Oferta x Demanda: Consumo de soja tem potencial para absorver oferta maior

Publicado em 20/03/2017 07:48
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Mapa da Ásia

As notícias de uma grande safra na América do Sul tem sido recorrentes nas últimas semanas. A colheita no Brasil já passa de 50% da área, de acordo com o levantamento de consultorias privadas, e na Argentina, está prestes a ser iniciada. Na outra ponta, porém, o potencial mundial de consumo desse produto cresce em uma velocidade ainda mais acelerada do que a produtividade nos principais produtores e exportadores da oleaginosa. 

"Enquanto a economia do mundo cresce 3% ao ano, o consumo de ração animal tem uma alta de 5% a 7%", diz o consultor de mercado Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting, com uma demanda que passa, anualmente, dos 350 milhões de toneladas de um produto baseado, essencialmente, de farelo de soja e milho. Fato é que o consumo de alimentos em geral é crescente mundo fora e de forma ainda muito expressiva, acompanhando a pujança de alguns países consumidores que têm se destacado, ao lado da China - a maior compradora global da commodity.

Vietnã 

Um dos destaques do boletim mensal de oferta e demanda do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) foi o Vietnã. A perspectiva é de que suas importações de soja e de farelo, em 2017, continuem crescendo, e o mercado deverá chamar a atenção dos exportadores brasileiro, já que seu principal fornecedor é os Estados Unidos. Na safra 2010/11, este cenário era inverso. 

Importação de Soja - Vietnã

Fonte: USDA

Em 2016, os vietnamitas importaram mais de 1,5 milhão de toneladas de soja em grão e 5,1 milhões de toneladas de farelo, elevando seu consumo total de proteína em 13%. Para este ano, se espera um aumento no uso de ração animal da ordem de 10%. E apesar de o mercado grão do país ter sido ampliado para os americanos, no caso do farelo, o Brasil saiu na frente.  

"Com um PIB crescente, um aumento da população urbana e mais a transição para uma dieta mais rica em proteína tem sido alguns dos principais fatores que promoveram um avanço da produção vietnamita de carne, além de uma maior necessidade de alimentos em geral", relata o departamento. 

Neste cenário, a projeção é de que, ainda em 2017, a produção local de aves cresce 5% e a de suínos, 2%, índices parecidos com os de 2016. O destaque, porém, fica por conta da aquicultura, com suporte forte dos mercados doméstico e para exportação. Assim, crescem não só as importações de soja, mas também de outros grãos para ração como milho, trigo e os chamados DDGs.

Ainda como explica Brandalizze, o Vietnã vem buscando se consolidar como importante player no mercado da carne de frango, sendo produtor, consumidor e exportador para seus países vizinhos, os quais também vêm adquirindo hábitos de uma dieta mais rica nutricionalmente, ampliando seu consumo de proteína animal, leite e derivados. 

O gráfico a seguir, da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) mostra as projeções para o consumo de carne de aves de 2010 a 2025 e as mesmas são crescentes não só no Vietnã - apesar dele ser o destaque - mas também nas Filipinas, na Tailândia, na Indonésia e entre os países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). 

Indonésia e Tailândia

A população da Indonésia está somente atrás da China, da Índia e dos Estados Unidos e, por lá, a demanda por alimentos tem crescido de 15% a 20% ao ano. "Apesar dos problemas políticos, a economia da Indonésia é pujante e eles têm de importar quase todos os tipos de alimento", diz o consultor da Brandalizze Consulting.

E ao lado da Tailândia, outro consumidor com enorme potencial, aumentam continuamente as importações também dos componentes de ração animal, especialmente de farelo de soja, que não conta com um concorrente ainda à altura de todos os seus benefícios, principalmente seu teor de proteína. 

As importações tailandesas de soja em grão devem crescer 150 mil toneladas para chegar as 2,8 milhões. E embora as compras de farelo devem cair ligeiramente e chegar as 3,0 milhões de toneladas, as margens de esmagamento no país são positivas e seguem melhorando. 

O Sudeste Asiático, como um todo, deverá importar 17,03 milhões de toneladas de farelo de soja nesta temporada 2016/17, contra o total de 15,64 milhões do ano comercial anterior. Ainda segundo números da OCDE - ilustrados no gráfico abaixo - não só o consumo o de carne de frango é crescente entre os asiáticos, bem como o de carne suína. E a curva é de avanço até 2025. 

China 

A potência da China já é amplamente conhecida pelo mercado da soja e, em seu último boletim mensal de oferta e demanda, o USDA ainda ampliou sua estimativa para as importações deste ano para 87 milhões de toneladas. "E a demanda por lá continua muito forte, e os embarques continuam bem acelerados tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos", diz Brandalizze. 

Embora as margens de esmagamento na nação asiática tenham registrado algum recuo, ainda estão favoráveis e são mais combustível para as importações de matéria-prima, portanto. E em abril, parte da indústria processadora do país deve retomar suas atividades após um período de recesso para manutenção, podendo aquecer ainda mais o setor. 

"As mesmas margens se mantêm mais sólidas com a soja futura (a comprar). Em outras palavras, a soja que agora está disponível na China, e que um dia foi comprada pelo valor do mercado futuro, se mostra menos lucrativa que as atuais cotações da soja em Chicago. A recente baixa dos preços em Chicago tem sustentando as margens de esmagamento na China, mantendo as importações chinesas aquecidas em plena colheita de safra brasileira e começo de colheita na Argentina", explicam os analistas de mercado da AgResource Brasil (ARC Brasil).

Margem de Esmagamento na China

Assim como nos demais países emergentes, e com um crescimento ainda estimado nos 6,5%, a maior demanda por soja reflete a mudança e as melhorias nos hábitos de uma população cada vez mais urbana, com uma procura maior pelas proteínas animais. "Este ano, devemos ter um aumento na demanda por ovos na China para 2 unidades per capita, serão 3 bilhões de ovos. E essa é uma demanda que, mesmo pouco comentada, cresce muito globalmente, tal qual a de leite, lácteos e derivados", diz o consultor da Brandalizze Consulting. 

Potencial do Brasil

E dos embarques recordes de soja observados neste ano no Brasil, mais da metade foi direcionado aos chineses. E o ritmo deve seguir aquecido já que há muitos navios ao largo do portos brasileiros e os fretes marítimos - variando de algo entre US$ 38,00 e US$ 40,00 por tonelada estão de 10% a 20% mais baratos do que no ano passado. 

"Na última semana, o Brasil embarcou mais de 2 milhões de toneladas em 7 dias (um recorde para dada época do ano) e vendeu (compromissos) mais de 5,2 milhões de soja. O adicional de vendas colocou as exportações brasileiras 2016/17 em um recorde de 21,3 milhões, sendo 12% maior do que no ano passado. Além do mais, baseado na fila de navios nos portos brasileiros e a lista de navios programados para chegar, em março os brasileiros poderão embarcar quase 9,6 milhões de toneladas", diz ainda a ARC. 

Ainda elevando o potencial exportador brasileiro, a eficiências do portos nacionais contribui. Ainda de acordo com a consultoria internacional, o tempo de espera dos navios a serem carregados em Paranaguá é de, aproximadamente, 4 dias, contra 40 do ano passado, nesta mesma época. E esta é uma realidade observada também em outros terminais. 

O que ainda traz grandes desafios para o produtor brasileiro nesta temporada, porém, é o câmbio. O dólar baixo ainda pesa na formação dos preços da oleaginosa, o que limita sua competitividade frente aos outros exportadores. Enquanto o indicativo da referência junho/17 tem preços de US$ 385,00 a US$ 390,00 por tonelada nos portos brasileiros, no Golfo - principal canal de escoamento da safra americana - o valor ainda é US$ 384,00.

"Há um potencial de consumo para todo esse aumento de produção que está sendo visto, mas a sazonalidade do mercado está aí e o produtor precisa saber lidar com ela. Estamos entrando nas quatro semanas mais frágeis do ano para os preços, com o pico da colheita da soja e do milho verão", explica Vlamir Brandalizze. 

Depois disso, as oportunidades poderão começar a mudar e o produtor encontrar um ambiente mais favorável para voltar à comercialização. Até porque a demanda interna também pode estar mais aquecida, com um bom momento para os granjeiros, além do consumo maior no setor nacional do biodiesel, com uma maior porcentagem de óleo de soja no combustível. 

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Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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