Mas o que vem junto com Michel Temer?

O pacote do vice inclui Eduardo Cunha? E quanto ao resto da banda apodrecida do condomínio? O PSDB unificou-se em torno do impeachment. Beleza. Mas ajudará a resolver os problemas ou lavará as mãos no dia seguinte?

As pesquisas informam que a sociedade continua irritada. E o asfalto esclarece que a raiva exige um mínimo de previsão. Ao longo de 2015, os poderosos da nação revelaram que não estão entendendo o que se passa.

Dilma desperdiçou a sua hora atacando os delatores da Lava Jato, terceirizando o governo ao Lula e culpando a conjuntura internacional pela crise econômica. Quem levou madame para uma taxa de aprovação de 10% foi ela mesma.

Os adversários de Dilma perderam o nexo ao imaginar que a aliança com Eduardo Cunha os levaria a algum lugar. Ao exagerar no cinismo, os antagonistas da presidente comportaram-se como crianças que brincam no barro depois do banho. Hoje, Cunha frequenta os protestos ao lado do boneco de Lula-Pixuleko e Dilma-Pinóquia.

De tanto observar o absurdo, o brasileiro vai adquirindo certa prática. A raiva exige alguma previsão justamente por saber que o Brasil deixou de ser um país imprevisível. Tornou-se uma nação tristemente previsível. Nela, costuma-se mudar o status sem mexer no quo.

 

 

 
 

 

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Fonte:
Folha de S. Paulo + VEJA

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