Dólar fecha acima de R$ 5,65, na máxima desde maio, com desconforto fiscal

Publicado em 01/10/2020 17:16 e atualizado em 02/10/2020 07:01 194 exibições

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SÃO PAULO (Reuters) - O dólar fechou na máxima em cerca de quatro meses e meio nesta quinta-feira, acelerando os ganhos perto do fechamento e empurrando o real ao posto de divisa com pior desempenho no dia, em sessão de novo mal-estar sobre questões fiscais.

A cotação negociada no mercado à vista subiu 0,61%, a 5,6531 reais, depois de oscilar entre ganho de 0,83% (para 5,6652 reais) e queda de 0,77% (a 5,5756 reais).

O dólar encerrou na máxima desde 20 de maio (5,6902 reais).

Dólar começa outubro em alta e vai a R$ 5,65 com incerteza fiscal

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O dólar inicia outubro em alta, impulsionado por um caldeirão de incertezas na cabeça dos investidores quanto ao futuro da situação fiscal no Brasil, que se deteriorou nas últimas semanas e segue sem rumo. Se continuar nessa direção, pode buscar os R$ 6,00, patamar que não foi alcançado nem no auge da turbulência da covid-19, o que já levanta questionamentos no mercado se o Banco Central não deveria agir com mais força para conter tamanha desvalorização do real. No ano, a depreciação é quase 41%, o que posiciona a divisa brasileira como o pior desempenho ao redor do globo.

Se antes já haviam questionamentos quanto à austeridade fiscal, o mais recente imbróglio do governo Bolsonaro, o financiamento ao Renda Cidadã, programa social que deve substituir o Bolsa Família, só fez piorar. E a cada dia os investidores ficam ainda mais sem visibilidade. A notícia negativa de hoje foi a fala do vice-presidente Hamilton Mourão, que sugeriu que o governo negocie com o Congresso a flexibilização do teto de gastos para custear o Renda Cidadã, já que não tem dá onde tirar dinheiro para bancar o programa.

"Tudo isso é muito ruim e aumenta a percepção de risco perante ao Brasil, que já é péssima entre os investidores estrangeiros", avalia o CEO e fundador da FB Capital, Fernando Bergallo. "O dólar a R$ 6,00 nunca esteve tão próximo, com o movimento de alta reverberando a crise de confiança em relação ao Brasil", acrescenta.

Após abrir o dia em baixa, chegando a cair pontualmente abaixo dos R$ 5,60, beneficiado pelo apetite por ativos de risco no exterior, o dólar engrenou em um movimento de valorização ante o real. Com a pressão do problema fiscal no Brasil, a divisa norte-americana seguiu em alta e, inclusive, acelerou a subida ao longo do final do pregão, batendo a máxima de R$ 5,66.

No fechamento, o dólar à vista encerrou com elevação de 0,63%, cotado a R$ 5,6541. Já no mercado futuro, a moeda para novembro subia 0,85%, cotado em R$ 5,6615 às 17h15.

Outro assunto monitorado pelos investidores nesta quinta-feira foi a divulgação dos dados da balança comercial brasileira, que teve superávit recorde em setembro. As exportações superaram as importações em US$ 6,164 bilhões. Este é o maior resultado para o mês na série iniciada em 1989.

O estrategista de macroeconomia e mercados do BB-BI, Hamilton Moreira, afirma que, desde que não impacte na inflação, o dólar elevado beneficia o setor externo. De acordo com ele, além da questão fiscal, as eleições nos Estados Unidos devem trazer mais volatilidade ao câmbio em outubro, com os investidores tirando dólares dos países emergentes. Passada a disputa, que será definida em 3 de novembro, a tendência é de que o dólar volte um pouco - isso se o resultado não for questionado, como o presidente Donald Trump tem sinalizado em caso de vitória do democrata Joe Biden.

Juros fecham em alta com indefinição de Renda Cidadã e oferta do Tesouro

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Os juros futuros terminaram o dia em alta, após mostrarem o alívio na abertura dos negócios. As taxas passaram a subir a partir do momento em que o Tesouro divulgou a oferta de títulos prefixados para o leilão, acima do que o mercado esperava, mantidos ainda no pano de fundo os ruídos políticos em torno do financiamento do programa Renda Cidadã. A indefinição do governo sobre o uso de parte da receita destinada ao pagamento de precatórios tem emitido sinalização negativa para os agentes, de que há falta de consenso, o que deve prolongar ainda mais a espera pela definição sobre de onde virão as receitas para custear o programa.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou em 3,12%, de 3,054% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 4,515% para 4,61%. O DI para janeiro de 2025 terminou como taxa de 6,53%, de 6,504% ontem no ajuste, e o DI para janeiro de 2027 fechou com taxa de 7,50%, de 7,484% ontem.

O mercado de juros chegou a ter um começo positivo, embalado pela melhora das estimativas sobre um acordo para o pacote fiscal nos Estados Unidos, mas que durou pouco. A oferta do Tesouro surpreendeu o mercado, que esperava uma postura mais contida, a exemplo do que foi a operação com NTN-B na terça-feira. Em termos de risco (DV01), a oferta de LTN e NTN-F na semana passada era de R$ 2,98 bilhões e hoje, R$ 4,5 bilhões.

A curva perdeu um pouco de inclinação, com as taxas de curto e médio prazo subindo mais do que as longas, mas segue ainda muito empinada na medida em que o governo vai postergando as soluções para o nó fiscal. Ontem, o ministro Paulo Guedes chegou a dar esperanças ao mercado ao dizer que não vê a receita dos precatórios como "saudável" para financiar o Renda Cidadã. Mas depois de uma reunião convocada de última hora no Palácio do Planalto ontem à noite, governistas e membros da equipe econômica silenciaram sobre o destino do programa. Hoje, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que o governo "provavelmente" não usará recursos dos precatórios para custear o programa.

"A semana foi marcada por tanto vaivém que é difícil apontar um culpado pela desordem. Contudo, quando um grupo de pessoas demonstra tamanha incapacidade para coordenar esforços, o culpado geralmente se encontra no topo do organograma", disseram os analistas da Guide, em relatório.

Felipe Sichel, estrategista-chefe do Modalmais, afirma que a curva está precificando que parte do desequilíbrio fiscal não será solucionado no curto prazo. "Não esta precificado descontrole fiscal absoluto, mas esse risco aumentou", afirmou.

Bolsa inicia outubro em alta de 0,93%, com Petrobras e NY

O Ibovespa parecia a caminho de iniciar o último trimestre do ano como fechou o período anterior, levemente no vermelho, mas, escorado em Nova York e impulsionado pelo desempenho positivo de ações da Petrobras, encontrou fôlego para recuperar os 95 mil pontos na etapa final. Firmando-se em alta e renovando máximas da sessão após as 15h30, o índice de referência da B3 encerrou perto do pico, em alta de 0,93%, aos 95.478,52 pontos, entre 93.599,05 e 95.486,33 pontos ao longo da sessão. O giro financeiro totalizou R$ 24,6 bilhões e, agora, o Ibovespa cede 1,57% na semana e 17,44% no ano.

Decisivo para a virada de jogo foi o salto observado em Petrobras após o ministro Luiz Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), seguir o voto proferido pelo ministro Alexandre de Moraes pela manutenção da venda das refinarias da petrolífera sem anuência do Congresso Nacional - levando então o placar para dois votos a um. Ao final da sessão, os ganhos observados na ação PN, que chegaram a superar 2%, e na ON, que se aproximaram do mesmo limiar, acomodaram-se a 1,22% na preferencial e a 0,91% na ordinária. Após o fechamento do Ibovespa, a votação no STF foi definida em 6 a 4 pela liberação do plano de venda de refinarias da Petrobras.

No quadro mais amplo, algumas notícias econômicas também ajudaram, ainda que modestamente, a mitigar a aversão a risco suscitada pela indefinição sobre a forma de financiamento do futuro Renda Cidadã. Hoje, a Secretaria de Comércio Exterior informou que o superávit comercial em setembro, de US$ 6,164 bilhões, foi o maior da série - mas a Secex ajustou levemente para baixo a previsão de saldo comercial para o ano, de US$ 55,4 bilhões para US$ 55,0 bilhões. Pela manhã, a arrecadação de impostos em agosto, de R$ 124,505 bilhões, a melhor para o mês nos últimos seis anos, surpreendeu positivamente - a leitura ficou levemente acima do teto das estimativas do mercado colhidas pelo Projeções Broadcast

Por outro lado, a tensão política entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não contribui para que as reformas deslanchem e o ajuste de rota essencial a 2021 se delineie, na interlocução entre Executivo e Legislativo. Tal esgarçamento acaba deixando em segundo plano o passo atrás de Guedes quanto ao uso de recursos destinados a precatórios no financiamento do Renda Cidadã. Hoje, o vice-presidente Hamilton Mourão se referiu às escaramuças entre Guedes e Maia como uma "coisa pessoal".

"Estamos no momento da verdade, de preparação para a volta à normalidade. Há decisões difíceis a serem tomadas e, nisso, há uma queda de braço combinada a balões de ensaio até que se chegue a uma convergência", observa Marcelo Audi, sócio-gestor da Cardinal Partners. "Bolsonaro tinha rejeitado propostas mais estruturais apresentadas por Guedes (para o Renda Brasil, depois Renda Cidadã). A História mostra que o (sistema) Político acaba chegando a uma solução, e acho que não ficaremos na solução mirabolante", acrescenta.

Ainda assim, "a situação é um fator de risco que precisa ser levado na ponta do dedo", aponta o gestor. "Foram muitos os momentos de tensão, mas Guedes continua a mostrar que sabe navegar nos momentos políticos mais agitados - esperamos que possa chegar a bom termo. Não se pode dar ao luxo de perder o Guedes, ele continua a ser a âncora", conclui.

Apesar das incertezas, Audi não está pessimista quanto ao desempenho da Bolsa neste último trimestre do ano. "Havia um frisson de IPO - e, agora dando uma acomodada, contribui para a racionalidade. O juro muito baixo ainda é um vetor importante: continua estimulando a busca por retorno, embora talvez sem o mesmo exagero. Ainda existem oportunidades."

"O Ibovespa teve um mês de setembro amargo, com queda de 4,8%", aponta Cristiane Fensterseifer, analista de ações da Spiti, chamando atenção para alguns destaques positivos, como Localiza, na ponta do mês (+17,7%), "após anunciar fusão com sua concorrente, a Unidas, para formar gigante com mais de 60% de mercado". Logo atrás veio Vale, com alta de 11,87%, favorecida pelos "bons preços do minério". "A economia da China, grande cliente, está se recuperando e o dólar, nas alturas frente ao real, ajudou também bastante a Vale. A empresa é quase uma impressora de caixa com este cenário, e anunciou retomada do pagamento de dividendos", acrescenta a analista.

Nesta quinta-feira, Vale ON fechou em baixa de 0,42%, mas acumula até aqui ganho de 14,71% no ano. Na ponta do Ibovespa, IRB subiu 8,14%, seguido por Cogna (+6,56%) e Multiplan (+5,76%) No lado oposto, Natura cedeu 4,99%, à frente de Qualicorp (-3,50%) e CVC (-2,60%).

"A combinação do primeiro pregão do mês, que sempre é marcado pela recomposição de carteira de fundos e corretoras, assim como o múltiplo atrativo de algumas empresas - estamos em tendência de baixa desde a perda dos 100 mil pontos -, pode explicar a recuperação nesta quinta-feira, sem um fato relevante do lado político ou econômico", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora, observando que "o Ibovespa encontrou maior pressão de compra sobre a faixa de 93 mil pontos" neste primeiro pregão de outubro.

Bolsas de NY fecham em alta, com investidor de olho em negociações por pacote

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As bolsas de Nova York fecharam em alta, em uma sessão marcada por expectativas a respeito das negociações por um novo pacote fiscal nos Estados Unidos. Com indícios de não haver um acordo, as bolsas chegaram a operar no negativo, mas se recuperaram. O bom desempenho de tecnologia levou a Nasdaq a fechar com a maior alta dentre os principais índices.

O Dow Jones encerrou o pregão com avanço de 0,13%, a 27.816,90 pontos. O S&P 500 subiu 0,53%, a 3.380,80 pontos. O Nasdaq se elevou 1,42%, a 11.326,51 pontos.

Ao longo do dia, diversos atores enviaram sinalizações sobre o pacote de estímulos, no geral sugerindo que não haveria um acordo entre republicanos e democratas. O líder do Partido Democrata no Senado, Chuck Schumer, afirmou que não há entendimento entre a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, e a Casa Branca, cuja porta-voz chegou a afirmar que Pelosi não estaria sendo "séria" durante as tratativas.

"Outubro é tradicionalmente um dos meses mais voláteis para as ações. Estima-se que as oscilações sejam 1% maiores neste mês do que em qualquer outro mês", afirma a BK Assets, que coloca o pacote de estímulos nos EUA como um dos fatores "não resolvidos" Com a eleição presidencial de 2020 em novembro, "a chance de grandes oscilações em ações é ainda maior", completa a consultoria.

"A saúde da economia dos EUA está em foco amanhã, com o payroll, que pode decidir como as ações serão negociadas em outubro", projeta a BK Assets.

Em tecnologia, a grande maioria das ações fechou o dia em alta. A tendência foi seguida por Facebook (+1,81%), Amazon (2,30%), Netflix (5,50%), Alphabet (+1,52%) e Twitter (+4,94%).

Em dia de baixas no petróleo, com a commodity se desvalorizando mais de 3% em Nova York e Londres, as empresas do setor tiveram perdas nas ações. A Chevron recuou 2,19%, e a Exxon Mobil caiu 3,47%.

 

 

Fonte:
Reuters/Estadão Conteúdo

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