Lula quer mais do mesmo (Dilma Rousseff, efetivamente, já era)

Publicado em 12/08/2016 06:29
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Lula, pragmático como sempre, já entregou os pontos em relação ao impeachment da pupila da qual é o criador arrependido. Considera “remota” a possibilidade de o afastamento definitivo de Dilma Rousseff não ser aprovado pelo Senado, segundo afirmou a senadores e deputados com os quais se reuniu na quarta-feira à noite em Brasília. Para o ex-presidente, o PT precisa se concentrar, daqui para a frente, em dois objetivos: preparar-se para ser novamente oposição e lutar pela preservação do legado do partido depois de 13 anos no poder. (no ESTADÃO)

Dilma Rousseff, efetivamente, já era. Pouco importa, portanto, saber se vai ou não divulgar a tal Carta aos Senadores e aos Brasileiros, na qual deposita suas últimas esperanças vãs de não perder o mandato de presidente da República. Tampouco se vai ou não excluir daquele documento o termo “golpe”, que foi aconselhada a abandonar para não ferir as suscetibilidades dos senadores que ela espera que revertam votos a seu favor no julgamento final. Nesse quadro patético, Dilma só poderá continuar contando com o apoio da brancaleônica tropa de choque de senadores – e senadoras, é claro – que têm usado e abusado em proveito próprio de cada segundo de valiosa exposição diante das câmeras de televisão, como também de seu fiel e eloquente advogado, que igualmente tem sabido aproveitar a preciosa oportunidade de se redimir, perante seus companheiros petistas, das acusações de ter sido um ministro da Justiça “frouxo” no controle da Operação Lava Jato. A Dilma, portanto, só resta decidir como passar a longa vilegiatura que terá à sua frente.

Já Lula da Silva parece disposto a seguir em frente, administrando como puder aqueles dois desafios impostos a seus seguidores. Um deles, o de voltar a fazer oposição, é mais fácil, porque corresponde à verdadeira vocação do lulopetismo. Manter vivo o legado do PT é um pouco mais complicado, até porque implica, para começar, chegar a um acordo sobre o que vale a pena trombetear como resultado positivo dos governos Lula e Dilma.

Os petistas jamais se preocuparam em ofender a inteligência e o discernimento dos eleitores. Essa é uma característica comum ao populismo, qualquer que seja. Por isso, não será problema, tanto para fazer oposição quanto para polir a imagem de 13 anos de poder, usar os velhos recursos de apregoar feitos extraordinários, não necessariamente verdadeiros, e de transferir para terceiros a responsabilidade pelo que não deu certo. E também, obviamente, prometer o que não têm intenção de, ou capacidade para, cumprir.

Um governo se julga pelos resultados concretos que apresenta, não por suas maravilhosas intenções. Diante do verdadeiro legado do lulopetismo com o qual o País terá que se haver agora – finanças públicas arrombadas, inflação, recessão, desemprego, corrupção generalizada no governo e em certos meios empresariais, etc. – não há margem, mesmo com muita boa vontade, para uma avaliação positiva de resultados. E não é por outra razão que o impeachment vem aí, apoiado pela existência de crimes de responsabilidade que representam, em última análise, o modus operandi de um governo arrogante e incompetente.

É óbvio que nos últimos 13 anos – descontados todos os exageros do marketing político – houve conquistas que fizeram o Brasil andar para a frente. Mas são avanços naturalmente resultantes de uma dinâmica social que, em boa parte, independe de governos. O que poderia ser um legado do qual se orgulhar – o resgate de milhões de brasileiros da pobreza e sua ascensão à classe média – provou-se, em grande parte, demagogia de efeito efêmero.

O mais desalentador, contudo, na perspectiva de ação definida por Lula para o futuro imediato de seu agonizante partido, é a inexistência de pelo menos um aceno em direção à urgente necessidade de se tentar um entendimento amplo, suprapartidário, capaz de favorecer o trabalho de tirar o País do buraco. Lula prefere continuar cultivando o ambiente em que se sente à vontade: de um lado, “nós”, de outro, “eles”. De novo.

Golpe ou fracasso?, (por Elio Schwartsman, na Folha)

 Até compreendo a insistência do PT em qualificar como golpe oimpeachment de Dilma Rousseff. A alternativa a esse discurso, por mais deslocado da realidade que seja, seria admitir que o partido fracassou em sua tentativa de governar o país. Dilma, afinal, recebeu de seu antecessor o que ela mesma definiu como uma herança bendita e entregou a pior recessão da história do Brasil.

A versão petista de que fomos vítimas da crise internacional não resiste a uma comparação com o desempenho de outros países emergentes. As dificuldades econômicas, contudo, teriam sido em princípio contornáveis, se a presidente tivesse sido capaz de convencer seu partido e a coalizão que ela liderava da necessidade de reformas. Dilma, porém, não só não conseguiu fazê-lo (tentou timidamente com Joaquim Levy) como ainda realizou a proeza de colocar mais de 2/3 do Legislativo contra si.

Registre-se que não estamos falando de parlamentares que sempre foram hostis ao PT e jamais lhe deram uma chance de governar. Ao contrário, mais da metade dos deputados e agora senadores que votam pelo impeachment compuseram a base de sustentação do governo.

Evidentemente, um presidente que conte com a oposição ativa de 2/3 do Parlamento não tem muitas condições políticas para exercer o cargo. O bom e velho PT, pelo qual em outros tempos eu cheguei a nutrir simpatias, não tinha nenhum problema em reconhecer que o impeachment é um processo essencialmente político e que como tal deve ser usado. Ao qualificá-lo agora como golpe, o partido não chega a resolver seu presente e trai seu passado.

Para o futuro, que é o que importa, o PT deveria em algum momento fazer o que a esquerda antigamente chamava de autocrítica e reconhecer os muitos erros do governo Dilma, substituindo a fraca narrativa do golpe por uma visão econômica um pouco mais consistente.

Quando a instituição prevalece (no ESTADÃO)

Habituado a servir-se das instituições republicanas em benefício de seus interesses e conveniências políticas, o lulopetismo sofreu mais um fragoroso revés na sessão plenária do Senado Federal que transformou Dilma Rousseff em ré do processo de impeachment, colocando-a, finalmente, a um passo de ser definitivamente afastada da Presidência da República. Na condição de presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), investido, por disposição constitucional, na condução dos trabalhos, o ministro Ricardo Lewandowski frustrou todas as tentativas da tropa dilmista de obstruir a sessão. O ministro se comportou com imparcialidade, serenidade e firmeza e, logo na abertura dos trabalhos, recomendou aos senadores, que ali estavam na condição de juízes, “atuar com independência, pautando-se exclusivamente pelos ditames das consciências e pelas normas legais”. Não foi exatamente o que aconteceu, como vieram a demonstrar as bisonhas tentativas procrastinatórias de quem talvez imaginasse que poderia contar com a cumplicidade de um ministro-companheiro. Mas o desempenho de Lewandowski demonstrou seu compromisso com a solidez institucional que é indispensável à estabilidade do regime democrático.

O fato de ter sido nomeado para a Suprema Corte pelo então presidente Lula da Silva e sua atuação como revisor do processo do mensalão, que frequentemente o colocou em conflito com o ministro-relator Joaquim Barbosa, levantaram dúvidas sobre se Lewandowski favoreceria o PT. Já a partir de sua eleição para a presidência da Suprema Corte, porém, e especialmente depois de aberto o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, Lewandowski demonstrou claramente que, se cultivava preferências partidárias, era capaz de mantê-las apartadas de suas responsabilidades como magistrado.

Já os militantes petistas, dentro e fora do Congresso, aferrados à convicção de que são os únicos representantes legítimos “do povo” e por isso podem contar com a indulgência geral e divina para lançar mão de qualquer meio para atingir seus objetivos, não se embaraçam com detalhes éticos e morais. Uma demonstração prática desse modo de pensar e agir tem sido dada pela tropa de choque dilmista ao longo de toda a tramitação, no Congresso Nacional, do processo de impeachment. Desde a classificação de “golpe” imposta a um processo que tem o apoio do Congresso Nacional e segue um rito determinado pelo STF, passando pela pecha de “usurpador” que procura colar à imagem de um vice-presidente da República constitucionalmente investido no exercício da Presidência, o lulopetismo não tem o menor escrúpulo de “partir para cima” de tudo e todos que a ele se opõem.

E foi seguindo essa linha suicida de comportamento que os defensores de Dilma – na verdade, defensores, acima de tudo, de sua própria sobrevivência política – tiveram o descaramento de, provavelmente iludidos com a possibilidade de contar com a indulgência de um ministro-companheiro, levantar naquela sessão do Senado questões de ordem despropositadas como as destinadas a, simplesmente, suspender o processo contra Dilma ou, pelo menos, adiar a votação programada para permitir a realização de “novas e importantes diligências”. Essas tentativas despudoradas e bisonhas de tumultuar os trabalhos – e garantir exposição diante das câmeras de televisão – foram firme e serenamente rechaçadas pelo ministro Ricardo Lewandowski. Só falta agora a tigrada acusá-lo de “traição”.

Este lamentável episódio do impeachment completa três meses desde o afastamento provisório da Presidência da “mulher honesta” que começa a ganhar visibilidade na Operação Lava Jato. É uma nódoa que só será extinta com o tempo e a união dos brasileiros em torno do enorme desafio de tirar o País da crise em que foi jogado por Dilma e seu mestre e criador arrependido. Menos mal que o Brasil ainda pode contar com instituições sólidas, como ficou demonstrado na histórica sessão do Senado de terça-feira.

Dilma e o PT erram até o fim (por FERNANDO CANZIAN)

Sentindo-se mais uma vez traída e agindo lentamente, a presidente afastada Dilma Rousseff adiou nesta quarta (10) a divulgação de uma carta aos senadores em que faria sua defesa e pediria que votassem contra o processo de impeachment.

O ponto central da carta, agora prevista para a semana que vem, seria a defesa de um plebiscito para a realização de novas eleições.

O fato não só contraria a posição do presidente nacional do PT, Rui Falcão, como é totalmente inviável, segundo o próprio petista.

Para que novas eleições sejam realizadas a partir de um plebiscito, Dilma primeiro precisaria voltar ao cargo e manter sua promessa.

Depois, teria que pedir ao Congresso para convocar o plebiscito. O STF teria então que decidir se isso pode ser feito ou não.

Se decidir a favor, seria necessária a votação de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) em dois turnos na Câmara e no Senado (com três quintos dos votos). Se passasse pelo Congresso, a proposta só entraria em vigor depois de um ano.

Ou seja, em 2018, quando já haverá eleições de qualquer maneira.

Mas fica pior.

Falcão defende que em vez de brigar pelo plebiscito, Dilma deveria sinalizar que, se voltar, mudará novamente a política econômica atual e a que vigorou no início de seu segundo mandato, quando começou parte do ajuste fiscal em curso.

Ou seja, quer a volta ao que deu errado e que acabou justamente levando ao processo de impeachment da presidente.

Junte-se a isso Lula dizer que só não será candidato em 2018 se o Brasil der certo e temos, com um tom de absurdo, o fim melancólico desse período.

Com o vaivém da carta, Dilma já roça o patético (JOSIAS DE SOUZA)

Sem João Santana, Dilma Rousseff não consegue redigir uma carta. Adiou pela terceira vez —ou seria a quarta?— a divulgação do texto idealizado para virar votos no Senado. É como se lhe caísse a ficha do fato consumado.

Alguém deve ter dito no exílio do Alvorada que todas as opiniões de Dilma sobre Dilma são suspeitas. A essa altura, o documento seria inútil ainda que contivesse um gesto de contrição. Um remorso tardio não seria exemplo aproveitável.

Em sua penúltima versão, a carta oculta de Dilma contém cinco páginas. O miolo da alcatra está na proposta de realização de um plebiscito sobre a antecipação das eleições presidenciais.

Desmarquetada e com a corda no pescoço, tudo o que Dilma tem a oferecer caso lhe restituam a poltrona é uma consulta para que o povo informe que prefere escolher outro presidente. Até Rui Falcão já tomou distância da tolice.

No mais, a carta de Dilma é, na definição de um senador que leu a peça, um documento raso. Se fosse uma poça, poderia ser atravessada por uma formiga —com água pelas canelas.

Na falta de João Santana, alguém deveria se habilitar para a função de orientador de Dilma. Há no PT um nome ideal: Lula. É o único que pode dizer para madame, sem levar um passa-fora, que o vaivém da carta está na bica de atravessar a fronteira do patético.

 

Preços sobem, mas queda na produção inibe receitas no campo (porMAURO ZAFALON) 

A aceleração de vários preços dos produtos agrícolas não compensou a forte queda na produção no campo neste ano. Com isso, o VBP (Valor Bruto da Produção) deverá recuar para R$ 516 bilhões, 2,3% abaixo do registrado no ano anterior.

Essa é a projeção do Ministério da Agricultura, que leva em consideração preços e volume produzido de 26 dos principais itens das lavouras e da pecuária brasileiras.

A renda total dos produtores só não vai ser menor porque o setor de lavouras, que corresponde a 66% do VBP, teve queda de apenas 1%, Já o setor de pecuária recuou 5% no período.

Entre as principais quedas de renda neste ano está a dos produtores de arroz, devido à desaceleração de 12% na produção.

Os preços do cereal chegaram a bons patamares nos últimos meses, mas nem todos os produtores tiveram acesso a eles. Já tinham comercializado boa parte da safra. Dados coletados por José Gasques, do Ministério da Agricultura, indicam um recuo do VBP do arroz para R$ 9,1 bilhões, 17% menos do que o de 2015.

Já o feijão subiu tanto de preço que, mesmo com o recuo da safra para os menores patamares em 18 anos, deverá conseguir um valor total de produção de R$ 9,8 bilhões, com alta de 11% em relação ao do ano anterior.

Assim como ocorreu com o arroz, a queda na produção de milho foi tão intensa — deve recuar para 68,5 milhões de toneladas — que o valor da produção diminui para R$ 43 bilhões, 2% a menos no ano.

Um dos destaques positivos foi o trigo, cujas receitas vão aumentar 30%. Na avaliação do ministério, os produtores vão obter próximo de R$ 5 bilhões com o cereal no ano. Safra e preços aumentam.

No setor de pecuária, a queda nas receitas ocorre em todos os segmentos, com mais intensidade em suinocultura e leite. No primeiro caso, o recuo será de 13%, enquanto os produtores de leite vão ver a sua renda enxugar em 11%, em média.

Mato Grosso, líder nacional na produção de soja, de milho e no setor bovino, lidera o valor nacional de produção.

Ao registrar R$ 72 bilhões neste ano, supera a do Estado de São Paulo, o então líder e cujas receitas devem ficar em R$ 71 bilhões.

Uma das causas das perdas paulistas é a laranja, setor que, pelos dados atuais, terá recuo de 13% no valor de produção no ano.

A queda na oferta de laranja daqui para a frente, além do rendimento industrial menor da fruta, poderá dar um fôlego aos preços e, consequentemente, às receitas do setor. 

Fonte FOLHA + ESTADÃO

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