Os idiotas da objetividade, por NELSON RODRIGUES

Publicado em 28/02/2018 12:05 3285 exibições
Nesse momento crucial quando se define os rumos da sociedade brasileira, o Notícias Agrícolas recorre ao falecido jornalista Nelson Rodrigues para orientar a todos que se preocupam com os destinos do Brasil. Seu texto, "Os idiotas da objetividade", vem a calhar. Acompanhem...

Os idiotas da objetividade, publicado no livro A cabra vadia:

“Sou da imprensa anterior ao  copy desk.  Tinha treze anos quando me iniciei no jornal, como repórter de polícia. Na redação não havia nada da aridez atual e pelo contrário: — era uma cova de delícias. O sujeito ganhava mal ou simplesmente não ganhava. Para comer, dependia de um vale utópico de cinco ou dez mil-réis. Mas tinha a compensação da glória. Quem redigia um atropelamento julgava-se um estilista. E a própria  vaidade o remunerava. Cada qual era um pavão enfático. Escrevia na véspera e no dia seguinte via-se impresso, sem o retoque de uma vírgula. Havia uma volúpia autoral inenarrável. E nenhum estilo era profanado por uma emenda, jamais.

Durante várias gerações foi assim e sempre assim. De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na redação, seja repórter de setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade estilística. E o  copy desk  não respeitava ninguém. Se lá aparecesse um Proust, seria reescrito do mesmo jeito. Sim, o  copy desk instalou-se como a figura demoníaca da redação. Falei no demônio e pode parecer que foi o Príncipe das Trevas que criou a nova moda. Não, o abominável Pai da Mentira não é o autor do  copy desk.  Quem o lançou e promoveu foi Pompeu de Sousa. Era ainda o Diário Carioca, do Senador, do Danton. Não quero ser injusto, mesmo porque o Pompeu é meu amigo. Ele teve um pretexto, digamos assim, histórico, para tentar a inovação. Havia na imprensa uma massa de analfabetos. Saíam as coisas mais incríveis. Lembro-me de que alguém, num crime  passional, terminou assim a matéria: — “E nem um goivinho ornava a cova dela”. Dirão vocês que esse fecho de ouro é puramente folclórico. Não sei e talvez. Mas saía coisa parecida. E o Pompeu trouxe para cá o que se fazia nos Estados Unidos — o copy desk.

Começava a nova imprensa. Primeiro, foi só o  Diário Carioca; pouco depois, os outros, por imitação, o acompanharam. Rapidamente, os nossos jornais foram atacados de uma doença grave: — a objetividade. Daí para o “idiota da objetividade” seria um passo. Certa vez, encontrei-me com o Moacir Werneck de Castro. Gosto muito dele e o saudei com a mais larga e cálida efusão. E o Moacir, com seu perfil de lord Byron, disse para mim, risonhamente: — “Eu sou um idiota da objetividade”.

Também Roberto Campos, mais tarde, em discurso, diria: — “Eu sou um idiota da objetividade”. Na verdade, tanto Roberto como Moacir são dois líricos. Eis o que eu queria dizer: — o idiota da objetividade inunda as mesas de redação e seu autor foi, mais uma vez, Pompeu de Sousa. Aliás, devo dizer que o copy desk e o idiota da objetividade são gêmeos e um explica o outro.
E toda a imprensa passou a usar a palavra “objetividade” como um simples brinquedo auditivo. A crônica esportiva  via times e jogadores “objetivos”. Equipes e jogadores eram condenados por falta de objetividade. Um exemplo da nova linguagem foi o atentado de Toneleros. Toda a nação tremeu. Era óbvio que o crime trazia, em seu ventre, uma tragédia nacional. Podia ser até a guerra civil. Em menos de 24 horas o Brasil se preparou para matar ou para morrer. E como noticiou o  Diário Carioca  o acontecimento? Era uma catástrofe. O jornal deu-lhe esse tom de catástrofe? Não e nunca. O Diário Carioca nada concedeu à emoção nem ao espanto. Podia ter posto na manchete, e ao menos na manchete, um ponto de exclamação. Foi de uma casta, exemplar objetividade. Tom estrita e secamente informativo. Tratou o drama histórico como se fosse o atropelamento do Zezinho, ali da esquina.

Era, repito, a implacável objetividade. E, depois,  Getúlio deu um tiro no peito. Ali estava o Brasil, novamente, cara a cara com a guerra civil. E que fez o Diário Carioca?. A aragem da tragédia soprou nas suas páginas? Jamais. No princípio do século, mataram o rei e o príncipe herdeiro de Portugal. (Segundo me diz o luso Álvaro Nascimento, o rei tinha o olho perdida-mente azul.) Aqui, o nosso Correio da Manhã abria cinco manchetes. Os tipos enormes eram um soco visual. E rezava a quinta manchete: “HORRÍVEL EMOÇÃO!”. Vejam vocês: — “HORRÍVEL EMOÇÃO!”.

O  Diário Carioca  não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade.  As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: — o fato e a sua  cobertura. Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa  emoção popular. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy. Na velha imprensa as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy desk, sumiu a emoção dos títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do Jornal do Brasil.  A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto da manchete. Havia um abismo entre  o Jornal do Brasil  e a tragédia, entre  o Jornal do Brasil  e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete.

O Jornal do Brasil,  sob o reinado do  copy desk,  lembra-me aquela página célebre de ficção. Era uma lavadeira  que se viu, de repente, no meio de uma baderna horrorosa. Tiro e bordoada em quantidade. A lavadeira veio espiar a briga. Lá adiante, numa colina, viu um baixinho olhando por um binóculo. Ali estava Napoleão e ali estava Waterloo. Mas a santa mulher ignorou um e outro; e veio para dentro ensaboar a sua roupa suja. Eis o que eu queria dizer: — a primeira página do  Jornal do Brasil  tem a mesma alienação da lavadeira diante dos napoleões e das batalhas. E o pior é que, pouco a pouco, o copy desk  vem fazendo do leitor um outro idiota da objetividade. A aridez de um se transmite ao outro. Eu me pergunto se, um dia, não seremos nós 80 milhões de copy desks? Oitenta milhões de impotentes do sentimento. Ontem,falava eu do pânico de um médico famoso. Segundo o  clínico, a juventude está desinteressada do amor ou por outra: — esquece antes de amar, sente tédio antes do desejo. Juventude  copy desk, talvez.

Dirá alguém que o jovem é capaz de um sentimento forte. Tem vida ideológica, ódio político. Não sei se contei que vi, um dia, um rapaz dizer que dava um tiro no Roberto Campos. Mas o ódio político não é um sentimento, uma paixão, nem mesmo ódio. É uma pura, vil, obtusa palavra de ordem. (Nelson Rodrigues).

Com matéria contra o “golpe”, UnB faz política – mas não ciência (editorial da Gazeta do Povo)

Curso criado pela universidade não respeita critérios da objetividade e da pluralidade que se esperam da academia

Imagine: a Universidade de Brasília (uma instituição federal) decidiu dar um curso sobre o criacionismo. O currículo se restringe a textos bíblicos, em blogs cristãos e em obras de pensadores criacionistas. Soou estranho? 

Pois é mais ou menos isso que a universidade decidiu fazer ao criar uma disciplina para estudar o  “golpe” contra Dilma Rousseff. 

O curso, e a ementa que o guiará, parecem em dissonância com a ideia de universidade. Os fundadores do ensino superior no Ocidente eram católicos medievais, e mesmo eles questionavam os próprios pressupostos. A Suma Teológica, obra clássica de Tomás de Aquino, dá voz aos contra-argumentos, responde-os um por um e só depois apresenta uma conclusão. 

Espera-se que o Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília pratique, de fato, a ciência. Especialmente porque é financiado com recursos públicos.

É cabível, e até desejável, que um instituto de ciência política analise as possíveis interpretações sobre o impeachment de Dilma Rousseff. Como hipótese, a afirmação de que a petista sofreu um golpe precisa ser levada a sério. 

Mas isso é diferente de considerar certo que tudo não passou de um golpe e basear nisso todas as conclusões.

Não faz parte do método científico tomar como verdade aquilo que não foi provado para, com base em premissas inquestionáveis e ignorando as possíveis objeções, chegar a conclusões tendenciosas.

O professor Luis Felipe Miguel, responsável pelo curso da UnB, teria todo o direito de defender suas crenças em um grupo de estudos independente, na associação de professores, em sua vida de militante partidário. Esses são espaços mais apropriados para certezas que não exigem comprovação.

O caso, embora tenha poucas repercussões concretas (a disciplina é optativa, e dificilmente atrairá quem já não pensa como o professor) reforça a ideia de que a universidade pública brasileira está a serviço de uma doutrina ideológica – o que não é totalmente verdadeiro. 

Se a reação incisiva do Ministério da Educação pode ser questionada por suas consequências (a principal delas, a de incentivar a criação de cursos semelhantes), a afirmação do ministro Mendonça Filho procede: o caso configura “apropriação do bem público para promoção de pensamentos político-partidário”.

“Exemplo”

Seguindo o exemplo da UnB, outras universidades públicas anunciaram logo em seguida aulas sobre o “golpe de 2016”: departamentos da UFBA (Universidade Federal da Bahia), UFAM (Universidade Federal do Amazonas) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), abordarão o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) pelo mesmo viés.

Na UFBA, a matéria “Tópicos Especiais em História - O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil” será coordenada pelo professor Carlos Zacarias – militante histórico do PSTU na Bahia.

Já na UFAM, a disciplina será ministrada pelo professor César Augusto Bubolz Queirós e também abordará o período governado por Getúlio Vargas e o golpe militar de 1964. Na Unicamp um grupo de professores promete preparar um curso livre sobre o mesmo tema.

| NELSON ALMEIDAAFP

NOVO CÓDIGO COMERCIAL: MAIS UM ESTORVO À VISTA (Por João Luiz Mauad)

publicado pelo Instituto Liberal

Jornal Nacional apresentou ontem uma excelente matéria sobre o novo código comercial brasileiro, que está em discussão no Congresso. Vale a pena assistir, embora tudo possa ser resumido numa só frase:

“O texto que está no Senado tem 1.103 artigos e o da Câmara, 670.”

É óbvio que se trata de um enorme exagero. Essa volúpia legislativa, herdada da tradição positivista, que pretende que a lei cubra toda e qualquer possibilidade ou circunstância, é típica da tradição política brasileira. Como bem lembrou um dos entrevistados: “O novo código cria regras onde elas não são necessárias. E cria duplicidade de regras em alguns casos. Nós não precisamos dessas grandes reformas que tentam resolver todos os problemas, ignorando a complexidade deles, ignorando que tem muita coisa diferente e que uma única solução não resolve tudo”.

Segundo a matéria, desde a promulgação da Constituição de 1988, já foram editadas mais de 5,5 milhões de normas, o que torna praticamente impossível aos brasileiros cumpri-las em sua totalidade, bem como às autoridades responsáveis fiscalizar o seu cumprimento. É tanta lei e regulamento infra-legal que não seria exagero dizer que todos os brasileiros adultos, sem exceção, já violaram alguma norma municipal, estadual ou federal em algum momento.

A edição do novo Código Comercial parece ser mais uma tentativa, entre tantas ao longo da história, em que leis elaboradas com as melhores das intenções acabarão gerando incentivos perversos e consequências imprevistas, não raro na direção oposta à planejada.

Como já escrevi em outro lugar, embora a necessidade de desregulamentação e simplificação legislativa seja urgente, medidas nesse sentido são raríssimas em Pindorama. Não por acaso, o Brasil é um dos últimos colocados no ranking de competitividade global. Além das deficiências educacionais, de impostos altíssimos, dos baixos índices de poupança e investimentos, de uma infraestrutura capenga e cara, o país é massacrado também por um elevadíssimo custo de transação – custos indiretos, não relacionados com a atividade fim das empresas, como despesas com advogados, contadores, assessoria fiscal, etc.

Alguns dirão que, à medida que a sociedade cresce, as normas devem se multiplicar. Ledo engano. Quanto mais complexas forem as sociedades, mais as leis devem ser poucas e simples. Como ensinou Hayek, os legisladores não têm como conhecer nem um milionésimo do cotidiano de uma sociedade complexa, sendo-lhes impossível obter as informações de que necessitariam para planejá-la e direcioná-la consistentemente. Na verdade, os indivíduos que atuam em nome do Estado não conhecem nem uma ínfima parcela das pessoas, dos fatos e das circunstâncias que envolvem cada relação social ou transação econômica.

O antigo filósofo chinês Lao Tsu já dizia que quanto mais restrições artificiais impuserem ao povo, mais ele será empobrecido; e quanto mais leis e regulamentos houver, mais se estimularão as fraudes, os roubos e outros ilícitos.

Ao inibir a livre iniciativa com excesso de regulamentos e leis, o máximo que suas excelências conseguirão é frear o desenvolvimento. Aliás, não é outra a razão por que as experiências de planificação e dirigismo estatal ao redor do mundo redundaram sempre em formidáveis fracassos.

 

Fonte:
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