Semana reserva juros na Europa, IPCA e emprego nos EUA

Publicado em 03/10/2011 07:53 250 exibições
Outubro começa com pesada agenda de indicadores. Na Europa, as atenções se dirigem a uma reunião de ministros de Finanças e às decisões de juros do Banco Central Europeu (BCE) e Banco da Inglaterra (BoE).

Nos Estados Unidos, o ponto alto é a divulgação dos dados oficiais sobre o mercado de trabalho no mês de setembro. Por aqui ,o destaque fica por conta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechado para o mês de setembro.

Nesta segunda-feira, os tradicionais Boletim Focus, com projeções atualizadas sobre inflação, câmbio e desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), a balança comercial e o Índice de Preços ao Consumidor (IPC).

Nos EUA, merece destaque o índice de atividade industrial. Está prevista leve baixa, de 50,6 em agosto para 50,4 em setembro. A linha dos 50 pontos divide o crescimento da contração. Também saem os gastos com construção e as montadoras apresentam as vendas de veículos no mês passado.

Amanhã, a agenda local traz o desempenho da indústria em agosto. Na agenda americana atenção ao pronunciamento do presidente do Federal Reserve (Fed), banco central americano, Ben Bernanke, que fala sobre economia e política monetária ao Congresso.

Na quarta-feira, a ADP, empresa que processa folhas de pagamento, mostra a criação de vagas no setor privado dos EUA em setembro. A quinta-feira reservas as decisões de política monetária na Europa.

A semana acaba com o IPCA e com os dados oficiais sobre a criação de vagas e taxa de desemprego nos EUA.

Mercados na sexta-feira

O pregão se sexta-feira foi uma boa síntese de todo o mês de setembro. Saída de ativos de risco e busca por proteção no dólar e títulos da dívida americana.

O assunto em pauta em setembro e que segue na agenda de outubro é como equacionar o endividamento da Grécia e outros países e como evitar que o sistema financeiro tombe, ameaçando a existência do euro. Nos EUA, o baixo crescimento e falta de novos empregos seguem na pauta. E o assunto relativamente novo é a preocupação com o ritmo de desaquecimento da economia chinesa.

Entre as matérias-primas, o barril do tipo WTI caiu 3,6% na sexta-feira, para US$ 79,20. No mês, a queda foi de 11% e no trimestre a variação negativa ficou em 17%. Ainda nas commodities, o índice CRB cedeu 2,55% no dia, e 13% no mês.

*Bovespa

O tombo das bolsas americanas em setembro, bem como a queda das commodities, atingiu em cheio o mercado acionário brasileiro. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) desabou no período, ao perder 7,4%. A queda foi a maior do ano e a magnitude não era vista desde o auge da crise financeira americana, em outubro de 2008 (-24,8%).

No trimestre, o Ibovespa ainda recuou 16,2%, a quarta depreciação seguida e a mais expressiva desde a baixa de 24,2% vista nos três últimos meses de 2008.

No acumulado do ano, Bovespa deve 24,5% - apenas fevereiro (1,22%) e março (1,79%) foram meses positivos.

Na sexta-feira, a variação também foi negativa. Queda de 1,99%, para 52.324 pontos. O giro financeiro somou R$ 6,43 bilhões.

Mesmo com a forte queda da bolsa brasileira, o fundo do poço pode não ter sido atingido, na avaliação de analistas.

Embora esteja mais otimista com os próximos meses, o sócio-diretor da Geração Futuro, Wagner Salaverry, assinala que a preocupação com o front externo continua e, no Brasil, a inquietação com os próximos passos do Banco Central (BC) também angustia os investidores.

Salaverry, contudo, não traça uma comparação direta do momento atual com a crise financeira de 2008 e ressalta que a principal preocupação segue com a pessoa física, que já resgatou mais de R$ 5,2 bilhões da bolsa no ano. Os investidores institucionais, por sua vez, tiraram R$ 4 bilhões e os estrangeiros, cerca de R$ 600 milhões.

*Câmbio

Um mês de variações superlativas no câmbio. A valorização do dólar superou a registrada nos períodos mais agudos da crise financeira de 2008. O dólar comercial subiu 18,14% em 21 pregões, maior ganho mensal desde setembro de 2002, quando a valorização foi de 24,92%. Em setembro de 2008, ápice da crise, o dólar tinha avançado 16,45%.

Na sexta-feira, o preço da moeda também subiu de forma vigorosa. O dólar comercial terminou com alta de 2,06%, a R$ 1,882 na venda, mas chegou a fazer máxima a R$ 1,892.

Na semana, o dólar subiu 2,90%. No terceiro trimestre, a valorização é de 20,5% e no ano fica em 13%. Da mínima do ano, registrada em 26 de julho, a R$ 1,537, o salto é de 22,45%.

Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), o dólar pronto avançou 2,17%, para R$ 1,889. O giro do dia ficou em US$ 66 milhões contra US$ 118,5 milhões no pregão anterior.

Também na BM&F, o dólar para setembro, que já concentra a liquidez, subia 2,04%, a R$ 1,8925 antes do ajuste final. O dólar para outubro, que expirou no fim da sessão, avançava 0,73%, a R$ 1,854.

Os motivos para a disparada de preço no mês não diferem muito da valorização do dia. A piora de humor externo aliada à perspectiva de novas reduções na taxa Selic e limitações regulamentares no mercado de derivativos são os fatores que explicam tal comportamento do mercado.

Pela ordem, o dólar ainda representa reserva de liquidez em momentos de incerteza, e incerteza não faltou no decorrer do mês. A crise da dívida na Europa teve mais um triste capítulo com maior envolvimento do setor financeiro, que sofreu com restrições de liquidez e perda de confiança. Na dúvida, os investidores correram para o dólar e para os papéis americanos.

Por aqui, o BC cortou a Selic em meio ponto de forma “surpresa” em 31 de agosto e o mercado segue trabalhando com novas reduções de juros. Quanto menor a taxa local, menos atraentes as operações de arbitragem. Mas não foi só essa questão aventada pelos agentes, que ainda estão avaliando a estratégia do BC.

Esses eventos acentuaram o viés comprador. O Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no aumento de posição vendida (aposta no real) em derivativos deixou o mercado assimétrico. Quem compra não paga nada a mais, mas quem quiser vender deixa 1% de “pedágio” ao governo. Por isso mesmo que o dólar sobe muito mais aqui do que no mercado externo e cai muito menos também nos dias de melhora.

Cabe ressaltar que a movimentação ficou concentrada no mercado futuro. Onde os estrangeiros reverteram um estoque vendido em dólar futuro de US$ 2,646 bilhões em comprado de US$ 9,869 bilhões.

Além da zeragem da posição vendida foi observada firme entrada de novos compradores no mercado de dólar futuro, seja para hedge (proteção) de posições seja para especulação.

Essa troca de mão nunca acontece de forma ordenada e serena. E isso ficou evidente na semana passada, quando o BC teve de vir a mercado vender swap cambial (o que equivale a ofertar moeda no mercado futuro) pela primeira vez em mais de dois anos. Até então, o BC vinha comprando dólares tanto no mercado à vista quanto futuro.

No lado do câmbio físico, setembro também assistiu a uma virada de mão dos bancos, que passaram a ficar comprados em dólar pela primeira vez desde março de 2010.

O interessante é que o mês de outubro não oferece, por ora, grandes perspectivas de melhora. A situação na Grécia não foi resolvida, o mercado segue trabalhando com novas reduções de juro e o IOF em derivativos continua vigente.

*Juros futuros

Os contratos futuros devolveram a breve alta apresentada no pregão anterior, depois que o Relatório de Inflação do BC indicou menor probabilidade de cortes mais acentuados da Selic.

O movimento de baixa da sexta-feira mostra relação com o quadro externo, onde as taxas dos papéis americanos e de outros governos também recuaram em um dia de marcada aversão ao risco.

Também em pauta nas mesas declarações da presidente Dilma Rousseff, de que é  "inadmissível" que o Brasil erre desta vez na condução de sua política monetária. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, comentou ainda que o governo tem munição para reduzir a taxa de juros.

Olhando além do intradia, um estrategista avalia que o mercado está “perdido”, tanto em termos fundamentais quanto técnicos. Reflexo disso é a grande variação observada recentemente nas taxas futuras.

Pelo lado dos fundamentos, o especialista lembra que o Relatório de Inflação mostrou piora nas projeções para o IPCA e menor crescimento - algo que não abriria espaço para novos cortes de juros. Mas a visão corrente no mercado é de que acontecerão, ao menos, mais dois cortes de 0,50 ponto percentual na Selic, que cairia dos atuais 12% para 11% ao ano.

Essa percepção de novos cortes tem respaldo na visão de que a deterioração do quadro externo vai resultar em menor inflação e atividade local. No entanto, diz o estrategista, ainda não está claro se esse “repasse” vai ocorrer ou se vai acontecer em magnitude suficiente para conter as pressões inflacionárias.

No lado técnico, o especialista chama atenção para a menor posição do investidor estrangeiro no mercado de juros. A posição líquida em contratos de juros, que já chegou a passar de 3 milhões de contratos, ronda 1,6 milhão.

Ainda na ponta técnica, esse mesmo estrategista acredita que o diferencial de taxa entre os contratos curtos e os longos está muito reduzida, algo que não condiz com a percepção transmitida por parte do mercado de preocupação com futuras pressões inflacionárias.

Até as 16h10, foram negociados 1.130.066 contratos, equivalentes a R$ 102,59 bilhões (US$ 56,08 bilhões), elevação de 8% sobre o registrado no pregão anterior. O vencimento janeiro de 2012 foi o mais negociado, com 402.920 contratos, equivalentes a R$ 39,24 bilhões (US$ 21,45 bilhões).

Fonte:
Valor Online

1 comentário

  • Cássia Ferreira Andrade Rio de Janeior - RJ

    Incomoda o fato da presidenta Dilma Rousseff chamar para si a responsabilidade sobre a política de juros do país. Uma política alinhada com aqueles que representam o povo e lutam por mais emprego, mais investimento e contra a recessão. Sugiro a leitura do Projeto Nacional: http://blogprojetonacional.com.br/a-democracia-nao-chega-a-economia/

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