Maior presença de gado poderia ter minimizado queimadas no Pantanal, diz ministra Tereza Cristina

Publicado em 10/10/2020 09:04 e atualizado em 11/10/2020 12:14 453 exibições

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(Reuters) - A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse em audiência no Senado nesta sexta-feira que uma maior presença de criação de gado no Pantanal poderia ter minimizado o desastre ambiental causado pelas queimadas no bioma, argumentando que os bois atuam como "bombeiros" pois se alimentam do capim que acabou fomentando as chamas.

Em audiência na comissão externa da Casa que acompanha as queimadas no Pantanal a ministra defendeu a necessidade de descobrir e combater as causas dos incêndios na região, mas fez a avaliação de que não seria adequado "criar muitas medidas" em um momento como o atual.

"Eu falo uma coisa que às vezes as pessoas criticam, mas o boi ajuda, ele é o bombeiro do Pantanal, porque é ele que come aquela massa do capim --seja o capim nativo, seja o capim plantado, se feita a troca. É ele que come essa massa para não deixar que ocorra o que neste ano nós tivemos", disse ela na audiência.

"Com a seca, a água do subsolo também baixou em seus níveis. Essa massa virou o quê? Um material altamente combustível, incendiário. Aconteceu um desastre porque nós tínhamos muita matéria orgânica seca, e, talvez, se nós tivéssemos um pouco mais de gado no Pantanal, teria sido um desastre até menor do que o que nós tivemos neste ano."

De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Pantanal fechou o mês de setembro com o pior registro de queimadas no bioma desde 1998, quando o Inpe começou seus registros. [nL1N2GS0V7]

A combinação de um ano extremamente seco com acúmulo de vegetação seca é apontado pelo Ministério do Meio Ambiente como as causas do aumento abrupto de queimadas, que já consumiram cerca de 25% da área do Pantanal, destruindo áreas como o Parque das Águas, maior refúgio de onças pintadas do país.

No entanto, servidores do Ibama e do ICMBio, em condição de anonimato, disseram à Reuters que houve um atraso de três meses na contratação de brigadistas para o trabalho preventivo de combate aos riscos de queimadas, tanto no Pantanal quanto na Amazônia. O governo federal começou o envio de ajuda aos Estados apenas em agosto, quando o Pantanal já queimava há um mês.

Além disso, há suspeitas de incêndios propositais. A Polícia Federal investiga cinco fazendeiros com terras na região onde teriam sido iniciados alguns dos principais focos, que se espalharam pelo bioma.

De acordo com a PF, o local de início das queimadas seria em regiões inóspitas dentro das fazendas e em áreas de proteção próximas a pastagens. A suspeita da PF é que o fogo foi iniciado intencionalmente para ocupar as áreas de proteção e abrir novas pastagens e saiu de controle.

Em nota, o líder do PSB na Câmara, Alessandro Molon (RJ), disse que a declaração da ministra não faz sentido.

"Isso porque, nos últimos 20 anos, o rebanho bovino no Pantanal cresceu 38% e, mesmo assim, estamos acompanhando queimadas cada vez mais graves", disse.

"Além disso, as cidades mais afetadas são aquelas que têm os maiores rebanhos de gado, como Cáceres, que tem mais de 1 milhão de bovinos --a maior criação no Estado--, e Poconé, onde o rebanho cresceu 48% nos últimos 11 anos", completou.

Para o parlamentar, as queimadas no Pantanal se devem a fatores como uma seca extraordinária causada pelo desmatamento, tanto do Pantanal quanto da Amazônia, a mudança global do clima e o desmonte dos órgãos de proteção ambiental promovido pelo governo Bolsonaro.

Bolsonaro defende Tereza Cristina e reafirma tese do 'boi bombeiro'

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O presidente Jair Bolsonaro defendeu a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, das críticas que ela vem recebendo por ter dito nesta sexta-feira, 9, em audiência pública da comissão temporária do Senado que acompanha as ações de enfrentamento aos incêndios no Pantanal, que se houvesse mais bois soltos na região, o número de queimadas por lá teria sido menor. Segundo disse Tereza Cristina aos senadores, o gado pantaneiro é o "boi bombeiro" já que ele pasta o capim que se transforma em massa combustível para os grandes incêndios no bioma.

"Sempre se criou boi na invernada no Pantanal. E o boi come capim, que uma vez seco pega fogo. Então boi comia o capim e ai não ia pegar fogo. Aí os ambientalistas xiitas proibiram. Ai fica um a dois anos sem pegar fogo em nada, acumula uma massa de um combustível enorme. E quando pega fogo na frente é uma desgraça", disse o presidente.

De acordo com Bolsonaro, o Pantanal é maior que os Estados de Rio de Janeiro, Espírito Santo, Sergipe e Alagoas juntos. "Estes quatro Estados são menores que o Pantanal. Como você vai combater fogo num lugar desse? E outra, não tem vias de acesso. O próprio nome diz: Pantanal", disse o presidente.

De acordo com o mandatário, parte dos incêndios é causada propositalmente, mas a maior parte é provocada pelo caboclo, pelo nativo. "E tem também o fogo que pega espontâneo", afirmou o presidente. "Na Amazônia em si não pega fogo porque é úmida. Agora, quanto mais gente reverbera isso como se eu fosse o responsável, o pessoal de fora se amarra para gente comprar os produtos deles", disse Bolsonaro.

Desmatamento da Amazônia cai pelo 3º mês seguido, mas mantém patamar elevado

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SÃO PAULO (Reuters) - O desmatamento da Amazônia registrou queda na comparação anual pelo terceiro mês seguido, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados nesta sexta-feira, que mostraram também, no entanto, que a devastação da floresta segue em patamares elevados na comparação com anos anteriores a 2019.

De acordo com números do sistema Deter, do Inpe, que aponta alertas de desmatamento e tempo real, a Amazônia perdeu 964 quilômetros quadrados de floresta em setembro, uma queda de 33,7% em comparação com os 1.454 quilômetros quadrados desmatados em setembro do ano passado, mas um número maior do que os registrados nos meses de setembro de 2015, 2016, 2017 e 2018.

De janeiro a setembro deste ano, o desmatamento da floresta tropical somou 7.063 quilômetros quadrados, uma queda de 10,25% ma comparação com os primeiros nove meses de 2019, mas patamar também bastante superior ao registrado entre 2015 e 2018, quando o maior acumulado em nove meses foi de 4.899 quilômetros quadrados registrados em 2016.

Ambientalistas culpam o governo do presidente Jair Bolsonaro, que reduziu os mecanismos de fiscalização ambiental e defende a mineração e a agricultura em áreas protegidas da Amazônia, por incentivar madeireiros ilegais, grileiros e garimpeiros a destruírem a floresta.

"A situação do desmatamento ainda é péssima, os números ainda são horríveis e continuam inaceitáveis. A marca só parece boa se ela for comparada ao recorde negativo do próprio governo", disse o secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, em áudio enviado à Reuters.

"Só para a gente ter uma ideia, se a gente pegar os números dos anos imediatamente anteriores ao governo Bolsonaro --2016, 2017 e 2018-- eles são bem menores do que os que foram divulgados agora em 2020", disse.

"Antes a gente media desmatamento na Amazônia na casa de centenas de quilômetros e com o Bolsonaro a gente inaugurou uma nova era em que a gente mede alertas de desmatamento na casa dos milhares de quilômetros quadrados. Dos 19 meses do governo, 15 foram de piores marcas em termos de alertas de desmatamento."

Além do desmatamento, a Amazônia tem sofrido com queimadas, que também atingiram o Pantanal. Este cenário levou a um aumento da pressão internacional sobre o governo Bolsonaro por causa de sua política ambiental e levou o governo a enviar as Forças Armadas para conter crimes ambientais na Amazônia.

Bolsonaro diz que pretende tirar a região da pobreza e que a quantidade de floresta ainda preservada mostra que o Brasil é um modelo ambiental. Ele também aponta que há interesses e cobiça internacional sobre a Amazônia.

Na semana passada, durante debate entre candidatos à Presidência dos Estados Unidos, o postulante democrata Joe Biden propôs um esforço para fornecer 20 bilhões de dólares em financiamento para a preservação da floresta e ameaçou o Brasil com "consequências econômicas significativas" se o país não parar o desmatamento.

Em resposta, Bolsonaro disse que a declaração do candidato democrata sobre a Amazônia foi "desastrosa e gratuita" e que ele fez uma ameaça infundada.

Procurado, o Ministério do Meio Ambiente não se manifestou sobre os dados divulgado nesta sexta.

Apesar da queda nos dados mensais de desmatamento, o dado oficial sobre a perda florestal de 2020 deve registrar uma nova alta.

A medição anual do desmatamento da Amazônia é feita pelo sistema Prodes, também do Inpe, entre os meses de agosto de um ano a julho do ano seguinte. De acordo com os dados do Deter, que costumam ser menores que os do Prodes, entre agosto de 2019 e julho de 2020, o desmatamento foi de 9.216 quilômetros quadrados, alta de 34,6% na comparação com o período anterior.

O Instituto de Pesquisa da Amazônia (Ipam) estima que o dado anual sobre desmatamento para o período 2019/2020, que deve ser divulgado em novembro, ficará acima de 14 mil quilômetros quadrados.

Fonte:
Reuters

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