Dólar fecha perto da estabilidade à espera de detalhes do Renda Cidadã

Publicado em 29/09/2020 18:15 e atualizado em 29/09/2020 21:25 155 exibições

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O mercado de câmbio teve uma sessão volátil nesta terça-feira, 29, mas bem menos tensa que a de ontem, quando o dólar fechou no maior nível em quatro meses e investidores estrangeiros elevaram apostas contra o real em US$ 1,3 bilhão no mercado futuro da B3. À espera dos desdobramentos e detalhes sobre o financiamento do Renda Cidadã, programa que vai substituir o Bolsa Família, e ajudado pela queda da divisa dos Estados Unidos nos emergentes e países exportadores de commodities, antes do primeiro debate presidencial no país, o dólar fechou perto da estabilidade.

No encerramento, a moeda americana teve leve alta de 0,07% no mercado à vista, para R$ 5,6393. No mercado futuro, o dólar para outubro, que vence amanhã, recuava 0,34% às 17h45, cotado em R$ 5,6420.

"Ainda está tudo muito obscuro sobre o Renda Cidadã. É tudo o que o mercado não precisava neste momento de elevada incerteza", avalia a economista-chefe da Reag Investimentos, Simone Pasianotto. Entre as principais dúvidas, ela ressalta que os investidores querem saber qual o impacto fiscal do programa e como fica o efeito nos bancos, que têm muitos precatórios em carteira. "O ideal era que ontem já fosse apresentada a proposta concreta, com os detalhes."

Na sessão desta terça-feira, como os detalhes não foram explicados, o câmbio não se distanciou do fechamento de ontem. O presidente Jair Bolsonaro disse que vender estatais para financiar o programa é uma possibilidade a ser avaliada, mas a privatização é um processo que leva tempo, ressaltou. Já o relator da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Pacto Federativo, senador Márcio Bittar (MDB-AC) disse que o governo não vai recuar do uso de precatórios e recursos do Fundeb, que financia a educação, para bancar o novo programa social.

O estrategista da TAG Investimentos, Dan Kawa, comenta que após a forte reação negativa, a expectativa é que parte da proposta - que inclui um "fura teto" e uma "pedalada fiscal" - seja abandonada. "Fica clara a incapacidade deste governo e do Congresso em avançar com medidas de ajuste fiscal focadas na contenção de custos." A esperança, observa Kawa, é que o ajuste fiscal prossiga, mas os sinais são preocupantes. Nesse ambiente, ele espera muita volatilidade nos mercados até o final do ano.

A piora do cenário fiscal já levou o banco americano Citi a reduzir a projeção de crescimento do Brasil em 2021 de 3,5% para 3%. O banco vê o real 15% mais depreciado do que os fundamentos sugerem e o governo rompendo o teto no ano que vem em R$ 75 bilhões. Já o grupo financeiro suíço Julius Baer avalia que a credibilidade fiscal do Brasil sofre novo golpe com o anúncio do Renda Cidadã e prevê forte venda de ativos do Brasil se o teto de gastos, principal âncora fiscal do País, for abandonado.

Após dia volátil, dólar fecha perto da estabilidade com apreensão fiscal

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O dólar fechou perto da estabilidade ante o real nesta terça-feira, depois de oscilar entre altas e baixas, com o mercado mostrando indefinição diante de contínua apreensão do lado fiscal, intensificada na véspera pela proposta apresentada para financiar o Renda Cidadã.

A moeda norte-americana teve variação positiva de 0,14%, a 5.6428 reais na venda, nova máxima desde 20 de maio (5.6902 reais).

A cotação atingiu a mínima do dia ainda na primeira hora de pregão --de 5,6064 reais, queda de 0,51% -, depois ganhou força antes de voltar a recuar.

Em torno de 11h30 como compras voltaram ao mercado, e o dólar foi à máxima do dia por volta de 13h (de 5,6795 reais, valorização de 0,79%). A moeda desacelerou os ganhos até 14h31, a partir de quando se estabilizou até o fechamento.

Juros: desconforto com proposta para o Renda Cidadã mantém curva pressionada

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A insistência do governo em manter a proposta de financiamento para o programa Renda Cidadã, mesmo diante da forte reação negativa do mercado, manteve os ativos domésticos pressionados nesta terça-feira, 29, com nova rodada de alta para os juros futuros. Desta vez, os contratos mais castigados foram os do miolo da curva, que concentram há meses as grandes posições vendidas dos investidores. Com a permanência do mau humor, o Tesouro acabou por colocar um lote pequeno de NTN-B no leilão, evitando assim adicionar mais pressão sobre a curva, que também já mostra aumento significativo das apostas num aperto monetário este ano.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou em 3,17%, de 3,064% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 encerrou em 4,66%, de 4,545% ontem no ajuste. O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 6,62% (6,615% ontem) e o para janeiro de 2027, em 7,60%, de 7,624%.

"O mercado hoje é uma continuidade do que foi ontem e até que está bem comportado para o tamanho do problema", afirmou o sócio-gestor da LAIC-HFM, Vitor Carvalho. Ele explicou que por questões técnicas os vértices intermediários foram os mais penalizados. "O mercado é mais doado nesta região do janeiro de 2022 e janeiro de 2023, por isso o estrago é maior", afirmou.

Segundo o analista político da XP Investimentos, Victor Scalet, os intermediários refletiram o movimento de fundos zerando posições, principalmente nos vencimentos de janeiro de 2023 e 2025, além de algum fluxo estrangeiro. "Hoje foi um dia um pouco mais vazio. Não tem grande novidade para mexer nos preços", afirma Scalet, para quem um recuo do governo sobre o financiamento do Renda Cidadã poderia ter levado a curva a fechar e provocado alívio ao câmbio.

Pela manhã, o mercado chegou a trabalhar com a possibilidade de o governo voltar atrás ainda hoje nas propostas de uso de parte dos recursos do Fundeb e do orçamento destinado ao pagamento de precatórios, depois que o presidente Jair Bolsonaro falou em "buscar alternativas" para custear o programa. Também porque as medidas podem ser contestadas pelo Congresso e pelo Judiciário. "Alguns líderes do Congresso e o TCU já indicaram uma prévia ausência de suporte", comentaram os economistas do UBS Brasil.

Porém, ficou claro, posteriormente, que o governo pretendia levar a ideia adiante. O senador Márcio Bittar (MDB-AC), relator da PEC emergencial que vai criar o Renda Cidadã e responsável pelo parecer do pacto federativo, afirmou ao Estadão/Broadcast que não vai desistir. "Não me assusto assim tão fácil", afirmou, sobre a recepção negativa do mercado e do mundo político ao modelo de financiamento.

De acordo com o Haitong Banco de Investimentos, a curva projeta 44% de probabilidade de aumento de 0,25 ponto porcentual para a taxa no Copom de outubro e entre 65% e 70% de chance de alta de 0,25 ponto no encontro de dezembro.

 

Fonte:
Reuters/Estadão conteúdo

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