Piores momentos. A prisão de Lula acabou sendo um episódio de pequenez (por JR Guzzo, em VEJA.COM)

Publicado em 07/04/2018 10:00 e atualizado em 09/04/2018 17:54
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A missa negra celebrada em São Bernardo escancarou a agonia da seita Nenhum dos presentes, incluindo os padres, seria capaz de recitar a segunda parte do credo (AUGUSTO NUNES)
Tudo em que Lula encosta a mão, já há muito tempo, fica estragado na hora. Neste seu momento de desgraça, quando não podia mais evitar a prisão e sua única saída era tentar manter a cabeça erguida, fez o contrário – baixou a cabeça e acabou entrando na cadeia como um homem pequeno. Teve a oportunidade plena de fazer alguma coisa mais decente. Foi ajudado pela gentileza extrema da Polícia Federal e demais autoridades encarregadas de cumprir a ordem judicial, que lhe deram todo o tempo do mundo para preparar uma apresentação às autoridades que tivesse um pouco mais de compostura. Foi tratado com uma paciência que não está à disposição de nenhum outro brasileiro. Teve o privilégio de uma “negociação” sem pé nem cabeça para se entregar, como se o cumprimento da ordem dependesse da sua concordância. Mas acabou, apenas, estragando tudo. Conseguiu tornar a sua biografia, que já está para lá de ruim, ainda pior – este capítulo da sua ida para o xadrez, condenado a doze anos por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, concorre, certamente, para ser um dos piores da sua triste passagem pela política brasileira.
  1. O PT, a esquerda em geral e o próprio Lula imaginavam, talvez, uma despedida com mais cara de cinema, ou pelo menos de novela de televisão. O problema, como sempre acontece, é que esses planos bonitos exigem coragem para ser colocados em prática. E onde encontrar coragem, na hora de enfrentar a dureza? Nada de Salvador Allende e de sua heroica resistência até a morte, no Palácio de La Moneda em Santiago do Chile, onde enfrentou à bala a tropa do exército chileno que veio prendê-lo. Allende? Imaginem. O que o brasileiro viu pela televisão, durante as vinte e tantas horas de tumulto que se seguiram ao prazo concedido para o ex-presidente se apresentar à prisão, foi um homem confuso, vacilante, amedrontado, tentando pequenas espertezas – nada que lembrasse um líder em modo de “resistência”. Uma hora parecia querer uma coisa. Dali dez minutos estava querendo o contrário. Sua “trincheira” durante as horas que antecederam a prisão, o prédio do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, não era uma trincheira de verdade. Entravam engradados de cerveja, sacos de carvão e carne para churrasco. E que trincheira é esta, que só resiste porque a tropa do outro lado não aparece? Lula, mais uma vez, ficou fingindo que queria briga – mas amarelou, como sempre, na hora em que teria mesmo de ir para o pau.
O único gesto do ex-presidente e o seu entorno foi aproveitar a moleza da polícia encarregada de prendê-lo para dar a impressão de que ele se “recusava” a ser preso. Não se recusava coisa nenhuma – só ficou entocado dentro do prédio porque a Polícia Federal não foi buscá-lo. Que valentia existe nisso? O que houve de verdade, na vida real, foi o arrasta-pé de um político assustado, sem ação e obcecado com a própria pele, escondendo-se atrás da moita para ver se a confusão passa e ele pode sair ao céu aberto. As últimas horas que Lula passou em seu esconderijo, antes de tomar o avião que enfim o levou já preso para Curitiba, deixaram claro, também, que nem ele e nem toda a estrutura do seu partido tinham a menor noção do que estavam fazendo. Não tinham um plano, A, B ou C. Não tinham uma única ideia a respeito do que fazer. Não tinham nada. Até a última hora, na verdade, não imaginavam que fosse expedida, realmente, uma ordem de prisão contra ele; não conseguiam acreditar, simplesmente, no que estava acontecendo. Lula e o PT contavam, isto sim, com os escritórios de advocacia milionários que iriam salvá-lo no STF. Contavam com um Marco Aurélio, Lewandovski ou Gilmar Mendes para dar um golpe de última hora no tapetão. Contavam com qualquer coisa – menos a ordem de prisão que acabou por levá-lo ao xadrez da Laja Jato. Na hora que a realidade teve de ser encarada, entraram em parafuso.
O final desta comédia foi uma tristeza. Durante um dia inteiro, e a maior parte do dia seguinte, um bolinho de gente ficou em volta do sindicato — era o apoio popular que foi possível juntar. Às vezes, nas imagens aéreas da televisão, parecia uma concentração mais encorpada. Mas assim que o helicóptero se afastava um pouco ficava claro que a mobilização do povo brasileiro para defender Lula era só aquele bolinho mesmo – em Mauá, por exemplo, a quinze minutos dali, não havia um único manifestante à vista. Nem em Santo André, ou São Caetano, ou no resto do Brasil. A população estava trabalhando. No carro de som, falando para si próprios, sucediam-se dinossauros velhos e novos, de Luisa Erundina a Manoela D’Ávila, gritando coisas desconexas. Ninguém, ali, tinha qualquer relação com o mundo do trabalho. Nem na plateia, formada por sindicalistas, desocupados ou professores que faltaram ao serviço, com a coragem de quem não pode ser demitido do emprego. Dentro do prédio Lula limitou-se a não resolver nada, cercado por um cardume de puxa-sacos e mediocridades. Não havia, na hora máxima, ninguém de valor, mérito ou boa reputação em torno dele – só os serviçais de sempre, gente que sabe gritar, sacudir bandeira vermelha e atrapalhar o trânsito, mas não é capaz de ter uma única ideia ou fazer uma sugestão que preste. Como o nosso grande líder de massas pode acabar cercado, numa hora dessas, por figuras como Gleisi Hoffman e Eduardo Suplicy? Muita coisa, positivamente, deu muito errado.
O heroísmo da “resistência” de Lula acabou limitado à agressão de um infeliz que despertou a ira dos “militantes” e foi surrado até acabar no hospital com traumatismo craniano. Ou à depredação no prédio da ministra Carmen Lucia em Belo Horizonte, mais pixações aqui e ali. Quanto ao próprio Lula, o que deu para verificar é que a soma total de suas ações no momento de ir para a cadeia resumiu-se a empurrar as coisas com a barriga até a hora de entregar os pontos — depois de fingir que “não estava conseguindo” se render por causa de um tumulto barato encenado pela turma que cercava o sindicato. Esperou escurecer para não ser preso à noite, no dia seguinte inventou uma espécie de missa, um discurso que não acabava mais, um almoço “com parentes” e, por fim, armou a farsa do tal bloqueio dos portões de saída por parte dos seus “apoiadores”, o que o “impediria” de se entregar. Chegou ao limite extremo da irresponsabilidade, mais uma vez – e só quando não deu para continuar fazendo a polícia de idiota, como fez durante dois dias seguidos, embarcou no camburão da PF, e depois, no avião rumo à Curitiba. No tal discurso, com frases mal copiadas de Martin Luther King, chegou a dizer que é a favor – isso mesmo, a favor – da Lava Jato, depois de passar os últimos dois anos fazendo os ataques mais enfurecidos contra a operação anti-corrupção. Agora, na hora de ir para a cadeia, diz que é contra a roubalheira, e que só está preso por causa “da imprensa” – o que, além de falso, é mais uma demonstração de que está cuspindo no prato no qual tem comido há anos. Afirmou, enfim, que estava indo para a “prisão deles”. Mentira. Não é prisão deles. É do Brasil inteiro e do sistema legal que ainda existe por aqui.
A história está cheia de políticos que crescem com a própria prisão. Não foi o caso de Lula.

A missa negra celebrada em São Bernardo escancarou a agonia da seita (AUGUSTO NUNES)

Nenhum dos presentes, incluindo os padres, seria capaz de recitar a segunda parte do credo A missa negra celebrada em São Bernardo do Campo escancarou a agonia da seita, cujo único Deus está condenado a discursar nos próximos anos só para pecadores juramentados reunidos no pátio da cadeia. Disfarçado de homenagem à data de nascimento de Marisa Letícia, a exploração de cadáver juntou no mesmo palanque um Lula quebrado, os medonhos requebros de Dilma, Gleisi Hoffmann e seu sorriso de Miss Simpatia da população carcerária, Celso Amorim de pull over e outras abjeções. Nenhum dos presentes, incluindo os padres, seria capaz de recitar a segunda parte do credo. Deus deve ser mesmo brasileiro. Só isso pode explicar por que a pequena multidão não foi fulminada por algum dos raios bíblicos que em outros séculos dizimavam concentrações de pecadores irrecuperáveis.

Ostracismo à vista, por JOSÉ NÊUMANNE, no ESTADÃO

Inesperada revitalização da Lava Jato e do combate à corrupção pode ter levado Lula a tentar abrigar-se no passado voltando ao sindicato de origem, do qual contempla algo que se assemelha à aproximação do ostracismo

No momento em que se esperava que o STF decretasse o esvaziamento da Operação Lava Jato e, com isso, o próprio combate à corrupção no Brasil, a ministra Rosa Weber virou o jogo num voto histórico, negando habeas corpus impetrado pela defesa de Lula da Silva, o que permitiu que o TRF-4 mandasse o juiz Sérgio Moro prendê-lo.

Essa reviravolta permitiu que os policiais, procuradores e juízes empenhados nessa luta na primeira e na segunda instâncias ganhassem fôlego, ao mesmo tempo em que o candidato da esquerda, tido como favorito pelas pesquisas para a eleição de outubro, perdesse a chance de se candidatar e começasse a avistar no horizonte perspectivas de ostracismo.

Jogo perigoso, por JOÃO DOMINGOS, (ESTADÃO)

A posição de enfrentamento que o PT adotou em relação ao Ministério Público, à Justiça e aos meios de comunicação desde o escândalo do mensalão, com maior radicalização a partir do início do processo de impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff, tem sido danosa para tudo e para todos. Por um lado, prejudica o próprio PT, haja vista a surra que o partido levou na eleição municipal de 2016. Por outro, faz surgir, como reação a esse clima de beligerância, algo impensado até pouco tempo, como o apoio à volta dos militares ao poder ou o crescimento de uma candidatura que se propõe a ser a antítese de Lula, esta representada pelo deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ).

Pior de tudo é que a polarização que se vê nas ruas tem atingido, de forma indireta, as instituições garantidoras do Estado Democrático de Direito, com divisão clara e ataques pessoais, como os verificados no dia a dia do Supremo Tribunal Federal (STF), além de esgarçar o tecido social. A polarização, ao contrário do que se diz por aí, não surgiu somente por causa das disputas eleitorais entre PT e PSDB. Ela surgiu principalmente depois dos discursos carregados de ódio do “nós contra eles”, em que o “nós” era vendido como aqueles que, no petismo, defendiam os pobres e oprimidos, e o “eles” os contrários à luta pela igualdade social. 

A posição de enfrentamento constante, apregoada pelo próprio Lula, quando ameaçou chamar o “exército do Stédile”, ao se referir ao MST, movimento que orbita em torno do PT, ou quando disse que não cumpriria a decisão judicial se essa fosse por sua prisão, e o foi, pode até dar uma sensação de onipotência em determinado momento. Como no dia em que, num comício dentro do Palácio do Planalto, Vagner Freitas, da CUT, prometeu pegar em armas para defender o mandato de Dilma Rousseff. Ou na noite de quinta para ontem, quando a sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo foi tomada por militantes que para lá se dirigiram em solidariedade a Lula, levando o ex-ministro Gilberto Carvalho a dizer que a multidão impediria a prisão do ex-presidente. Mas todo mundo sabe que o tempo passa e os planos de desobediência precisam ser desfeitos, mesmo que José Rainha, desaparecido como anda, ameace com uma guerra civil.

É tudo marketing político, uma tentativa de transformar Lula em vítima. Acontece que, se para o militante petista tais atitudes o animam a se manter acordado, com a bandeira lá no alto e com a sensação de que é um revolucionário, para o cidadão comum não há esse efeito. Se houvesse, Lula já estaria com mais de 50% da preferência dos eleitores. E o militante, que levanta a bandeira imaginando-se parte da revolução, já a estaria fazendo para proteger seu líder. 

A consequência imediata de todo esse espetáculo pode ter efeito contrário ao que o PT espera obter. A tropa de choque do partido tanto aprontou durante o processo de impeachment que hoje dois de seus líderes, os senadores Gleisi Hoffmann (PR) e Lindbergh Farias (RJ), sabem que enfrentam sérias dificuldades para se reeleger. Em compensação, enquanto houver um resto de possibilidade de Lula disputar a Presidência da República, a candidatura de Bolsonaro mais se consolidará.

O PT não pode se esquecer de que em seus 38 anos de vida foi um instrumento fundamental para a consolidação democrática. No momento em que ameaça não cumprir o que determina uma instituição que é um dos pilares da democracia, como o Judiciário, não a está defendendo. Está ajudando um setor que é claramente contrário a ela a propagar suas ideias numa sociedade que não aguenta mais a corrupção, a violência e a ausência do Estado.

Fonte: VEJA + Gazeta do Povo/Estadão

2 comentários

  • Augusto Mumbach Goiânia - GO

    Em mais uma jogada de mestre, Moro dá a oportunidade para lula se entregar. Mas já sabia o que ia acontecer. Lula faz as suas fanfarronices e mostra, mais uma vez para todo Brasil, como ele é fraco, medroso e como tinha pouca gente em frente ao sindicato. Fim de carreira, Tchau Querido!! E por falar em fracos, cadê o Stedile e o Boulos que iam fazer e acontecer com seus exércitos de desocupados? Sem falar naquele outro que nem lembro o nome, que também disse que ia fazer e acontecer?

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  • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

    O Brasil está se tornando um país especialista em ópera, ou melhor, em ÓPERA BUFA !!!
    As imagens produzidas pela mídia envolvendo a cobertura da última batalha do "El Cid de Garanhuns". Digo última batalha¹ política, única forma de vida de um ser que tripudiou todas as outras formas da vida. Mas voltemos à dita ópera.
    Na época em que prestou depoimento na polícia federal, seu cônjuge já falecida, foi responsabilizada por ações escusas a que ele não tinha conhecimento, participando do mesmo leito, ou seja, a grandeza desse individuo é nanométrica.
    Agora, no apagar das luzes usa a data do aniversário da mesma defunta, para promover um ato religioso farsesco, onde o objetivo principal é mostrar sua patologia dantesca de amor ao poder.
    Diante disso, me despeço religiosamente, desejando-lhe:
    LULA VÁ COM DEUS... PARA OS QUINTOS DO INFERNO !!!
    (¹) ? A notação se refere, ao sentido figurado de batalha, pois a vida desse individuo foi um faz de conta constante.
    Nas greves que promoveu contra os patrões, há depoimentos que ele defendia mais os interesses dos patrões. Quando foi preso e fingiu uma greve de fome, um dos guardas fornecia balas "CHITA" para ele saciar a fome.
    Para finalizar: O telefonema que recebeu da ESTOCADORA DE VENTO" que o Bessias estava levando o papel para ele usar se fosse preciso... O papel era a sua posse como Ministro Chefe da Casa Civil do governo Dilma...UM SALVO CONDUTO PARA NÃO SER PRESO PELA PF !!!... EH! ELE ACEITOU !!!

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    • JAKSON SCHERERUNAI - MG

      Esse bandido é uma afronta à democracia, debochado da justiça e de todos os brasileiros ! Justiça do Brasil desmoralizada por um bandido !

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    • RONALDO REGOPETRóPOLIS - RJ

      O pior de tudo é essa gente candidatar-se e ganhar algumas cadeiras no legislativo. Mesmo minoria eles continuariam sabotando a recuperação de nossa economia. O executivo para fazer avançar suas propostas teria que oferecer algum ministério a esses partidos comunistas ( PCB, PCdo B, Psol, etc) que continuariam a sabotar o país. Solução? TSE cassar todos os partidos marxistas, revolucionários ou não. Cassar todos os ex-integrantes desses partidos e seus dirigentes, para que nunca mais voltem a enganar o povo.

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