EUA terão que importar soja do Brasil? Possível, mas pouco provável, explicam analistas

Publicado em 17/11/2020 15:40 e atualizado em 17/11/2020 18:17 1983 exibições
Com mais de 83% da oleaginosa vendida e esmagamento forte, estoques americanos são ajustados

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Os números mais recentes do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) aliados à força muito evidente da demanda mundial por soja mostram o quão apertado está o quadro mundial de oferta e demanda da oleaginosa. E mais do que isso, como estas condições vêm pavimentando um caminho de altas consistentes para a commodity no mundo todo. São estoques ajustados em todas as principais origens, enquanto a safra nova da América do Sul sofre severas ameaças das condições climáticas marcadas pelo La Niña. 

As exportações brasileiras de soja em 2020, de acordo com os últimos números da Secex (Secretaria de Comércio Exterior), somam 82,372 milhões de toneladas no acumulado do ano. São vendas históricas. Para todo o complexo soja são 105,1 milhões de toneladas. 

Os números evoluíram rapidamente - principalmente no primeiro semestre - e, embora ainda haja um resquício de oferta no país, o Brasil também registrou em 2020 importações maiores da oleaginosa em relação aos anteriores. Até este momento são cerca de 542,2 mil toneladas, também segundo a Secex, contra pouco mais de 76 mil do mesmo período de 2019. 

O movimento não se restringe só à oferta 2019/20 do Brasil, mas as exportações da safra nova também são muito expressivas. São mais de 60% da oferta comprometida. Não só a demanda intensa foi refletida nestes números, mas também os bons preços - e recordes - que foram garantidos pelos sojicultores brasileiros. Dessa forma, já é possível entender que além de atrasada, a nova safra brasileira de soja chegará ao mercado com menor volume ainda a ser comercializado. 

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Enquanto isso, nos Estados Unidos a situação é semelhante. São 83,3% do total projetado pelo USDA para ser exportado pelo país -  de 59,9 milhões de toneladas - já comprometidos. Dessa forma e com um esmagamento muito forte sendo registrado, os estoques finais norte-americanos foram reduzidos para 5,2 milhões de toneladas, um dos menores dos últimos anos. 

"Nunca tivemos tanta soja já compromissada para embarque futuro nos EUA como temos agora. E é bem provável que, se esse ritmo perdurar, é bem possível que vejamos norte-americanos necessitando originar soja em outros países e o lugar mais próximo seria o Brasil pelos portos do Arco Norte", explica Matheus Pereira, diretor da PÁTRIA Agronegócios. 

E essa foi uma das especulações ventiladas pelo mercado neste início de semana: a possibilidade dos EUA terem que importar soja do Brasil no ano que vem. Analistas ouvidos pelo Notícias Agrícolas acreditam que esta é uma possibilidade, porém, ainda distante. 

"É bem mais provável que os norte-americanos desacelerem as vendas futuras antes de começarem a fazer contas para a viabilização de importação da nossa soja, especialmente porque o mesmo importador que compra soja hoje dos EUA teria mais fácil acesso para comprar direto daqui do Brasil, se houver disponibilidade, do que os norte-americanos originarem essa soja aqui na América do Sul. É possível? Sim. É provável? Não", explica o diretor da PÁTRIA. 

Para Luiz Fernando Gutierrez, analista da Safras & Mercado, será importante monitorar, especialmente, os números dos estoques norte-americanos para entender como os EUA deverão se comportar nos próximos meses e isso não só pelas exportações aceleradas, como também pelo esmagamento fortalecido.

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"Não acredito que possa ficar muito pior do que isso, a não ser que a safra (americana) continue sendo reduzida. O corte do USDA (no reporte mensal de oferta e demanda de novembro) foi maior do que o mercado esperava, e acho pouco provável que continue caindo mais, então vai depender das exportações e do esmagamento. Com um estoque de 5 milhões não tem porque comprar soja aqui", diz. "Mas se formos para 2 milhões, 1 milhão, podemos inverter esse quadro e o que temos no Brasil virar o quadro americano, sendo que o quadro brasileiro é ainda pior, com menos de 1 milhão (de toneladas em estoque)", completa. 

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Cruzando todas estas informações e com as importações chinesas na casa de 100 milhões de toneladas, há uma aposta intensa sobre a nova safra da América do Sul, para onde está voltada boa parte dos olhos do mercado mundial da commodity neste momento.
 
"A produção de soja tem que ser grande e próxima do ideal. Todavia, há um potencial real de que a evolução das condições climáticas no Brasil e na Argentina possam criar a necessidade de um racionamento da oleaginosa. Isto poderia implicar em preços subindo ainda mais, mantendo os estoques com os vendedores. E estes números tornam o mercado ainda mais sensível e volátil", explica o analista do portal americano SuccessfulFarming, Bryan Doherty.

Mais de 50% da produção mundial de soja é oriuna da América do Sul, o que amplia sua importância no andamento dos preços em qualquer parte do globo onde haja a oleaginosa sendo comercializada. Se as colheitas brasileira e argentina inspiram cautela a preocupação, no Paraguai não é diferente. 

Com o plantio concluído, os produtores agora esperam por uma regularização das chuvas para um desenvolvimento satisfatório de suas lavouras. O país deverá colher algo entre 9,9 e 10,2 milhões de hectares, de acordo com consultoria DASAGRO. E assim como nas demais origens - à exceção da Argentina, os estoques são apertados e da nova safra já há entre 33% e 35% comercializados antecipadamente.

"E o produtor hoje não está vendendo porque está esperando os preços subirem, está vendo toda essa aceitação boa em Chicago e de prêmios no Paraguai. Não tem porque ele sair vendendo mais, e está esperando uns 50% de sua produção chegar na fase de floração para voltar a vender", explica Esther Storch, diretora-sócia da DASAGRO. "E safrinha (de soja) já acreditamos que não vai ter por causa do atraso no plantio. Acredito que o produtor vai optar por plantar mais milho do que soja". 

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A média dos preços da soja no Paraguai têm rodado perto de US$ 400,00 por tonelada ou US$ 24,00 por saca, muito remuneradores para os sojicultores paraguaios. No Brasil, a safra nova segue próxima dos R$ 150,00 por saca, mesmo com um movimento considerável de baixa do dólar frente ao real. Em Chicago, o contrato janeiro/21 alcançou os US$ 11,70 por bushel e, também como já sinalizaram especialistas, têm potencial para os US$ 12,00. 

Em suma, o mundo tem uma oferta 'disponível' limitada, uma nova oferta ainda incerta e uma demanda evidente, crescente e robusta. Os preços, portanto, continuarão, como explicam os especialistas, traduzindo este cenário. 

 

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Por:
Carla Mendes | Instagram @jornalistadasoja
Fonte:
Notícias Agrícolas

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1 comentário

  • Sérgio de Oliveira Carneiro Goiânia - GO

    Em relação ao que o Paraguai deve colher de soja, está constando na publicação: 9,9 a 10,2 milhões de HECTARES, e o correto é 9,9 a 10,2 milhões de TONELADAS!

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