Cientistas questionam OMS e querem investigação independente na China (The Wall Street Journal e Le Monde)

Publicado em 05/03/2021 09:25 70 exibições
Vírus pode ter surgido em laboratório, dizem os cientistas; OMS acredita em transmissão por animais (no Poder360)

Um grupo de cientistas está pedindo investigação independente sobre o surgimento do coronavírus causador da covid-19. Eles dizem acreditar que o Sars-CoV-2 pode ter surgido em um laboratório chinês.

Uma equipe de especialistas da OMS (Organização Mundial da Saúde), enviada à China no mês passado, diz suspseitar que o vírus foi transmitido por animais.

Em uma carta aberta, publicada pela 1ª vez no The Wall Street Journal e no Le Monde, o grupo lista o que vê como falhas no inquérito da OMS e sugere que outra investigação, com acesso total aos registros da China, seria a mais adequada.

Eis a íntegra da carta, em inglês (160 KB).

Richard Ebright, biólogo molecular da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, e um dos cientistas que assinaram o documento, diz que a insatisfação com a missão da OMS cresceu a partir de uma série de discussões on-line entre cientistas e especialistas em políticas sanitárias. Eles formaram o que ficou informalmente conhecido como Grupo de Paris.

Ele afirma que ninguém no grupo pensa que o vírus tenha sido intencionalmente criado como uma arma. Segundo Ebright, os membros estão convencidos de que o coronavírus pode ter surgido em laboratório e, por meio infecção acidental, ter se transferido para os humanos. Essa teoria seria, na visão do Grupo de Paris, tão plausível quanto a de que o vírus pulou de animais para humanos, defendida pela OMS.

A carta, de acordo com Ebright, “foi enviada a altos níveis da OMS na 3ª feira [2.mar.2021]”. 

Os cientistas observam que o estudo da OMS foi um esforço conjunto de uma equipe de especialistas externos, selecionados pela organização, com pesquisadores chineses. O relatório final deve ser acordado por todos. Na carta, os signatários enfatizam que a equipe teve acesso negado a alguns registros e não investigou laboratórios na China.

“As conclusões da equipe, embora potencialmente úteis até certo ponto, não representam nem a posição oficial da OMS nem o resultado de uma investigação irrestrita e independente”, lê-se em trecho do documento.

David A. Relman, professor de medicina e microbiologia da Universidade de Stanford e membro do conselho de estudos da comunidade de inteligência da National Academies of Science, um órgão consultivo do governo federal norte-americano, chama a investigação da OMS de “enviesada”. Ele não assinou a carta, mas diz concordar com a avaliação de que a investigação não foi totalmente imparcial.

“Concordo plenamente, com base no que sabemos até agora, que a investigação da OMS parece ser tendenciosa, enviesada e insuficiente. O mais importante é que, sem total transparência e acesso aos dados e registros primários, não podemos entender a base de qualquer um dos comentários emitidos até agora em nome da investigação ou da OMS.”

Cientistas que trabalham com coronavírus continuam a desenterrar e relatar evidências para apoiar a evolução natural e a transmissão do vírus por animais.

O chefe da EcoHealth International, Peter Daszak, também especialista em doenças animais e sua conexão com a saúde humana, diz que a pressão da carta para investigar a possível origem laboratorial do vírus era uma posição “apoiada por agendas políticas”.

“Exorto fortemente a comunidade global a aguardar a publicação do relatório da missão OMS”, declara Daszak.

Brasil confirma 6 casos de reinfecção; saiba como isso redefine pandemia

Podem afetar pessoas vacinadas; E contribuir para surgimento de variantes (Poder360)

O Ministério da Saúde divulgou, nesta 5ª feira (4.mar.2021), uma atualização sobre os dados da pandemia. O Boletim Epidemiológico nº 52 traz informações da semana de 21 a 27 de fevereiro. Segundo o documento, o país tem 6 reinfecções confirmadas pelo coronavírus.

São 3 os casos provocados pelo vírus que circula no Brasil desde 2020. O 1º, registrado no Rio Grande do Norte, e mais 2: em São Paulo e em Goiás.

Pela nova variante do vírus, conhecida como P.1, foram 3 reinfecções, todas no Amazonas.

Em 1º de março, pesquisadores da Ufop (Universidade Federal de Ouro Preto) e de outras instituições confirmaram uma reinfecção em Minas Gerais, provocada por uma variante até então inédita no país: a B.1.2, disseminada nos Estados Unidos.

Até a publicação desta reportagem, o Ministério da Saúde não havia confirmado o novo caso. A Secretaria de Saúde de Minas Gerais comprovou a reinfecção.

Segundo o ministério, o monitoramento de possíveis novos casos de reinfecção é feito mantendo um fluxo de comunicação direta com as equipes de vigilância dos Estados. “Sempre que ocorre a suspeita ou a confirmação de novos casos, a pasta é notificada”, afirmou ao Poder360.

A REINFECÇÃO

Uma mulher de 29 anos participou de uma comemoração de fim de ano com outras 10 pessoas em Manaus (AM), em 19 de dezembro de 2020. Dias antes ela havia feito um teste sorológico para covid-19, o “teste rápido”. Queria saber se ainda tinha os anticorpos contra o novo coronavírus e se estaria protegida de uma nova infecção.

O teste indicou a presença dos anticorpos em seu sangue. Em março de 2020 ela teve o diagnóstico de covid, com sintomas moderados. Não precisou ser internada, mas passou dias com muita febre.

Na véspera de natal (24.dez.2020), um dos participantes da festa teve a infecção confirmada pelo SARS-CoV-2. Depois de 3 dias, a mulher começou a ter sintomas de febre, tosse, dor de garganta e diarreia. Em 30 de dezembro, veio a confirmação de que ela estava, de novo, como covid-19.

Em janeiro, um estudo coordenado por Felipe Naveca, pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Amazônia apontou que a reinfecção tinha sido causada pela variante brasileira do coronavírus, da linhagem B.1.1.28.1 surgida em Manaus e conhecida como P.1.

Foi o 1º caso confirmado de reinfecção pela P.1 no mundo.

PANORAMA MUNDIAL

De acordo com o Ministério da Saúde, o número de reinfecções no Brasil está dentro da média de casos verificada em outros países. A agência de notícias holandesa BNO News lista os casos confirmados de reinfecção pelo mundo e, segundo o levantamento, só Estados Unidos (11 casos), Catar (9 casos) e Índia (7 casos) têm mais reinfecções do que o Brasil. O portal inclui o caso de reinfecção de Minas Gerais, ainda não confirmado pelo Ministério da Saúde. Assim, o Brasil aparece com 7 casos.

A China aparece com 6 casos. Bélgica e Holanda têm 4 reinfecções, e o Canadá, 3. Panamá, Paraguai, México, Peru, Equador, Suécia, Suíça, Espanha, Reino Unido, Israel, Coreia do Sul e Hong Kong (onde foi registrado o 1º caso do tipo, em 24 de agosto de 2020) registraram 1 reinfecção, até a última atualização do painel, feita em 2 de março.

Diante dos mais de 115 milhões de casos de coronavírus no mundo, as 62 reinfecções em 15 meses de pandemia podem sugerir que contrair o vírus mais de uma vez é um fenômeno raro ou de difícil detecção.

Um dos fatores que pode interferir na notificação de reinfecções é a metodologia adotada. Para definir um caso de reinfecção, o Ministério da Saúde adota os seguintes critérios:

  • O tempo entre a infecção e a reinfecção tem que ser de, no mínimo, 90 dias;
  • É necessária a confirmação por exame RT-PCR (molecular), que precisa dar positivo para coronavírus nas 2 ocasiões;
  • O resultado do sequenciamento genético do vírus nas 2ª infecção deve ser diferente do da 1ª, indicando que se trata de uma nova infecção.

Especialistas em saúde ouvidos pelo Poder360 afirmaram que o critério dificulta os diagnósticos de reinfecção. No Brasil até o momento foram feitos 14,7 milhões de testes RT-PCR, segundo o Ministério da Saúde.

Para tentar ganhar tempo nas detecções, a Fiocruz Amazônia desenvolveu um tipo de teste RT-PCR capaz de confirmar a presença do SARS-CoV-2 e se a infecção se deu por uma das 3 variantes mais perigosas do vírus: a brasileira P.1, a britânica e a sul-africana. A testagem possibilita o processamento de centenas de amostras por dia.

O QUE SE SABE

Mesmo com o aperfeiçoamento das testagens, pesquisas científicas vêm demonstrando que a reinfecção pode não ser tão comum.

Um estudo (íntegra – 386KB) publicado em 24 de fevereiro de 2021 na revista JAMA Internal Medicine aponta que as pessoas já infectadas pelo coronavírus podem desenvolver uma proteção maior, o que explicaria o número reduzido de reinfecções.

Feito por pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer, vinculado ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, o estudo reuniu 3,2 milhões de norte-americanos, 88,3% deles com teste negativo para coronavírus. Os outros 11,6% já haviam se infectado com o coronavírus antes, e tinham desenvolvido os anticorpos.

Do 1ª grupo, 3% acabou se infectando com o coronavírus. No 2º, a proporção foi de 0,3%.

A imunidade desenvolvida pelos anticorpos pode durar de 6 a 8 meses, de acordo com as evidências disponíveis. É o que afirmou ao Poder360 Guilherme Werneck, vice-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) e professor do Instituto de Medicina Social (IMS/UERJ).

Depois desse tempo, há uma queda na quantidade de anticorpos, que “aparentemente não influi na resposta imune total, porque existe uma resposta imune celular”, segundo o professor. A imunidade celular tem um componente de memória, e pode fazer o sistema imunológico do organismo voltar a produzir as defesas contra o novo coronavírus, no caso de um novo contato com o vírus.

Pesquisadores da Fiocruz se debruçaram sobre a efetividade da proteção “natural”, como é chamada a imunidade adquirida após uma infecção. Chamou a atenção dos pesquisadores casos como o da amazonense que se reinfectou mesmo tendo os anticorpos.

Em estudo (íntegra – 640KB) foram levantadas algumas hipóteses para explicar o caso. A 1ª explicação tem a ver com a falha da proteção natural. A paciente do Amazonas pode ter desenvolvido uma imunidade protetora depois da 1ª infecção, mas o nível de anticorpos caiu ao longo do tempo, deixando-a vulnerável a novas infecções.

Outra hipótese é de que, depois da infecção original, ela passou a produzir anticorpos com menor capacidade de combater o vírus, o que também afetaria a capacidade de defesa do organismo.

Finalmente, uma 3ª possibilidade alerta para um quadro mais preocupante. Os casos de reinfecção por variantes podem indicar que as linhagens mutantes do vírus, como a P.1, têm a capacidade de escapar dos anticorpos produzidos na 1ª infecção.

Um estudo de cientistas do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul comprovou que é possível infecções simultâneas com linhagens diferentes do coronavírus, em uma mesma pessoa. Trata-se do 1º registro de uma coinfecção pelo Sars-CoV-2.

A versão final da pesquisa (íntegra – 3 MB) foi publicada na revista científica Vírus Research em 22 de fevereiro.

Em um dos casos estudados, a infecção se deu com 2 linhagens já circulantes no Brasil desde o início da pandemia. Em outro, além de uma cepa mais antiga do vírus, foi detectada a variante P.2, identificada pela 1ª vez no Rio de Janeiro.

AS VARIANTES

O potencial das variantes reinfectarem a população traz novos contornos ao que se entende sobre a pandemia. Torna mais restrita a possibilidade de atingir uma “imunidade de rebanho”, já que o vírus pode passar por alguma mutação e voltar a oferecer perigo às pessoas, mesmo as que já tiveram coronavírus antes.

Os vírus mudam sempre e toda mutação está relacionada com estratégias evolutivas visando a maior propagação possível. “A vasta maioria das mutações são irrelevantes epidemiologicamente”, afirmou Guilherme Werneck.

O professor acrescenta que “algumas mutações podem trazer benefícios para o vírus: aumentar a transmissibilidade, escapar da resposta imune, desenvolver uma doença mais grave. São mutações que podem caminhar para vários sentidos”.

Os maiores riscos oferecidos pelas variantes levaram à identificação das principais cepas em circulação no mundo e à classificação das “variantes de preocupação”. De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), as 3 principais são a do Reino Unido, da África do Sul e do Brasil.

A presença da variante brasileira é uma das explicações para a explosão de casos de coronavírus e de mortes pela covid-19 no Estado do Amazonas. Um estudo da Fiocruz (íntegra – 1,2MB) indicou que um adulto infectado com a variante brasileira tem carga viral –quantidade de vírus no corpo– 10 vezes maior em relação a uma infecção por outras variantes.

O ministro da saúde, Eduardo Pazuello, disse que a disseminação das variantes fez com que a pandemia no Brasil chegasse a uma “nova etapa” e que houvesse aumento de casos nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul.

O Brasil já registrou 204 casos de variantes de preocupação. Até o momento (20.fev.2021), 17 Estados têm pessoas infectadas com as variantes do Reino Unido (B.1.1.7) e do Brasil (P.1). A variante da África do Sul ainda não foi encontrada no país, segundo o Ministério da Saúde.

Quanto mais os vírus circulam, mais estão sujeitos a mudanças, afirmou Werneck. “Então a melhor maneira de evitar o aparecimento de novas variantes com relevância epidemiológica é reduzir drasticamente a circulação do vírus. Porque você dá menos oportunidade dele desenvolver uma vantagem evolutiva”, disse.

Uma nota técnica divulgada pela Fiocruz em janeiro explica que a adaptação evolutiva do coronavírus se deu de forma convergente em diversas regiões do planeta. No processo de contágio em milhões de pessoas, o vírus desenvolveu, simultaneamente em diversos países, linhagens com as mesmas 3 mutações, que favorecem sua disseminação.

“A variante foi um dos principais fatores para uma explosão tão grande de casos no Amazonas, e não os casos de reinfecção”, afirmou ao Poder360 Felipe Naveca, vice-diretor de pesquisa do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia). “Da experiência que estamos vendo, a reinfecção não é tão rara assim, mas também não aparenta ser o principal motivo do aumento de casos. Muitos pacientes nunca tinham sido positivos antes e agora foram”, declarou.

VACINAS

Além de mais transmissíveis, as variantes do coronavírus podem escapar da proteção oferecida pelas vacinas. A variante de Bristol, no Reino Unido, é um exemplo. Na África do Sul, um ensaio clínico apontou que a vacina da farmacêutica AstraZeneca produzida em parceria com a Universidade de Oxford tem “baixa eficácia” para proteger da variante encontrada no país.

“O ‘drible’ da variante na vacina é algo que não pode ser descartado e é motivo de grande preocupação”, disse Naveca. “Mas a própria OMS recomenda que não se deve deixar de vacinar. Porque a gente não tem só uma variante circulando”.

São 2 as vacinas em aplicação no Brasil: a de Oxford/AstraZeneca e a CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou o uso emergencial no país em janeiro deste ano.

De acordo com a agência, as vacinas em uso emergencial no Brasil não têm estudos a respeito da eficácia diante de variantes do coronavírus. “Entretanto, não há dados no momento que indiquem alteração do perfil de eficácia das vacinas”, afirmou ao Poder360.

A Anvisa declarou que mantém contato com autoridades internacionais e as desenvolvedoras das vacinas para discutir o impacto das novas cepas do coronavírus sobre os atuais imunizantes.

A Secretaria de Saúde de São Paulo, pasta a qual o Instituto Butantan é subordinado, afirmou ao Poder360 que não há comprovações científicas de que as variantes sejam mais transmissíveis ou que provoquem quadros mais graves de covid-19, nem evidências sobre sua relação com a capacidade de resposta imune das vacinas disponíveis.

Cientistas estimam que pode levar 2 meses para adaptar as vacinas existentes às variantes.

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Fonte:
Poder360

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